CLARISSE REBOUÇAS

Os desafios da mulher empreendedora

Nesta entrevista, ela comenta como foi a experiência e conta os principais desafios de empreender sendo mulher e mãe. (Foto: Vitoria Mikaelli)
Nesta entrevista, ela comenta
como foi a experiência e conta os principais desafios de empreender sendo mulher e mãe. (Foto: Vitoria Mikaelli)

Morando em Mogi há 15 anos, Clarice Rebouças Julio comanda, ao lado de Clarissa Ornellas, a loja Menina de Laço, que comercializa peças de vestuário infantil. Ao longo de 10 anos a empresa delas conquistou, além do e-commerce que atende todo o Brasil e de uma loja física na cidade, outros sete pontos de venda em shoppings de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Formada em administração de empresas, Clarice defende o empoderamento feminino, e por conta deste engajamento fez parte de um programa de mulheres que a levou a participar do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, no mês passado. À O Diário ela comenta como foi essa experiência e conta os principais desafios de empreender sendo mulher, mãe e empreendedora.

Hoje a marca Menina de Laço é muito conhecida em Mogi. Como se deu o processo de fortalecer a empresa?

Inicialmente, eu e a Clarissa consumíamos os produtos e depois começamos a comercializá-los. Como nossas filhas tinham idades parecidas e usavam o acessório, passaram a ser chamadas de “meninas de laço”, nome que utilizamos na empresa e que ficou muito forte em Mogi. Como sempre prezamos pela qualidade, a partir de um determinado momento as pessoas começaram a perguntar pelos nossos produtos. Foi quando colocamos etiquetas com o nome da loja, mas só depois de irmos para a Ásia verificar como o produto era feito, para nos certificarmos da qualidade.

Como foi essa viagem à Ásia?

Em 2016 passamos 15 dias na China, para conhecermos o fornecedor. Na época já pensávamos em abrir pontos de venda, mas não dá para fazer isso ser saber quem está fornecendo. Na viagem, descobrimos que existe qualidade de A a Z por lá, e a empresa que utilizávamos possuía certificação correta e estava em dia coma parte trabalhista. Visitamos sete cidades e conhecemos todas as etapas de produção, falamos com os funcionários. E foi isso que nos deu segurança para expandir o negócio.

Então vocês concluíram que não compensava em investir na produção dos laços no Brasil?

Já avaliamos, e montar uma confecção aqui não compensa. O produto é totalmente manual e depende de funcionários, o que é muito caro no Brasil. Apesar do imposto de importação também ser caro, vale mais a pena do que produzir em território nacional.

Hoje a gente compra produtos no mercado nacional só pela agilidade. A moda é muito rápida, e o que é postado no Instagram rapidamente vira tendência. Nesses casos a China demora a nos atender, pois as entregas chegam entre 60 e 90 dias, então compramos por aqui quantidade suficiente para atender a demanda de pronta entrega, até chegar nosso produto de lá.

E como vocês enxergam a concorrência?

É um desafio, mas que agrega muito e não nos deixa ficar paradas. Muita gente começou a vender produtos como os nossos porque eles têm potencial, as pessoas querem consumir. Uma mãe não quer que a filha dela tenha um laço só, quer que tenha um para usar com cada roupa, em cada ocasião. Com isso surge uma necessidade de consumir, e por consequência as pessoas vão fornecer. Justamente por isso fomos para o varejo físico, onde só competimos com profissionais, diferente da internet, onde há espaço para artesões, por exemplo. Ou seja, a concorrência é boa porque traz novas ideias e agrega valor ao negócio.

O modelo de negócios da Menina de Laço envolve expansão a partir de pontos de venda próprios. Como é equalizar a padronização nos diferentes locais de atuação?

Desde o início nossa ideia era criar uma franquia, mas em 2015, quando começamos os pontos de venda, o Brasil enfrentava uma forte crise econômica e política, então preferimos esperar. Isso ainda é um projeto, mas como hoje todos nossos pontos são próprios procuramos ao máximo estar perto de cada um deles. Para isso, utilizamos mídias como o Whatsapp para comunicar com nossos funcionários e manter a padronização, comunicar sobre novos produtos, etc.

