Passeando pelo Além

FÁBRICA – A fábrica da Lacta, na Rua Barão do Triunfo, foi inaugurada em 1957. Hoje já não existe: sua área é ocupada por prédios residenciais, onde se aluga um apartamento entre R$ 7 mil e R$ 10 mil, ou se compra entre R$ 2 milhões (180 m2) e R$ 10 milhões (380 m2).
FÁBRICA – A fábrica da Lacta, na Rua Barão do Triunfo, foi inaugurada em 1957. Hoje já não existe: sua área é ocupada por prédios residenciais, onde se aluga um apartamento entre R$ 7 mil e R$ 10 mil, ou se compra entre R$ 2 milhões (180 m2) e R$ 10 milhões (380 m2).

Entre amigos não há de haver preconceito de qualquer espécie. Tudo flui em clima de uma relação descompromissada. Isso significa que não há espaço para disputas esportivas, políticas, religiosas ou sobre o que lá seja.

Feitas estas ressalvas, vamos ao fato: há tempos, um amigo trouxe-me uma carta. Fora escrita em meio a um encontro de mogianos seguidores de Allan Kardec – o francês que, de nascimento, chamava-se Denisard Léon Huppolyte Rivail e na Alemanha – a partir de 1852 –, passou a estudar os fenômenos do espiritismo.

A carta, segundo os que a leram e conhecem – ou conheceram – os protagonistas, retrata fielmente fatos passados e presentes. Teria sido enviada por uma moradora da Cidade, já falecida, à sua irmã, também nascida aqui.

Diz ela:

Querida

Agradeço-lhe muito a lembrança, minha irmã, e as preces elevadas ao Alto, que tantas vezes você tem feito em meu favor. Estou curada. Completamente curada, porque hoje aceito que todas as dificuldades por que passei me eram muitíssimo necessárias. Hoje respiro sem dor, caminho, sou mais livre. Mas o tempo em que adoeci foi um período abençoado porque, presa à doença, pude passar a dar mais valor àquilo que possuía e a rever meus sentimentos para com meus familiares.

Tornei-me mais humana e, ao mesmo tempo, mais religiosa, porque nas fases agudas da doença, em que quase sucumbi pela dor, procurava em Jesus forças para prosseguir e sempre encontrei. Sempre me considerei religiosa, mas creio que só comecei a conhecer Jesus de verdade nessas fases difíceis por que passei.

No momento, eu estou buscando encontrar aqui no plano espiritual, parentes que me antecederam na passagem. Não é muito fácil, porque cada qual vive e trabalha em locais diferentes. Quanto aos meus filhos, oro sempre para que vivam com saúde, paz, equilíbrio e muito amor; para que me perdoem pelos erros que cometi enquanto mãe; para que sejam, para seus filhos, exemplos de dignidade e amor cristão. Que cada um encontre, em sua família, em seu lar, um núcleo de compreensão e possam transmitir tudo isto aos meus netinhos queridos.

E você, que sofreu tanto com o ocorrido, que possa encontrar no Evangelho respostas para todas as suas dúvidas e alento para o seu desconforto.

Desejo-lhe toda a Paz e Harmonia

CARTA A UM AMIGO
Encontros que não se explicam

Meu caro leitor

Vez por outra me pego a pensar sobre os mistérios da vida; talvez menos que mistério, com certeza surpresas. Atravessar uma rua e cruzar com um desconhecido, que possa se tornar um bom amigo, é exemplo disso. Comigo já ocorreu várias vezes.

Uma das que mais me marcou foi em meados de 1974. Por missão profissional, fui ter à Lacta, a icônica fábrica de chocolate. Ocupava um quarteirão na Rua Barão do Triunfo, no bairro paulistano do Brooklyn; construção antiga, mas conservada. O azul e o branco predominavam nas paredes. Na área de produção, o azulejo dava ideia da época em que foi construída: a fábrica foi inaugurada em 1957.

Antenor Negrini era o diretor superintendente e me recebeu em uma sala austera, de móveis escuros e poucos quadros nas paredes. Os que havia eram de propaganda antiga do Sonho de Valsa, Diamante Negro e Bis, produtos que alavancaram a empresa. À conversa formal, do início, sucedeu um papo descontraído de quase amigos. Ele já era um sessentão e eu ainda não havia chegado aos 30.

Ainda hoje creio que o gelo se quebrou com uma pergunta minha: “Como a Lacta consegue levar o Sonho de Valsa para a Transamazônica?” Fazia pouco, eu tinha passado uma temporada na Amazônia, percorrendo projetos que o governo federal, tempo do regime militar, empreendia na região. E me surpreendeu ter encontrado, nas biroscas daquele fim de mundo, os cigarros Continental e Hollywood e o bombom Sonho de Valsa.

