CHICO ORNELLAS

Passeio dominical

ACESSO – O acesso ao prédio principal da Estância dos Reis: uma alameda arborizada.

Por mais de 30 anos aquele espaço foi o ponto de encontro da Cidade. Antes de se transformar em hotel e restaurante, era a Chácara dos Castelões. Tinha o sobradão que serve hoje ao colégio NEC, o bosque, um lago e muito, muito espaço verde. Era a porta de entrada para a atual Vila Oliveira. Hoje o mais valorizado bairro residencial da Cidade, era então um descampado sem arruamento. Foi loteado a partir dos anos ‘60 por Athayde Reis e englobava todo o quadrilátero que segue pela Avenida Frederico Straube, atinge a Coronel Cardoso Siqueira e retorna pela João Da San Biagio, abraçando os 21 quarteirões do núcleo central da Vila Oliveira.

Então, meados da década de 1930, o casal Giorgio e Helena Giorgetti, ele italiano de Lucca, ela paulista de Bariri, aportaram em Mogi, arrendaram a chácara e nela instalaram o Hotel e Restaurante Estância dos Reis. Cuidaram de montar uma cozinha maior e a área do restaurante; também de construir, anexo, os apartamentos. Eram cômodos grandes, banheiros privativos. As janelas davam para um quintal interno, as portas para um varandão de mais de dois metros de largura. Muros baixos separavam a varanda do gramado com vista para o bosque e o lago. Nela, havia redes e bancos dispostos sobre o chão de pequenos ladrilhos vermelhos. Era o tempo em que hóspedes vinham para negócios ou para lazer. Quem não dispunha de automóvel próprio, preferia as composições de aço da Estrada de Ferro Central do Brasil que, circulando entre São Paulo e Rio de Janeiro, faziam parada em Mogi. Mais tarde, optavam pelo Alvorada, o trem elétrico de três vagões, um bar no carro do meio.

Giorgio e Helena deixaram o local em 1949, transferindo-o para outra Helena, esta também paulista como a primeira, mas de São Paulo e o marido Carlos; como Giorgio, italiano de nascimento, brasileiro por opção. Ficaram no Hotel e Restaurante Estância dos Reis até 30 de abril de 1967. Completaram-se 51 anos que o fecharam neste 2018, levando sua competência gastronômica e de anfitriões ao elegante Restaurante Piatto D’Oro, na Avenida Pinheiro Franco, que criaram e preservaram até a aposentadoria, em 1973.

Pois é ao espaço do Hotel Estância dos Reis que o convido a visitar este domingo. Siga pela Avenida Manoel Rudge até o fim. Ali, onde a rua acaba, ficava o portão de acesso. Percorra as ruelas do conjunto Pombal e as imagine descampadas, um lago no centro e, no meio dele, a Ilha dos Amores, como os casais apelidaram o pequeno naco de terra ao qual se chegava por uma ponte de madeira. Não muito distante ficava a piscina, não azulejada, mas sempre limpa, ao redor da qual havia grama, toros de madeira dispostos displicentemente e frondosas árvores.

Pare no acesso principal do colégio NEC e veja o sobrado; é a mesma construção da chácara original. Olhe à esquerda e é possível divisar a varanda dos apartamentos. Dê uma volta no quarteirão, circundando-o a partir da Praça Álvaro de Campos Carneiro e você estará passeando por algo de melhor que esta Cidade já teve.

CARTA A UM AMIGO
Onde estará Helinho?

Caro leitor

Por certo você, como eu, tem lembranças que se fixam na memória a partir do nada. Aquilo a que se convencionou chamar de memória afetiva. Tenho várias, outras tantas saudades. Um sentimento não se confunde com o outro, embora não antagônicos.

Pois dia destes, ao ver a fotografia de um Cadillac série 62, de 1949, de pronto me vieram lembranças de Helinho. O sobrenome de Helinho? Sei lá! Quem, aos 10 anos de idade, se preocupa com sobrenome de amigo?

Helinho e eu tínhamos os mesmos 10 anos de idade em 1957, quando o destino nos colocou no mesmo espaço. Era janeiro e, como se fazia em casa em todos os janeiros, o destino era o Rio. Desta vez, meus pais prepararam-nos uma surpresa: reservaram, ao invés do Hotel Califórnia, da rede Othon em Copacabana, o Hotel Leblon, nas fraldas da Avenida Niemeyer.

