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Pesquisa revela aumento dos casos de violência autoprovocada em jovens de Mogi

EVOLUÇÃO Em 2011, foram registrados 16 casos de suicídio em Mogi das Cruzes, mas no ano de 2017, esse número saltou para 157. (Foto: reprodução)

Uma pesquisa fornecida pela Secretaria Municipal de Saúde monitora o aumento dos registros de violência autoprovocada por crianças, jovens e adultos em Mogi das Cruzes desde 2011. O estudo mostra a evolução dos casos de tentativa e de consumação do suicídio, sem distinguir essas duas situações. Em 2011, foram registrados 16 casos na cidade. Em 2017, esse número salta para 157. No total desse período, 506 pessoas praticaram esse tipo de violência contra a vida.

Setembro é o mês dedicado à campanha nacional Na Direção da Vida, Depressão Sem Tabu, alusiva ao tema. O símbolo foi o girassol, a espécie que procura a direção do sol, mesmo durante os dias nublados. Ações divulgaram a importãncia de se falar sobre o assunto e buscar ajuda familiar e profissional.

Em Mogi das Cruzes, nesses sete anos, observa-se a evolução desse tipo de violência a partir de 2012, quando os registros foram 71 e, no ano seguinte, foram 59. A evolução oscila entre eles, mas não tanto quanto entre 2016. Naquele ano, o total de registros cai sensivelmente para 47e sobe para 2017, chegando a 157, o que indica um aumento de 234%.

Esses dados permitem conhecer um pouco do perfil das vítimas na cidade. O primeiro registro de uma criança que praticou essa violência aconteceu em 2015. Ela pertence no grupo de pessoas com idades de 5 a 9 anos e era do sexo feminino. Em 2017, foi uma criança do sexo masculino nesta mesma faixa etária.

Dos 10 aos 14 anos, foram 21 meninas e 4 meninos, numa inversão do que normalmente acontece – a maior parte dos suicidas são homens. O estudo revela que maioria das vítimas tem mais de 20 anos. Foram 204 mulheres e 189 homens.

O último dia 10 foi celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou que a cada 40 segundo uma pessoa tira a vida no mundo. No Brasil, esse número cresceu cinco vezes entre 2007 e 2016, com um total de 36.279.

A OMS lançou um desafio mundial: a redução dos casos em 10% até o ano que vem.

Em Mogi das Cruzes, em uma avaliação sobre os números locais, a equipe responsável pela prevenção à automutilação e do suicídio, afirma que o aumento verificado entre 2016 e 2017 entre os mais jovens se deve a fatores complexos e multifacetados.

Entre eles, as causas orgânicas identificadas pelos transtornos mentais e psicológicos como traumas, perdas afetivas, situações como graves acidentes e violências físicas e sexuais, além de psicoses puerperal, separações de pais, além do pertencimento a famílias disruptas (caracterizadas por vivências traumáticas como violências físicas, psicológicas e sexuais, abandono afetivo, dependência química).

Uma maneira de atender essa demanda, apontada pelos técnicos da Prefeitura, consiste na implantação de políticas públicas de prevenção intersetoriais, que abarquem ações nas áreas de saúde, educação, esportes, cultura e lazer destinadas aos jovens e aos demais grupos de risco.

Cidade vai capacitar funcionários

A prevenção ao suicídio é tratada pelo Comitê Municipal de Prevenção às Violências e o grupo de Vigilância Epidemiológica. Para reduzir os índices, a Secretaria Municipal de Saúde informa que está se preparando para capacitar a escuta qualificada dos funcionários na porta de entrada dos serviços, como postos e outras unidades públicas, a pacientes com este tipo de transtorno.

Casos agudos, quando já ocorreu as tentativas de suicídio e mutilações provocadas por fatores como envenenamento, enforcamentos e o uso de armas são encaminhados ao Pronto-Socorro do Hospital Luzia de Pinho Melo.

A porta de entrada para atender crianças e adolescentes é o Ambulatório de Saúde Mental, e os adultos são direcionados ao Caps II. Se o paciente estiver em uma situação estabilizada de saúde, o atendimento deve ser feito nas unidades básicas com profissionais da área de psicologia.

