EM CASA E NA ESCOLA

Os desafios de educar e impor limites à nova geração

Mudanças constantes da sociedade têm influência na criação dos filhos e no prepara para a situações da vida. (Foto: Eisner Soares)
Mudanças constantes da sociedade têm influência na criação dos filhos e no prepara para a situações da vida. (Foto: Eisner Soares)

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, diz que o ser humano passa por cinco etapas de formação da psique, e as três principais dessa fase de construção ocorrem até os cinco ou seis anos de idade. A teoria freudiana atravessa as gerações e se mantém entre os estudos atuais de desenvolvimento humano, mas o desafio dos pais e educadores de preparar os filhos nestas etapas e impor limites passa por mudanças conforme os cenários da sociedade se transpõem.

A socióloga Marina Alvarenga avalia que houve mudança na relação entre pais e filhos, sobretudo porque os pais, no passado, eram mais seguros na educação de seus filhos, mas atualmente estão tanto mais ausentes como a tecnologia se faz mais presente no processo de educação, cenário que fomenta o sentimento de autossuficiência nos pequenos.

“Ao mesmo tempo, isso traz mais angústia, porque a frustração faz parte do processo. Mas uma criança que tem resposta para tudo, o tempo todo, em uma situação não vai saber dar essas respostas, e a frustração faz parte do nosso crescimento. É preciso ensinar sobre competição, senão ela vai crescer acreditando que o mundo lhe deve alguma coisa”, ressalta Marina.

A socióloga, porém, conta que essa mudança não está atrelada apenas à tecnologia e começa a partir da década de 1970, quando a mulher passa a ir para o mercado de trabalho e a educação dos filhos é terceirizada. “A criança vai para a escola normal, depois escola de música, de dança, faz curso de línguas. É cada vez uma geração melhor preparada do que os pais para o mercado de trabalho, mas que esbarra na falta de preparo psicológico. Não é à toa a crescente nos casos de doenças psicológicas”, avalia.

Por fim, Marina pontua como reflexo a geração conhecida como ‘nem nem’, que a partir da vida adulta nem estuda e nem trabalha. “Acham que a vida é falha, porque não dão conta de uma tristeza, de uma perda e parte acaba recorrendo às drogas, seja remédio ou as ilícitas”, finaliza Marina.

Apesar da educação dos filhos competir aos pais, é na escola que eles lidam com os primeiros desafios de convivência, provas e frustrações. O Diário entrevistou as coordenadoras Maria do Carmo Nascimento, Doralice Aparecida Ferreira Iniesta Castilho e Maria das Dores da Silva, do Instituto Dona Placidina, em Mogi das Cruzes, um dos colégios mais tradicionais da cidade.

Segundo as profissionais, no primeiro contato com os pequenos, elas tentam estabelecer diálogo reflexivo com as crianças a fim de mostrar a elas que para a convivência harmônica há a necessidade de regras e, para o bom andamento do ambiente escolar, é necessário produzir com elas estas normas de convivência. “A produção dessas normas, uma vez feita com a participação delas, gera compromisso e responsabilidade no cumprimento das mesmas”, destacam.

No dia a dia, as coordenadoras da unidade perceberam a mudança no perfil das crianças. Hoje são mais agitadas, imediatistas, menos reflexivas e mais ativas tecnologicamente, embora algumas ainda sejam dependentes e exijam do professor o desenvolvimento de ações que possibilitem a autonomia, inclusive para atividades consideradas simples. As crianças são mais desenvoltas, participativas, questionadoras e conectadas a muitas informações ao mesmo tempo, o que as tornam dispersas, com dificuldade de manter o foco em uma única atividade por muito tempo.

“Para atingir os alunos com esse perfil, o professor deve ser um mediador atento, inovador e buscar soluções para as diversidades presentes na sala de aula. Atuar de maneira que o aluno seja o protagonista nesse processo. E, para isso, deve ser um bom ouvinte e oportunizar situações em que o educando fale, discuta, crie e faça”, pontuam.

Para as educadoras, a família deve enxergar a escola como parceira na formação não apenas acadêmica, mas da pessoa imbuída de valores. O educando tem que saber que o estudo é de responsabilidade dele e reconhecer que perdas e frustrações fazem parte da vida, caso contrário, os problemas vividos na infância refletirão na fase adulta.

“O que se percebe na geração conhecida como ‘nem nem’, é que ela visa apenas o topo, o fim da caminhada e o sucesso, mas não enfrenta os obstáculos, as pedras no caminho, os tropeços. Situações tão importantes para o amadurecimento e o desenvolvimento do socioemocional de qualquer pessoa”, avaliam.

Imediatismo preocupa os pais 

A professora Alessandra de Deus Almeida Capobianco, de 42 anos, percebeu a mudança entre as gerações. Há 16 anos, ela foi mãe de Brenda, há 14 de Yan, depois veio Renzo, há 10, e por último Arthur, que está com 2 anos. Alessandra diz entre os processos de educação dos filhos, o do menor é que o mais a preocupa. Em parte porque também ficou com menos fôlego, mas também porque o pequeno filho parece ser mais sedento.

Alessandra com os quatro filhos. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Ele é muito mais observador, agitado, está o tempo inteiro com o celular na mão, tem resposta para tudo. A preocupação é exatamente essa, porque a tecnologia que havia na época dos outros era apenas televisão, jogos e esses equipamentos estavam começando. Eram coisas mais educativas, mais simples, mas hoje em dia parece que as coisas mais pedagógicas não os atrai”, avalia.

Alessandra conta que a preocupação é também com que esse imediatismo da vida que eles vão criando deixe o filho mais ansioso. “Todo dia vemos o aumento nos casos de ansiedade, então, a gente que é mãe fica pensativa. E de certa forma, também precisamos aprender como lidar com isso, porque eles nasceram nessa época e a tecnologia é sem volta”, pontua.