MASSACRE

Polícia acessa diálogo sobre ataque em escola de Suzano

LOCAL Massacre na E.E Professor Raul Brasil deixou 10 mortos, incluindo os dois atiradores. (Foto: arquivo)
LOCAL Massacre na E.E Professor Raul Brasil deixou 10 mortos, incluindo os dois atiradores. (Foto: arquivo)

A investigação do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, conseguiu acessar as conversas entre os assassinos e o menor apreendido e apontado como mentor intelectual do crime. Nas mensagens, segundo divulgou o delegado Alexandre Dias, titular do 2º Distrito Policial de Braz Cubas e responsável pela investigação do caso, o menor detido não participou do atentato porque dias antes foi à igreja e isso colocou em cheque a coragem dele de praticar o crime, na visão do menor que se suicidou após matar as oito vítimas e o companheiro.

O delegado disse que o jovem não foi excluído do grupo após o episódio, e ele sabia que o atentado ocorrida na escola, em uma quarta-feira, durante o intervalo, mas não a data. “O líder, que seria o menor que se suicidou, desejava apenas dois autores no cenário, assim como em Columbine”, explicou o delegado Alexandre Dias.

Parte dos diálogos não foi apagada pelos assassinos, mas algumas mensagens precisaram ser recuperadas pelo setor de inteligência da Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, para recuperar o material.

“A análise de dados dos celulares deles também foi complexa. Mas concluímos a investigação em um tempo que considero bom. É importante destacar que a Polícia tem trabalhado com um sistema de inteligência policial. Foi possível descobrir que eles pensavam até no tempo. Não queriam que estivesse chovendo no dia”, disse o delegado.

Nas conversas ainda ficou claro que os assassinos sabiam que iriam morrer durante o massacre. Segundo o delegado Dias, um dos assassinos estava preocupado com um arranhão no espelhinho do carro, que havia sido alugado dias antes. Então, o outro disse “quando o carro for recuperado pela seguradora, a gente vai estar morto”.

Há um mês, o menor apontado como o mentor intelectual do crime está cumprindo medida socioeducativa em uma unidade da Fundação Casa, por tempo indeterminado, por decisão judicial.

Nos mais de dois meses do crime, a Polícia Civil prendeu cinco pessoas sob suspeita de envolvimento na negociação e venda das armas e munição, mas só quatro permanecem presos. São eles: Cristiano Cardias de Souza, por ter negociado diretamente a venda de munições e intermediado a compra do revólver calibre 38 utilizado no crime, Geraldo de Oliveira Santos, responsável pela venda da arma de fogo, Márcio Germano Masson e Adeilton Pereira dos Santos, por venderem aos assassinos as munições.

O inquérito foi encerrado na última semana e, anteontem, o Ministério Público apresentou a denúncia dos quatro suspeitos. Além dos crimes de venda e negociação de arma e munição, eles vão responder pelas 11 tentativas de homicídio e os 10 homicídios consumados.

Familiares fazem acordo extrajudicial

Todas as famílias de vítimas fatais e de adolescentes que sofreram lesões durante o ataque ocorrido no último dia ‪13 de março na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, fizeram acordos extrajudiciais. No total, 45 pessoas que sofreram com a tragédia foram indenizadas pelo Estado. Os valores não foram divulgados. O massacre terminou com sete mortos e 11 feridos.

As informações foram divulgadas ontem por representantes da Defensoria Pública (DP) e Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo (PGE-SP), que apresentaram o resultado final das negociações com as famílias em entrevista coletiva, na Capital.

Assim que aconteceu a tragédia, a Defensoria se colocou à disposição de vítimas e familiares para representação e assistência jurídica gratuita. Um dos focos do trabalho era a análise da possibilidade de acordos de indenização, a partir das regras e diretrizes de uma comissão formada pelo governo com essa finalidade, presidida pela Procuradoria-Geral do Estado.

Concluído o trabalho da comissão, a Defensoria e a Procuradoria-Geral do Estado divulgaram em conjunto o trabalho com as 18 famílias envolvidas na tragédia. Os valores são sigilosos, conforme termos do acordo feito com os órgãos estaduais, a pedido das famílias.

O trabalho da Defensoria foi coordenado pela 1ª Subdefensoria Pública-Geral em conjunto com o Núcleo Especializado de Infância e Juventude. Dois dias após a tragédia, o órgão começou a agir, enviando ao local uma unidade de atendimento móvel, com defensores, além de agentes com formação em Psicologia e Serviço Social.

“Nosso atendimento abarcou inicialmente toda a comunidade escolar e que vive no bairro, em caráter multidisciplinar. Quanto às vítimas diretas, organizamos com o cuidado devido os atendimentos individualizados às famílias, inclusive em domicílio”, explica Juliana Belloque, primeira subdefensora pública geral.

No total, os profissionais atenderam 235 pessoas envolvidas de alguma forma com o caso, que abalou todos os familiares e alunos que frequentam a escola.

A defensora coordenadora do Núcleo Especializado de Infância e Juventude, Ana Carolina Schwan, disse que o trabalho teve um foco que foi além dos acordos de indenização. “Estamos acompanhando a rede de apoio psicológico e social pelo poder público e iremos entregar um relatório a respeito às secretarias de Estado da Saúde e também de Educação, já que é necessário um trabalho longo e complexo de apoio para auxiliar a comunidade a superar a tragédia”, diz.

A Defensoria já tinha experiências anteriores no alcance de acordos extrajudiciais de indenização, como destacou o defensor público geral do Estado, Davi Depiné, citando os acidentes da cratera do Metrô e do voo da TAM, ambos ocorridos na Capital em 2007. “Apesar da consternação que marca a tragédia em Suzano, a Defensoria pôde realizar um trabalho sério e profícuo em favor dessas famílias, inclusive evitando processos judiciais longos e desgastantes”, salientou.