MARCIO DE CARVALHO FUSCO

Por dentro de uma startup

Marcio de Carvalho Fusco. (Foto: Vitoria Mikaelli)
Marcio de Carvalho Fusco. (Foto: Vitoria Mikaelli)

Quando ainda menino, Marcio de Carvalho Fusco começou a se envolver com turismo, ajudando a própria mãe com o trabalho em agências de viagem. Ele gostou tanto da área que resolveu entrar no mercado, especializando-se em turismo de luxo e de nicho esportivo. Em 2006 se mudou para a cidade, onde alguns anos depois fundou uma empresa voltada para o cicloturismo, que mais tarde daria origem à Tripbike, startup incubada pelo Polo Digital de Mogi das Cruzes que propõe-se a “conectar ciclistas que estão buscando novas experiências com ciclistas que já conhecem muito bem as regiões”. Com o apoio do Sebrae, a empresa de Marcio participou, no meio do mês passado, da Campus Party Brasil, em São Paulo, um dos maiores eventos de tecnologia do país. Nesta entrevista ele conta como foi essa vivência e também relata as principais dificuldades enfrentadas por quem está começando a empreender.

Você acumulou 27 anos de experiência em agências de viagem tradicionais para depois chegar ao cicloturismo. Como foi esta transição?

Depois de passar um tempo estudando inglês em Londres, fui morar no Rio de Janeiro, e só dois anos mais tarde voltei à São Paulo, onde comecei a me enfronhar em turismo de luxo, voltado à clientes de alto poder aquisitivo, que viajam de primeira classe, alugam jatinhos ou têm aviões particulares. Passei por algumas agências deste nicho, e depois caí no turismo esportivo, principalmente envolvendo o público do surfe. Mas existiam outros segmentos, como para pessoas que correm, praticam golfe, tênis, e que pedalam. Eu já tinha passado dos 40 anos e precisava praticar esporte… Tentei o jiu-jitsu, mas acabei vendendo o kimono e comrpei uma bike. Foi aí que comecei a ver o potencial do cicloturismo para negócios, observando que muitas pessoas investem em bicicletas de R$ 5 mil, R$ 10 mil e até R$ 15 mil reais.

Mas como esse interesse por pedalar virou negócio?

No final de 2015 comecei a estudar agências voltadas para o público ciclista, e saí de onde trabalhava para abrir minha própria agência, a CicloAventuras, que funcionava principalmente na internet. Fiz um curso de marrketing digital e comecei a ler muito sobre startups. Mas só tive a ideia da Tripbike depois de um caso de um cliente, que comprou um pacote para pedalar no Vale Europeu, em Santa Catarina. Eu contatei meu fornecedor do Sul, que por sua vez contratou um guia de bike por lá. Quando meu cliente retornou, me disse que o guia tentou convencê-lo a fazer a próxima viagem sem o intermédio de minha agência.

Vi aí uma mudança de comportamento no mercado. Antes as pessoas buscavam quem tinha o conhecimento (agências), mas hoje como o conhecimento está ao alcance de todos, as pessoas fazem as reservas individualmente. Elas compram passagens aéreas e hospedagens sozinhas, então me acendeu a luz de criar um aplicativo que conectasse o usuário direto com o expert em bike, que já conhece a região do passeio, o que é muito importante para que a pessoa não se meta em roubadas.

Quando você teve a ideia, já tinha noção de que ela se transformaria numa startup?

Não. Logo que comecei a estudar sobre cicloturismo conheci o Polo Digital de Mogi das Cruzes e comecei frequentar as palestras do Alto Tietê Valley sobre marketing, finanças, investimentos e pitch (argumentação ou apresentação da empresa). Isso mudou minha vida e como estava em contato com outras pessoas com os mesmos sonhos que os meus, tive o encorajamento necessário para ir adiante.

O que é preciso para criar uma startup?

O princípio básico é ter engajamento full time no projeto. Quando comecei eu ainda trabalhava em São Paulo todos os dias, mas via que o negócio estava querendo tomar corpo. Sem tempo para me dedicar exclusivamente à ideia, conversei com minha esposa, Ana Claudia Viana, que é coach e me apoiou para um ano de teste. Então em maio de 2018 me desliguei dos compromissos profissionais e decidi focar só no aplicativo. Quando comecei a frequentar o Polo Digital eu abria o notebook e não sabia o que fazer. A adaptação do mundo corporativo para o de empreendedor é difícil, não tem ninguém para mandar você fazer as coisas. Mas aos poucos fui me acostumando a montar meu próprio horário.

