SOBRE A DITADURA

Peça em Mogi confronta situações de 1968 e 2019

SOBRE A DITADURA Baseado em livros e documentários, espetáculo do Núcleo de Cultura Ousadia promove reflexão histórica, social e política. (Foto: Eisner Soares)
SOBRE A DITADURA Baseado em livros e documentários, espetáculo do Núcleo de Cultura Ousadia promove reflexão histórica, social e política. (Foto: Eisner Soares)

Baseada em muitas pesquisas sobre a ditadura militar em que o Brasil esteve submetido entre 1964 e 1985, a peça ‘19.68’ será encenada às 19 horas de hoje e 20 horas de amanhã, no Galpão Arthur Netto. Inspirado principalmente no livro ‘1968, o Ano Que Não Terminou’, de Zuenir Ventura, o texto do Núcleo de Cultura Ousadia promove reflexão política ao confrontar situações vividas naquele tempo e que se repetem agora, 51 anos mais tarde.

A montagem não segue uma linha tradicional de teatro. Isso porque, ligadas por fatos históricos, as cenas podem se parecer isoladas umas das outras para quem não prestar atenção. Funciona assim: os atores recriam o cenário de 1968, para na sequência contrapor com o que acontece hoje, utilizando diferentes recursos artísticos neste processo, como dança, expressão corporal, canto e leitura.

Exemplos disso são passagens sobre a violência contra transexuais e sobre as mães de outrora. Quem explica é Erika Cassia Capella, 48, fundadora da trupe e uma das diretoras do espetáculo. “Naquela época não havia preocupação com o sofrimento dos trans, que eram chamados de outros nomes. Então retratamos isso fazendo analogias com os dias de hoje, por meio de músicas atuais que abordam o tema. E em relação às mães, elas ficavam desesperadas por não ter notícias de seus filhos guerrilheiros. Aqui o contraponto são mulheres que perdem filhos nas tragédias ou nas favelas, como as Mães de Maio”.

O grupo chegou a tal fórmula depois de promover diversas oficinas com os atores, que “se apropriavam do conteúdo a partir de toda a base histórica e dramática e começaram a desenvolver as cenas”, como conta Erika. Ou seja, todo o texto é “compartilhado”, feito a muitas mãos, de acordo com o que foi assimilado das pesquisas embasadas principalmente na obra do jornalista Zuenir Ventura, que retrata a violência gratuita do período, mas também em diversos documentários e outros livros sobre festivais de música e movimentos estudantis e operários.

Com isso, o objetivo do Núcleo de Cultura Ousadia, que surgiu na Escola Estadual Washington Luís em 2005, é promover uma “reflexão histórica, social e política não partidária, no sentido da participação das pessoas em relação ao trato público”. Dada a missão, a estratégia escolhida foi “fazer analogias entre os jovens de diferentes décadas”, estabelecendo uma “crítica muito forte”. A tática fica clara na cena final, que traz a “morte da Justiça pelo presidente da República”.

Erika revela que esta não será a primeira exibição da peça no Galpão Arthur Netto, mas provavelmente será a última, já que o espaço está para fechar em outubro. “Estreamos lá em novembro de 2018 e desde então temos apurado e amadurecido as situações de acordo com a reação da plateia e o bate papo que fazemos com ela depois da encenação”.

A fundadora da trupe diz ainda que retornar para o Galpão será especial, pois o Núcleo de Cultura Ousadia “viu o espaço ser construído”. “Não podíamos deixar de retornar antes do encerramento deste espaço cultural importantíssimo. Antes dele o Casarão da Mariquinha fechou, e isso é muito triste, parece uma espécie de complô para eliminar a conscientização promovida pela arte”.

Como saída para o quadro atual, o grupo tem a intenção de inaugurar sede própria em 2020, ofertando um curso de teatro aberto ao público. Por enquanto dá para acompanhar o trabalho deles em facebook.com/nc.ousadia e também neste final de semana, no número 23 da Avenida Fausta Duarte de Araújo, no Centro. Os ingressos de ‘19.68’ custam R$ 10,00 por pessoa.