EDITORIAL

Ousadia para o bem

“Neste caso, Chico Nogueira conspirou para o bem”

O testemunho que nos dá o médico Olavo Ribeiro, publicado nesta edição em reportagem de Darwin Valente, é daqueles momentos que merecem reflexão. Há emoção nele, marcada, sobretudo, pelo triste evento de 26 de maio de 1994, 25 anos passados no último domingo. Foi quando, a bordo de um voo que o levaria a Brasília, o então prefeito de Mogi, Francisco Ribeiro Nogueira, sofreu um infarto e morreu, antes que o avião descesse de volta ao Aeroporto de Guarulhos. Chico Nogueira era irmão de Olavo, havia completado 53 anos em fevereiro e vivia seu melhor momento político.

Chico chegou a Mogi no início da década de 1970. Veio como agente do IBGE e, em 1976, elegeu-se vereador para, na eleição seguinte, em gesto ousado, candidatar-se a prefeito. Derrotado, foi para a Assembleia Legislativa no passo seguinte, como deputado.

Em uma cidade tradicionalmente dominada por grupos hegemônicos, ele era um fenômeno político. Articulava no público e conspirava nos bastidores.

Teve, a seu favor, eventos do destino. Quando assumiu a Prefeitura, Orestes Quércia era o governador e nunca teve simpatia por Waldemar Costa Filho, que antecedera a Chico. Assim, no Palácio dos Bandeirantes, o governador diz-se disposto a uma obra de impacto na área de saúde de Mogi. Ouvindo médicos, a partir do irmão Olavo, Chico levantou o plano de desapropriar o hospital escola da UMC, com a construção paralisada. Assim proposto, assim feito; precisava então concluir a obra. E quem sucede a Quércia no governo do Estado? Luiz Antônio Fleury Filho. Os Fleury e os Ribeiro cultivavam estreita amizade em sua região de origem: São José do Rio Preto.

Assim surgiu o Hospital Luzia de Pinho Melo, referência em saúde. Não foi resultado de um plano estratégico, mas consequência de momentos políticos. E da ousadia de agentes públicos. Neste caso, Chico Nogueira conspirou para o bem.

Como costumam ser as empreitadas de interesse público, desde a proclamação da República. Aqui mesmo temos bons exemplos: tivesse sido aplicado o Plano Diretor original (1966), e Mogi das Cruzes seria uma cidade ainda melhor. Alguém por aqui se lembra dos prometidos viadutos sobre a linha férrea, em Jundiapeba e Avenida Cavalheiro Nami Jafet?