O Califórnia fora construído no início dos anos ‘40, com sacadas para a praia, um bar em estilo inglês no térreo e apartamentos confortáveis. Costumávamos ficar em acomodações conjugadas: havia uma sala, dois quartos e o banheiro. Iguais a estes só encontrei no Anexo do Copacabana Palace. Em um dos quartos ficavam meus pais, no outro eu, meu irmão e a babá Adelina. O hotel andou detonado por conta da crise que abateu a rede Othon mas, há poucos anos, foi assumido pela rede Windsor, renovado e hoje oferece bons serviços a partir de R$ 400 a diária.

LEMBRANÇAS – Do Cadillac e do Hotel Leblon, em uma temporada no Rio de Janeiro em 1957.

O Leblon era um hotel de família, não tinha vínculo com redes e os proprietários cuidavam da administração. Prédio construído em 1922, hotel inaugurado em 1926, serviu também como cassino de luxo, até a proibição do jogo pelo presidente Dutra, em 1946. Lembro como se fosse hoje – e já se passaram 60 anos -, o dono brincando comigo no balcão do bar: ele raspava a palma da mão sobre o mármore e caçava um mosquito; introduzia um palito de dente no dorso do inseto, a outra ponta enfiada em uma rolha que o sustentava. Depositava então, às suas patas, um simulacro de alteres, feito com parte do palito e duas bolinhas de cortiça na ponta. E lá se punha o pobre do mosquito a manipular o alteres. Nunca aprendi a fazer isso, mas nunca esqueci o exercício, com as mãos, que num movimento rápido parece entortar os dedos. O Leblon fechou, o prédio foi leiloado em 1982 e no seu lugar construído um conjunto comercial. Mas, tombada, a fachada foi preservada e restaurada.

Eu e Helinho passávamos bons momentos, tentando repetir aquelas mágicas. Amigos, compartilhamos muitos passeios, nessa temporada, sempre a bordo do Cadillac série 62, de 1949, de seu pai. Era uma lancha, hidramático, motor V8. Nossas famílias trocaram endereços e, várias vezes, fui passar dias em sua casa do bairro da Consolação, em São Paulo. E ele também, por várias vezes, esteve em minha casa da Rua Isabel de Bragança, em Mogi. Era um happening a chegada do Cadillac e seu pai nunca recusou passeios com meus amigos e vizinhos.

Pois então: o que terá sido feito de Helinho? Não tenho como saber, nem nestes tempos de rede social. Além de seu nome, a única referência é a profissão que seu pai exercia: médico, com atuação no Hospital das Clínicas e no Instituto Paulista, credenciada instituição na área da ortopedia, que ocupava um quarteirão na Avenida Paulista.

Disso me lembro por ouvir conversas de nossos pais: minha mãe havia sofrido um acidente na Fazenda do Rodeio, em Mogi, e teve fratura grave na perna. O pai de Helinho, nesse bate-papo, disse que também era ortopedista e perguntou onde minha havia se tratado. À resposta “no Instituto Paulista”, ele abriu os olhos e perguntou: por quem? “Por Luiz Gustavo Wertheimer” (filho do dr. Deodato Wertheimer) reagiu meu pai. Eram colegas de trabalho com especialidade na mesma área.

Onde estará Helinho?

Abraços do

Chico

LEMBRANÇAS – Do Cadillac e do Hotel Leblon, em uma temporada no Rio de Janeiro em 1957.

GENTE DE MOGI
BARÃOArtur Silveira da Mota (1843-1914), o Barão de Jaceguai, paulista, foi almirante da Marinha e membro da Academia Brasileira de Letras. Chegou a Mogi no início da década de 1880 e aqui construiu sua mansão – a mais luxuosa que já houve nesta Cidade. Inaugurada em 1888, ocupava a atual Praça Oswaldo Cruz e seu entorno. Abandonou-a em 1900.

O melhor de Mogi
A vizinha Guararema, onde há 33 meses não ocorre um homicídio. A título de comparação: este ano, até agosto, houve 14 assassinatos em Mogi das Cruzes; 19 no ano passado, 30 em 2016.

O pior de Mogi
Os passeios públicos da área central. À exceção das ruas Paulo Frontin e Deodato Wertheimer, onde os calçadões abrem espaço para pedestres; é impossível circular com tranquilidade pelas calçadas das outras vias. Só quem nunca andou em um sábado pela manhã pela José Bonifácio, Flaviano de Mello e Coronel Souza Franco não sabe o que é isto. Pior ainda na Moreira da Glória. Culpa da falta de planejamento no passado. Mas também pela falta de ação no presente.

Ser mogiano é…
Ser mogiano éter comprado café na pequena loja – durante muito tempo a menor da Cidade – que havia no térreo Edifício Cecin (o primeiro arranha-céu daqui), esquina da Dr. Deodato com a Senador Dantas. Moído na hora e exalando um aroma inesquecível.