EDITORIAL

Pioneiros do oriente

Devemos aos imigrantes japoneses o título de Cinturão Verde do Alto Tietê

Há um século, quando chegam ao distrito de Sabaúna as primeiras famílias imigrantes seduzidas por promessas do governo brasileiro que não foram cumpridas, estavam Shiguetoshi e Fujie Suzuki, os pioneiros japoneses a criarem raízes em Mogi das Cruzes. Em alguns meses, a convite do alemão Carlos Stenberg, o casal passa a residir em Cocuera e inicia uma grande batalha pela sobrevivência e adaptação ao Brasil.

Alguns meses mais tarde, o bairro passou a receber outras famílias que compuseram um marco na história da cidade com o desenvolvimento da agricultura como negócio – primeiro, nada rentável, porque essas famílias não tinham para quem vender toda a produção, como detalhou Mário Suzuki à jornalista Carla Olivo, em nossa edição de ontem.

A terra descansada produzia bem mandioca, milho, feijão, batata, repolho e tomate, mas as famílias não tinham para quem vender tantos itens, lembra Suzuki. “Às vezes, eles perdiam tudo o que tinham plantado e precisavam jogar fora porque ninguém estava acostumado a comer tomate”, disse ele.

As primeiras famílias levaram décadas para vencer as barreiras da língua e instituir o mercado de produção, compra e venda dos produtos agrícolas.

Em meio às comemorações do centenário da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes, replicar dos detalhes da verdadeira saga vivida por essas famílias é uma forma de agradecer e valorizar os moradores dos primeiros núcleos rurais de Cocuera, Porteira Preta, Sabaúna, César de

Souza e outros.

Devemos a eles o título de Cinturão Verde do Alto Tietê. Devemos isso aos pioneiros do oriente, os Suzuji, os Ono, Yoneda, Utida, Matsumara, Konno, Nakamura, Nagao, Ikuta, Honda, Saito, Nishie e Meiuja.

Preservar essa memória é reconhecer a contribuição da colônia japonesa surgida no final da década de 1910 quando o Brasil vivia o período pós-abolição e transitava do trabalho escravo para o assalariado. Os imigrantes japoneses, italianos, espanhóis e de outros países enfrentaram muitas dificuldades e perdas nessa trajetória.

Na família Suzuki uma pneumonia matou o patriarca Shiguetoshi, 18 anos após a chegada a Mogi. Coube à esposa dele, Fujie, trabalhar muito para criar os filhos (dois nascidos no Japão e cinco no Brasil). Todas essas famílias guardam relatos e impressões sobre as feridas curadas pelo tempo desde a chegada ao País onde, em alguns locais, foram tratadas como escravos.

Nesse aspecto, Mogi das Cruzes foi porto seguro, ainda que o trabalho duro, em uma atividade de grande desgaste físico e pouca remuneração, fosse uma realidade. E aqui há outra grande contribuição dos imigrantes japoneses que pelo associativismo, a vida pautada pelas associações rurais, atenuaram a dureza daqueles dias Uma receita de sucesso que o passar do tempo comprovou.