EM LIVRO

Os 80 anos de Jundiapeba e os fatos marcantes

Jornalista Gustavo Gomes escreveu livro sobre os 80 anos do distrito. (Foto: Natan Lira)
Jornalista Gustavo Gomes escreveu livro sobre os 80 anos do distrito. (Foto: Natan Lira)

De Jundiapahuba a Campos do Santo Ângelo, e, em 1944, Jundiapeba, o distrito a oeste de Mogi das Cruzes, e alguns de seus moradores, foram objeto de pesquisa do jornalista Gustavo Gomes Ricardo, no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em 2018, que se transformou em um livro, com 94 páginas.

A obra, 80 anos de Jundiapeba – Fatos Marcantes, fala sobre as origens do distrito e sublinha o crescimento populacional ocorrido a partir deste século, quando oito conjuntos habitacionais do Programa Minha Casa, Minha Vida, e um nono empreendimento, o Real Parque Tietê, ergueram mais de 3 mil moradias, e inflaram o censo de Jundiapeba, que passou a abrigar, segundo algumas estimativas, entre 13 mil e 15 mil pessoas em poucos anos.

A escolha do tema para o TCC, Jundiapeba, se deu, segundo diz o jornalista, porque “ali sempre foi considerado um lugar de violência e pobreza, menosprezado por muitas pessoas”.

Em três meses, ele conheceu e entrevistou antigos moradores e pesquisou livros e fontes, como os arquivos do jornal O Estado de S. Paulo, para compor um livro-reportagem, que resgata a história de uma parte de Mogi das Cruzes nascida praticamente a forcéps, que vive a expectativa de uma outra grande virada, após a abertura da Avenida das Orquídeas. A via dará à região, uma nova rota viária entre Suzano e Mogi, uma alternativa à saturada rodovia SP-66, e possibilitará o início da ocupação urbana, à direita da estrada ferroviária, no sentido São Paulo.

O crescimento econômico é um fenômeno relativamente novo, com o adensamento demográfico, e a melhoria da infraestrutura viária e de serviços como educação e saúde.

No passado, o inibidor foram as características da gleba do território, entre os rios Jundiaí e Taiaçupeba – o terreno alagadiço e as terras baratas e não vendidas em contratos de gaveta e muitas vezes, de forma ilegal, atraíram levas de migrantes de estados do Nordeste, todos denominados de uma só maneira, baianos, como se todos tivessem nascido na Bahia de todos os santos.

Essa é uma das histórias replicadas por Gomes, no livro, a partir de entrevistas como a feita com o produtor rural Josemir Barbosa de Moraes, o Miro, um dos primeiros agricultores da Chácara dos Baianos, um polo da cultura de hortaliças que, a partir das décadas de 1980 e 1990, se fortalece e passa a projetar o nome de Mogi das Cruzes na Região Metropolitana de São Paulo por causa da larga escala de produção de maços (salsinha, cebolinha, etc.).

Miro relata a difícil luta encampada pelas famílias de produtores, grande parte deles, de Pernambuco, que começaram a cultivar a terra de boa qualidade, a partir do final de 1960. Algumas décadas mais tarde, em 1990, esses lavradores enfrentaram a resistência de pessoas que não os queriam naquelas terras. Líder do grupo, ele conta ter sofrido ameaças de morte. “Eu e os meus amigos éramos persistentes, nunca tive e nem tenho medo de morrer para ajudar as pessoas que precisavam e precisam até hoje. De uma coisa eu sei, ninguém sai desse local devido à luta que tivemos”.

Essa luta foi encerrada para uma parte das famílias que obtiveram a posse dos imóveis. Graças ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), muitos proprietários possuem, hoje, a posse da terra que, originalmente, pertencia aos carmelitas (veja retranca) e foram doadas à Santa Casa de São Paulo, que, por sua vez, autorizou o plantio feito pelo primeiro grupo de agricultores daquele lugar. Entre eles, algumas famílias japonesas e de ex-pacientes do Leprosário Santo Ângelo.

Maria Aparecida da Silva integra uma das famílias que viveu da agricultura ali, e tem a história marcada pela hanseníase. Ela é filha de Jovelina Pereira de Carvalho, que após ser internada no hospital e ter alta, foi morar com o marido em um casebre de madeira. Maria e os irmãos, que ficaram em Cunha, onde nasceram, foram trazidos para Mogi, porque o pai decidira ficar perto da mãe, durante o tratamento.

“Minha mãe ganhou alta do hospital, e meu pai, conseguiu um emprego e mais um casebre de madeira com um dos produtores japoneses que moravam por aqui. Por conta disso, nos buscou em Cunha, e nos trouxe até Jundiapeba para que começássemos uma nova vida, e minha mãe pudesse continuar o tratamento no hospital”, disse Maria a Gustavo, que mora em Braz Cubas.