Os técnicos reforçam que os dados demonstram que os casos são preveníveis. Por isso, a atenção deve ser redobrada aos sinais de que um familiar, amigo ou trabalhador que comece a dizer frases que indiquem um comportamento vulnerável a esse tipo de situação. A estes sinais, a orientação é a procura de um serviço de saúde.

Escuta e orientação fazem prevenção

ANÁLISE Madalena alerta
para fenômenos da internet. (Foto: arquivo)

Há 20 anos no Centro de Valorização à Vida, o CVV, Madalena Antonia da Silva Ribeiro afirma que a escuta e a orientação são recursos para prevenir o avanço dos casos de suicídio entre pessoas de todas as classes sociais e idades. “Ele tem o mesmo peso entre todos e todas”, diz, confirmando que o perfil das pessoas atendidas no telefone que oferece apoio a quem flerta com essa violência também tem mudado. Segundo ela, tornou-se mais comum o recebimento de ligações de crianças, algo que há 10, 15 anos, inexistia.

Segundo ela, esse avanço entre os mais novos coincide com fenômenos surgidos pelas redes sociais e games como A Baleia Azul, que ficou mundialmente conhecido e estimulava os jogadores a cumprirem desafios. “Essa é a parte da internet que se transforma em veneno”, comenta. O isolamento social está ligado à expansão dos casos. “E isso ocorre tanto com as pessoas mais idosas, quanto com as crianças e adolescentes. O isolamento dentro de casa e nos círculos de amigos”, aponta a voluntária, é um sinal de alerta para os adultos, pais, chefes, professores no convívio social.

“O adulto que está por perto dessa pessoa tem a capacidade de perceber comportamentos como a repetição de frases como ‘eu não faço falta’, “eu vou sumir”, além de outras, e procurar ajuda”.

O CVV de Mogi das Cruzes atende das 18 às 22 horas diariamente, e em outros horários alternativos.

O objetivo do grupo é voltar a ser um ponto de atendimento 24 horas. Mas isso depende da formação de mais voluntários. “O nosso material é humano e, por isso, dependemos da formação que é feita constantemente para atrair mais voluntários”. Os cursos são destinados a pessoas com mais de 18 anos e que possam disponibilizar 4 horas e meia por semana.

Atualmente, o atendimento é nacional, por meio do telefone 188, que direciona as ligações para postos do CVV de todo o Brasil.

Por isso, não há como mensurar dados municipais do atendimento. Outra dificuldade é o acesso aos dados reais das tentativas e dos suicídios, encobertos por familiares e amigos.

O assunto ainda é um grande tabu. “O registro dos casos é dificultado pela família, que sente culpa e vergonha”, indica Madalena. Para ela, projetos como o Setembro Amarelo são um meio para tratar dessa causa de mortes. Não falar sobre o assunto potencializa a subnotificação dos registros.

Jovem

A rebeldia dessa fase da vida é uma das causas dessa realidade. “É nessa fase que a pessoa se sente mais corajosa e empoderada, é o tempo do ‘eu posso tudo’, por isso, a família, quando possível, deve estar atenta, assim como outros núcleos, como a escola, o trabalho e o professor. Hoje, a ligação entre o professor e os pais mudou e, para o bem de todos, é preciso aproximar esses adultos que podem orientar um jovem em sofrimento”, comentou. Hoje, o papel do adulto e responsável por encaminhar uma pessoa a um tratamento médico está muitas vezes nos tios e avós, “porque há mais pais adolescentes em muitos núcleos familiares”.

O que é o CVV?

O Centro de Valorização à Vida é um serviço de voluntariado que atua no atendimento do telefone 188 de prevenção ao suicídio.

As ligações são sigilosas.

Para ser voluntário, os interessados devem frequentar o curso e cumprir uma jornada de estágio.

Em Mogi das Cruzes, a sede está localizada à rua Paulo Fernando Massaro, 91, na Vila Lavínia, telefone 4722-4111.


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