Para você, qual é o conceito de startup?

Uma startup é uma empresa de base tecnológica que tem um conceito e produto inovador. É apresentar uma solução para uma dor. No meu caso, quem queria comprar um passeio de bike caía na mão de intermediários que cobravam caro, então o aplicativo conecta o usuário direto com quem está vendendo, uma eliminação importante, que representa até 50% de economia. Somos pioneiros no Brasil, e assim como o Uber fez, oferecemos oportunidade para que os ciclistas tenham renda extra, funcionando como um autopatrocínio para eles.

E como é o dia a dia dentro do Polo Digital?

A Tripbike participou do processo seletivo para incubação pelo Polo Digital, com apoio do projeto Sebrae Startup SP, e foi uma das dez escolhidas, dentre 38 ao todo. Nosso período por lá vai até agosto deste ano, e quando terminar este prazo queremos alugar uma sala comercial. O ambiente no Polo Digital é colaborativo, pois todos têm deficiência de equipe, e todos se ajudam, principalmente no marketing. Na minha sala estão abrigadas outras três startups, e temos videogames, bicicletas, frigobar e pufe, ao estilo Google. Temos acesso ao espaço 24 horas por dia, sete dias por semana. Todo esse suporte é fundamental, pois sem o Polo Digital provavelmente meu projeto estaria na gaveta ou andando a passos de tartaruga.

Qual é a principal dificuldade enfrentada por uma empresa como essa?

A falta de recursos financeiros. Quando decidi focar no meu negócio, tinha separado grana para um ano, só que o dinheiro acabou em três meses. Infelizmente tenho vários colegas que não consegue nem mesmo pagar o transporte até o local, e outros que não tem para almoçar. Por conta disso, a taxa de mortalidade das startups é de 7 a cada 10.

Seu dinheiro acabou muito antes do previsto. O que você fez quando isso aconteceu?

O que eu tinha era uma reserva pessoal, que acabou virando um monte de contas. Tive sorte de ter uma esposa que me deu suporte financeiro, mas tivemos que mudar de bairro, cortar várias coisas de casa e reduzir nosso padrão de vida, porque queríamos continuar acreditando no sonho. Não consegui crédito, mas apostei no cheque especial e cartão de crédito. Só que com isso logo vieram mais dívidas. Tenho o título de Microempreendedor Individual (MEI), e existe preconceito com esta categoria. No Brasil o apoio ao empreendedor no sentido de financiamento é zero.

Como a Tripbike chegou ao palco do Sebrae dentro da Campus Party, um dos maiores eventos de tecnologia do Brasil?

Participamos do programa de startups do Sebrae, e eles conseguem fast track para alguns selecionados participarem da Campus Party. Então preenchemos os formulários e entramos para a seleção, que avaliou critérios como a inovação e os resultados da empresa. A Tripbike foi um dos 42 projetos selecionados para o Desafio Like a Boss, uma espécie de competição de startups, onde cada uma tinha três minutos para fazer o pitch, até que o grupo mais estruturado fosse consagrado vencedor. Acabamos ficando na primeira fase do evento, mas identificamos que as startups que avançaram já estavam lucrando – e muito – a exemplo de uma que faturava cerca de R$ 100 mil por mês.

Essa experiência trouxe bons frutos?

Consegui o que eu estava buscando, que era visibilidade. Nossas redes sociais bombaram, fomos mais percebidos pelo mercado. A consequência disso é começar a vender mais daqui a pouco. Nossa operação começou em janeiro, e já temos 40 roteiros urbanos, de mountain bike e de ciclismo de estrada em todo o Brasil, com 170 usuários cadastrados, sendo 84 experts e 86 clientes. Em 2017 o impacto do cicloturismo na economia da Europa foi de 40 bilhões de euros, então nossa meta para daqui 24 meses é ter 10 mil usuários e começar a internacionalizar a operação.