Nos encontramos várias vezes, para falar de trabalho e da vida. Em uma delas, creio que em sua casa da Avenida Doutor Arnaldo, na Pompéia, Negrini me contou como chegou à Lacta:

Estava recém-formado pela Escola de Comércio Alvarez Penteado (“meu avô também se formou lá”, disse-lhe) quando a empresa em que trabalhava, foi contratada para auditar os números da Lacta, para um cliente que pretendia assumir a companhia. Ele foi incumbido do trabalho, sem que lhe dissessem quem era o contratante. Só ficou sabendo ao fim da missão: com as planilhas na pasta, incumbiram-no de mostrar o resultado para Adhemar de Barros, então interventor federal em São Paulo.

Eu fui ao Palácio dos Campos Elíseos – disse-me Antenor. “Mostrei a Adhemar os números e ele me perguntou se valia a compra. Respondi-lhe que poderia ficar com a empresa, apenas assumindo as dívidas dela. Ao que Adhemar contestou: e você cuida do negócio? Foi assim que cheguei aqui há mais de 30 anos”.

Durante o período em que dirigiu a fábrica de chocolates, Antenor a levou à liderança do mercado. O balanço de 1973 registrava aumento de 30% nas vendas, em relação ao ano anterior. Antenor Negrini morreu em junho de 1994, após o que tiveram início, entre os herdeiros de Adhemar de Barros, disputas familiares insolúveis. Em dois anos – 1996 – a Lacta foi vendida para uma multinacional

Pois 20 anos de passaram desde aquele 1974 e, nos anos 90, vejo-me em Santa Cruz do Sul a trabalho. Município gaúcho de 130 mil habitantes, Santa Cruz fica a 130 quilômetros de Porto Alegre e é o maior produtor de tabaco do Brasil, responsável, com o vizinho Venâncio Aires, por colocar o Brasil no segundo lugar da produção mundial (só perde para a China).

Ao final de um dia de trabalho, toca o telefone de meu apartamento no Hotel Águas Claras e, por ele, vem o convite para jantar com a família do presidente da maior processadora local de fumo. As processadoras recebem as folhas de tabaco dos agricultores, submetem-nas a ciclos e entregam o fumo para as responsáveis pela fabricação final dos cigarros.

Entre o convite e o aviso da portaria, que havia um motorista a minha espera, cuidei de buscar informações sobre a família. Marido e esposa tinham nomes tipicamente americanos; ele um executivo que havia feito carreira no Rio de Janeiro e, há 15 anos, estava em Santa Cruz. Ela também tinha nome saxônico. Mas um detalhe: o nome de solteira era… Negrini.

Mesa posta no salão da casa, que ocupava um amplo terreno em meio a mata virgem, no entorno de Santa Cruz do Sul, arrisco:

O que a senhora me diz de Antenor Negrini?” A dona da casa olhou-me fixamente por alguns segundos, e respondeu:

É meu tio, e com a família dele morei, enquanto cursava a faculdade em São Paulo”.

Na Avenida Doutor Arnaldo?” reagi.

Vez por outra me pego a pensar sobre os mistérios da vida; talvez menos que mistério, com certeza surpresas. Atravessar uma rua e cruzar com um desconhecido, que possa se tornar um bom amigo, é exemplo disso. Comigo já ocorreu várias vezes.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
PLANO DIRETOR – Mogi foi dos primeiros municípios paulistas a elaborar um Plano Diretor de Desenvolvimento. A foto é de 1965, quando da assinatura do documento na Prefeitura, então instalada no casarão da Rua José Bonifácio. Da esquerda para a direita, de pé: vereadores Milton Rabelo, Jair Salvarani e Sylvio Pires. Sentados: dr. Milton Cruz, prefeito Carlos Alberto Lopes, arquiteto Frederico Renne de Jaegher (diretor do programa), Argeu Batalha (secretário da Prefeitura) e dr. José Arouche de Toledo.

GENTE DE MOGI
CARLINHOS – Era muito difícil, não impossível, tirar Carlos Garcia do sério. Seu sorriso permanente, e a lhaneza no trato, desmontavam qualquer investida. Paulista de Bauru, chegou a Mogi em 1954, aos 28 anos de idade, na trilha que lhe impôs a carreira de escrivão e delegado de polícia. Nunca mais saiu. Aqui se fez vereador (1969-1977), presidiu o União FC (1963) e a Associação Atlética Comercial, foi provedor da Santa Casa. Carlinhos morreu dia 13 de dezembro de 2013.

O melhor de Mogi
A localização da Cidade: a 60 quilômetros do centro de São Paulo, a 43 quilômetros do principal aeroporto do País e a 50 quilômetros das praias limpas de Bertioga. Tudo por estradas de primeira.

O pior de Mogi
Algumas academias de ginástica da Cidade insistem em compartilhar, com vizinhos, o som ensurdecedor, que acompanha os exercícios de suas clientes. Como se celulite pudesse ser combatida com barulho.

Ser mogiano é…
Ser mogiano é… saber que a escultura ao Imigrante do Cocuera (“Mãe Grávida”) é de autoria de Manabu Mabe.