Como é trabalhar com um nicho de mercado, algo tão segmentado?

Ao contrário do que pode-se pensar, não acho difícil trabalhar com nicho. O nosso segmento é um dos melhores, visto que o universo infantil não foi tão afetado pela crise, porque a mãe deixa de comprar para ela mas não deixa de comprar para o filho. Outra vantagem é que a moda foi impulsionada pelas redes sociais, que são uma ótima plataforma de divulgação para atingir todo o país de forma barata.

E como é ser uma mulher empreendedora?

Nossa empresa é 100% feminina, e não sei se pelo nosso principal consumidor ser mulher, enfrentamos muita dificuldade no começo, como para abrir conta no banco ou para conseguir crédito. Os gerentes não queriam nos ouvir, e só conseguimos crédito depois de apresentar resultados, o que não está certo. São situações infelizmente muito comuns enfrentadas pelas mulheres.

Então no mundo dos negócios há preconceito contra a mulher?

Sim. Existe uma diferença de tratamento de acordo com o gênero. Quando começamos a divulgar nosso trabalho, as pessoas achavam que era franquia e entravam em contato, interessadas em participar, e dava para perceber que existia um pensamento do tipo: ‘Quem é o homem por trás dessa história?’, ou ‘Seu marido dá opinião no seu negócio?’. Na verdade, nossos maridos não opinam e nunca opinaram em nada na empresa, que só tem funcionárias mulheres.

Quais dicas você pode dar para mulheres que estão começando a empreender e enfrentam situações como essas?

Elas podem participar de programas como o 10.000 Mulheres, da Goldman Sachs, do qual fiz parte, podem assistir palestras da rede mulher empreendedora, que são gratuitas, e participar de programas de mentoria. A Menina de Laço foi nossa primeira empresa, e quando pensamos em abri-la, participar deste tipo de ações foi como um divisor de águas, pois tivemos orientação em diversos segmentos e principalmente para saber como conseguir tomar crédito, que é um medo dos empreendedores. Também é válido participar de programas do Sebrae, que oferecem ajuda financeira, para saber como medir o negócio, identificar pontos de decisão, aprender qual o preço correto para vender o produto, com qual margem trabalhar, enfim, ter os números na ponta do lápis.

Falando no programa 10.000 Mulheres, foi a partir dele que surgiu o convite para participar do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado na Síria, no mês passado?

Isso. Todas as mulheres que participam deste programa continuam enviando informações do seu negócio até 36 meses depois de começar. Como nós tivemos crescimento de receita de 117% neste período e triplicamos o número de funcionários (hoje são 30), fui selecionada, dentre as mulheres brasileiras, a ir até lá contar essa história.

Como foi essa experiência?

Desafiadora, pois eu e mais três mulheres (da Nigéria, Egito e Índia) apresentamos nossas empresas e falamos da diferença que o programa fez em nossas vidas, famílias e comunidades, para principais investidores de banco e CEOS de grandes empresas. Davos reúne o “PIB mundial” ou seja, todas as pessoas que tem dinheiro, e elas estão ali como fossem olheiros. Foi uma forma de vender nossos negócios para que eles entrem em contato, pensando em investir com retorno, além de defender o empoderamento feminino.

Ao participar da conferência, você representou não só a Menina de Laço, como as mulheres de Mogi das Cruzes, do Estado de São Paulo e do Brasil. Como se sente em relação a isso?

Super honrada. Em Davos acontecem muitas coisas ao mesmo tempo, e eu estive em vários painéis voltados para o empoderamento feminino. É um grande reconhecimento emocional, por todas as vezes que abri mão de estar com família e amigos. Não é fácil empreender no Brasil, independente de gênero. Mas para uma mulher é ainda mais difícil, e eu como mãe, enfrento um desafio cotidiano, ficando muitas vezes entre o filho querendo atenção e o negócio.