EDITORIAL

Opostos, mas unidos

O poder público foi o principal protagonista no combate à pandemia surgida pelo contato entre o homem e o coronavírus Sars CoV-2 e responsável pela maior crise sanitária e econômica desde 1918, ano da gripe espanhola.

Em Mogi das Cruzes, uma análise já possível de ser feita diz respeito à concentração das decisões nas mãos do governo municipal e a tímida presença da sociedade civil organizada durante a pandemia.

Exemplo disso foi citado pelo ex-secretário municipal de Saúde, Marcelo (Teo) Cusatis, em nossa edição de domingo, em reportagem sobre o que dizem as curvas pontuais dos casos confirmados e mortes nos bairros.

A maior parte dos doentes em estado leve, grave ou assintomático reside nos conjuntos de habitação popular de Nova Jundiapeba e nas demais regiões de Jundiapeba, e na Vila Oliveira. Dois pontos opostos pela localização geográfica e o perfil socioeconômico dos moradores, unidos pela força do trabalho doméstico.

Vigilantes, jardineiros, motoristas, diaristas e acompanhantes de idosos não pararam de trabalhar nas fases mais severas da quarentena – o que felizmente garantiu a renda e sobrevivência de muitas famílias.

Pode ter faltado a esses dois eixos a presença mais firme do estado (com a fiscalização, rastreamento dos casos, e informação qualificada) e da sociedade civil (na pele de gestores mais dinâmicos e de associações de bairros fortalecidas).

No Estado de São Paulo, um dos melhores exemplos da prevenção em áreas com alta densidade populacional é encontrado em Paraisópolis, conhecida favela da Capital, onde lideranças e organizações sociais protagonizaram algo valoroso. Inclusive fazendo o papel do poder público, mapeando os casos e orientando como deveriam fazer os familiares que viviam com os pacientes leves e moderados dentro de casa.

Em Mogi das Cruzes, isso não ocorreu nem mesmo diante das eleições municipais, um terreno fértil para se dar visibilidade a quem tem interesses políticos.

Óbvio que a pandemia, até por sua característica de controle, restringe a atuação social. Inclusive da Prefeitura, que se viu com pouca expertise para dar conta de tanta pressão e urgência. Porém, à cidade, fica o alerta dramático sobre o custo do enfraquecimento de representatividade da sociedade civil organizada. Isso pode ser revisto, no pós-pandemia, com o fomento, a capacitação e o estímulo à articulação comunitária.


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