ARTIGO

Os sons da minha casa

Perseu Gentil Negrão

Em pleno Século XXI, no meio da cidade, um “maldito” vizinho (que ainda não descobri quem é), resolveu criar um galo. O pior é que o tal do “penoso” não tem hora para cantar. Ontem, o garnisé começou a cocoricar às 8 da matina. Levantei para atender aos reclamos da velha próstata e perdi o sono. Daí parei para pensar a respeito dos sons da minha casa.

Há alguns barulhos que são perenes. Um bater de porta, uns estalidos meio fantasmagóricos, o motor do portão da garagem…

Porém, a maioria dos sons é passageira. Comecei a habitar a casa antes de ela estar totalmente edificada. Assim, no início, eram os barulhos dos pedreiros. O barulho de construir um sonho. Em seguida, um dos sons mais maravilhosos. O dos choros das crianças. Logo substituído por outros também extremamente bons: alaridos, correrias, brinquedos. As conversas a respeito da escola, a gritaria das outras crianças que frequentavam a casa. As músicas da infância e da adolescência. Por quase duas décadas a casa era sonora, musical. Com sons melhores dos que os das grandes orquestras.

O tempo foi escoando. As crianças cresceram, “bateram asas”. Nos dias úteis, vez ou outra o doce tilintar do telefone. Mas havia os finais de semana. Barulhos do motor do portão da garagem, as conversas a respeito das faculdades, dos sonhos. Melodias suaves, acalentadoras…

Atualmente, gosto de ouvir os saltos dos sapatos da minha esposa, e sua tossinha esporádica. Os latidos da Bisteca. Por falar na cadelinha, adoro seus ganidos de alegria, quando as “Meninas” aparecem em casa, vez ou outra.

Acontece que minha presbiacusia (perda auditiva que afeta pessoas na terceira idade) vem aumentando, agravada pela solidão. A cada dia, os sons estão diminuindo.

Pode ser que um dia eu sinta falta até mesmo do cocoricar do “penoso” do vizinho.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo