CHICO ORNELLAS

Passagens do cotidiano de Mogi das Cruzes

HENRIQUE LEITE – O cidadão elegante, fino, chegou com o trem da manhã. Apresentou-se ao Hotel Central, acomodou-se e saiu às ruas. Era o dr. Henrique Leite, médico do Rio de Janeiro que, cansado da vida agitada da metrópole, buscava nova vida na paz do Interior. Este causo começou no dia 10 de dezembro de 1918. Em pouco tempo dr. Henrique era personalidade admirado da Cidade. Foi entrevistado pelo semanário ‘A Vida’, elogiado pela elegância na Alfaiataria Ideal, onde encomendou seus novos trajes e na Farmácia Porto, de onde levou o que de melhor havia em perfumaria. A todos – hotel, alfaiataria e farmácia – dizia que aguardava a vinda de pertences que se encontravam na Capital da República, para saldar as encomendas auferidas. Antes disso, distribuiu boletins por Mogi, informando que clinicava na Farmácia Porto e no Hotel Central. Ficou bem três semanas por aqui. Até que… um diligente mogiano que vivia em Varginha (MG), informado de sua presença por estas plagas, escreveu ao semanário relatando a ocorrência de evento semelhante por lá. O redator de ‘A Vida’ o procurou no Hotel Central. Sem encontrá-lo, deixou um bilhete. Ao recebê-lo, o dr. Henrique Leite comentou apenas: “Eternos invejosos”. Recolheu-se aos seus aposentos e, pela madrugada, reuniu os trecos que tinha, pulou a janela e escafedeu-se. Foi preso alguns dias depois em São Paulo.

LAMPIÃO DE QUEROSENE 

Na primeira foto que se tem de Mogi (Schmidt/1898) o lampião de querosene aparece à direita. (Arquivo pessoal)

Mogi tinha, em 1870, 16 ruas, nove largos, três travessas e duas ladeiras. Para iluminar essa malha urbana havia 11 lampiões de querosene. Dez anos depois, os lampiões eram 39. E perduraram até o dia 7 de setembro de 1909 quando, enfim, foi inaugurada a iluminação elétrica nas ruas da Cidade. Para deleite da população e tristeza dos peraltas moleques, que se divertiam lambuzando, com sebo, os postes do Largo da Matriz. Chegaram mesmo a sofrer reprimenda da Câmara Municipal, que fez publicar na edição de 24 de junho de 1906 do jornal ‘A Vida’: “Reclamação – Chamamos a atenção dos senhores fiscais da Câmara Municipal a fim de cessarem com certos abusos praticados por uns garotos que vivem a esfregar sebo nos postos dos lampiões do Largo da Matriz”. A ‘diversão’ era sujar os ternos de quem encostasse nos postes do lampião de querosene.

A MORTE DE QUEM VIVEU – Em 1923 o dr. Deodato Wertheimer era o mais importante líder político da Cidade, admirado por 10 entre 10 dos que aqui viviam. Pois uma noite três estudantes, de volta para casa, passaram em frente à Redação do jornal na Rua Paulo Frontin. Costume que perdurou até a década de 1960, havia na Cidade várias vitrines rasas para informações de interesse público. Normalmente utilizadas para fixação de anúncios fúnebres e, na do jornal, também para antecipar notícias. Não tiveram dúvidas; colocaram na vitrine do jornal um informe: “Dolorosa notícia acabamos de receber de São Paulo – faleceu ali o ilustre dr. Deodato Wertheimer. O corpo chegará a Mogi às 11 da manhã, pela Central do Brasil”. E foram dormir. Acordaram, como a Cidade, com o burburinho da notícia falsa. Que durou o mesmo tempo de uma demorada ligação telefônica a São Paulo, onde estava o dr. Deodato Wertheimer. Vivo e inteiro.

A ÚLTIMA EXECUÇÃO

O último pelourinho de Mogi teria existido onde está hoje a Capela de São Sebastião. (Foto: arquivo pessoal)

 A elevação de povoados a vila, no período colonial, obtinha o simbolismo do pelourinho. Quando se elevava o povoado à vila (dando-lhe alguma autonomia jurídica), a ordem vinha com a autorização para “erigir pelourinho” – o ponto de suplício aplicado aos escravos que, amarrados a um tronco, eram submetidos a chibatadas. O primeiro pelourinho de que se tem notícia em Mogi foi erigido no dia 1º de setembro de 1611, no Largo da Matriz. O último teria estado no espaço hoje ocupado pela Capela de São Sebastião, na Rua Antônio Cândido Vieira. Pelos registros da Câmara Municipal foi ali que escravo condenado à forca morreu no dia 11 de janeiro de 1840. Esta conclusão decorre de anotações de despesa com carrasco, forca, corda, conserto do tronco e o sepultamento do executado; tudo nos anais da Câmara Municipal. A Lei Áurea, que aboliu a escravidão, é de 1888.

GREVE INSANA – Eram três os únicos barbeiros que havia em Mogi das Cruzes nos idos de 1897. Insatisfeitos com o aumento do custo de vida decidiram unir-se e comunicar que, a partir da semana seguinte, aumentariam seus preços. De 200, a barba passaria para 300 réis. Se tivessem conversando com os fregueses talvez não provocassem a reação que o capitão Emílio Navajas, proprietário do Hotel Central, articulou: reuniu amigos no salão do hotel, combinaram de fazer uma coleta de dinheiro e eleger um dos circunstantes para ir a São Paulo, à cata de um barbeiro. Pois Eugênio Berti, o escolhido, cumpriu à risca sua missão: foi e voltou, trazendo o barbeiro encomendado. Que atendeu por poucos dias na barbearia improvisada no hotel. Tempo bastante para os daqui recuarem e revogarem o aumento. Houve festa para celebrar a paz, encerrada com uma trova dita pelo velho Motta, irmão do Barão de Jaceguai: “A versão da versalhada/ficará como lição/que o povo é soberano/não tolera imposição”.

VELHOS CARNAVAIS

Ponto de encontro comunitário, até baile o velho mercado abrigou. (Foto: arquivo pessoal)

 Parece incrível, mas o espaço hoje ocupado pelo Mercado Municipal, no centro da Cidade, ainda ao tempo da antiga construção (demolida em 1960), serviu, entre 1892 e 1902, para os bailes de carnaval de Mogi. Era assim: metade do quarteirão tinha cobertura, metade não. Havia quem colocasse, nas laterais, mesas e cadeiras. E quem abastecesse de querosene os lampiões. Às 21 horas, lampiões acesos, chegavam as famílias. Mães e suas filhas acomodavam-se nas cadeiras, enquanto os homens dançavam no terreiro central. Sim, não ficava bem às mulheres saírem dançando. A festa avançava a madrugada, com homens fantasiados de baiana, negra louca; houve até quem tenha usado o vestido de noiva da irmã que há pouco se casara. Pais e filhos passavam próximo das mesas e recebiam tufos de confetes e metros de serpentina.

AVESTRUZ NA CABEÇA – O primeiro acidente automobilístico grave que ocorreu em Mogi das Cruzes, pelo que se tem notícia, foi em 1915. Um dos três únicos automóveis que havia por aqui capotou em um barranco. Havia nove pessoas nele e o acidente foi à noite. Ninguém se feriu em gravidade. Mas, para ter certeza de que ninguém estava sob o veículo, um dos passageiros aproximou-se e acendeu fósforo. Um, dois e não viu ninguém. Acendeu o terceiro e, confirmando que nenhum dos passageiros ficara sob o carro, jogou o fósforo aceso. A gasolina havia vazado e, pronto: o incêndio destruiu o que restou do carro. Era o de chapa número 1 da Cidade. A notícia correu e muita gente jogou a dezena 01 na Loteria Para Todos, que então agrupava as maiores bancas do Jogo do Bicho. E deu 01, avestruz na cabeça!

(Fonte: Isaac Grinberg)

Diogo Dominguez Dominguez. (Foto: arquivo pessoal)

GENTE DE MOGI

CASA DOXA – A Casa Doxa ficava na Rua Coronel Souza Franco, à direita, pouco acima do cruzamento com Moreira da Glória. Durante décadas, era ali que se comprava presente fino, aliança de noivado e o colar de pérolas para a esposa. Passava-se pela loja para ir ao casarão anexo, onde Diogo Dominguez Dominguez (duplo mesmo) e a esposa Emilda cuidavam da numerosa família, Diogo morreu em maio de 1984.

O melhor de Mogi

Pelo programado, fica pronto mês que vem o mirante do Pico do Urubu. Obra simples, mas muito melhor do nada que havia.

O pior de Mogi

Incríveis nossos vereadores: eles próprio levantam a bola, ameaça daqui, ameaça dali e, bola fora. Como a comissão que estudou a questão dos nossos cemitérios. Típica conta dos nove fora, nada!

Ser mogiano é….

Ser mogiano é….defender as referências comunitárias que nos restam. Como o Mercado Municipal.

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