O jornalista, agora formado, é filho único, e tem planos de editar uma segunda impressão do livro, para distribuí-lo nas escolas de Jundiapeba. “Quem mora em Jundiapeba, costuma conhecer apenas um lado de sua história”, diz.

O livro retrata personagens que são retirados da invisibilidade, e também outros moradores e trabalhadores que transformaram o Distrito de Jundiapeba, em meados do século passado. Destaca ainda a trajetória de empreendimentos, como a extração mineral iniciada pelo empresário Fumio Horii (caulim, areia e saibro), a Itaquareia (areia), que tem como proprietários Agostinho Luiz de Faria e Antero Saraiva, entre outros, e da rede de negócios como agricultura, comércio e serviços, que deram emprego a muitos dos moradores. “Muitas pessoas trabalham nesses locais, o que movimentou a economia de Jundiapeba, e ainda há outras fontes, como as obras de infraestrutura, que empregaram muita gente”.

A descrição da atividade mineral está no capítulo que fala sobre o “Tesouro de Jundiapeba”.

Trajetória

As mudanças observadas agora como o comércio vibrante na avenida de acesso à Estrada das Varinhas começaram no passado, com a inauguração da estação ferroviária, em 1914, a instalação do Hospital Dr. Arnaldo Pezzutti Cavalanti, o antigo leprosário Santo Ângelo, da Barragem de Taiaçupeba, e mais recente, o empreendimento Club Med Lake Paradise, edificado por Fumio Horii.

O Paradise colocou a Copa do Mundo na rotina dos moradores. Em 2010, a Seleção da Bélgica escolheu o luxuoso resort como endereço durante a competição, e Mogi das Cruzes esteve na rota do mundial.

“As pessoas sentiram orgulho de Jundiapeba, e os jogadores do time, contaram, naquela época, que quando chegavam dos jogos, os moradores estavam nas calçadas, e os saudavam quando eles voltavam para o hotel, que também se preparou, com obras, como a construção de um campo de futebol”, comenta o jornalista, que acumulou histórias no levantamento dos dados. Gustavo Gomes ia de bicicleta a pontos como a região dos chacareiros. “Um dia peguei uma chuva, e fiquei todo cheio de lama”, conta, agora, sorrindo da experiência.

As curiosidades sobre Jundiapeba

+ Uma das primeiras referências ao lugar, descreve o jornalista Gustavo Gomes, é Jundiapahuba, em referência à grande quantidade do capim-melaço, ou capim-gordura, que crescia avidamente naquelas terras. O nome vem do tupi-guarani, e uma das denominações do lugar era Jundiá (que também denomina um peixe de águas doces).

+ Até 1944, o nome daquele território era Campos do Santo Ângelo, as terras doadas por Braz Cubas aos freis carmelitas, que também detinham terrenos em Taiassupeba. Sim, esse era o nome da também conhecida Capela do Ribeirão, até aquele ano, quando os dois “SS” foram substituídos pelo “ç”, e Jundiapeba passou a denominar a área. O nome é uma corruptela dos rios Jundiaí e Taiaçupeba.

+ Hoje pertencente à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, as terras do Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti eram, no início, da Província de Santo Elias, dos freis carmelitas. Em 1918, os religiosos doaram uma parte delas para Santa Casa paulistana, após receberem um pedido do grupo de senhoras da Associação Protetora dos Morpheticos, que trabalhou pela construção do leprosário, no início do século passado. A obra durou 10 anos. E os primeiros pacientes foram internados, compulsoriamente, a partir de agosto de 1928.

+ Jundiapeba tem cerca de 70 mil habitantes, 50 quilômetros quadrados, 30 escolas públicas e sonha receber, entre outros empreendimentos, um shopping e um aeroporto particular, que poderá atender, inclusive, aeronaves de medo porte. Os dois empreendimentos são da família Horii, que começou a vida, no lugar, na agricultura, descobre o caulim, em suas terras, e se torna uma das mais bem sucedidas e ricas de Mogi das Cruzes. Essa história familiar também está no livro de Gustavo Gomes.(

Disseminar a história
O jovem jornalista Gustavo Gomes busca ajuda financeiro em editais de leis de incentivo à cultura para publicar a segunda impressão do livro 80 Anos de Jundiapeba, com algumas revisões. A meta é ampliar a distribuição entre escolas e moradores do distrito. Ele pretende, ainda, conseguir entrevistar o prefeito Marcus Melo e o deputado federal, Marco Bertaiolli. Durante o preparo do livro reportagem, bem que ele tentou falar com as duas autoridades. “Mas, um estudante tem pouco prestígio, não consegui marcar com os assessores”. Ele também enfrentou dificuldades com pastas do Governo do Estado. Queria, por exemplo, contar a história da construção da Barragem de Taiaçupeba. “Com mais tempo, quero ampliar as informações, e projetar o que virá, no futuro, para Jundiapeba”, intenta.