EDITORIAL

Política ou ciência?

Foi imediata a reação dos prefeitos das cidades do Alto Tietê à inclusão da região na zona vermelha da Retomada Consciente, que impõe regras mais severas na quarentena que seguirá em vigor até 15 de junho.

A flexibilização das regras de isolamento social ocorre quando as notícias assustam. Os números de mortes pela Covid-19 no Estado apontam para alta de 18% nos últimos dias, o que muito preocupa especialistas, epidemiologistas e leitos que são do grupo do risco ou têm casa pessoas nessa situação. Se dá, ainda, em momento em que a população vinha sendo alertada, à exaustão, sobre os riscos da quebra do confinamento. Inclusive, dois feriados foram adiantados, para forçar mais pessoas a ficarem a em casa.

A manutenção da capital paulista na zona laranja e não na vermelha enfraquece o discurso do governador João Doria de atendimento estrito aos protocolos de testagem – que, bem sabemos, são muito, mas muito aquém da necessidade – e à fundamentação científica.

Em meio à pandemia, a distência entre o discurso e a ação é extremamente prejudicial. É ruim porque confunde a população que passa a desconfiar das decisões e começa a se questionar: o que é realmente ciência e o que é política.

A Retomada Consciente não significa a reabertura indiscriminada dos serviços e atividades. Mesmo nas zonas mais confortáveis, a volta ao normal (que não será ao normal, antes assim denominado) terá de cumprir critérios sanitários. A propagação do novo coronavírus pode complicar a atual onda da doença. Nem falamos, aqui, da segunda onda, que também virá.

Há um argumento a favor dos prefeitos da Região: a segurança hospitalar. Até agora, os hospitais de Mogi das Cruzes têm atendido moradores da própria capital. Eis uma pergunta pertinente: por que no Hospital Luzia de Pinho Melo, uma parte dos internados são da capital?

O Governo do Estado vinha ganhando reconhecimento pela firme posição adotada em defesa da vida e da ciência. Sim, a retomada das atividades é esperada, necessária. Basta ver o fosso econômico e social que começa agora ganhar números e os “CPFs” e “CNPJs”, com o desemprego e a queda nas receitas privadas e públicas.

Porém, não parece ter conexão o peso e as medidas adotadas na classificação das cidades da Região – que, inclusive, fizeram a lição de casa e possuem melhores índices de isolamento social do que a capital.


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