EDITORIAL

Por que será?

A situação do Rio Tietê em Mogi das Cruzes pode ser comparada com o que se vê, com alguma frequência, com idosos apenados com a morte civil, embora ainda estejam bem vivos e tudo por causa de grandes riquezas e bens, que possuem. Essas pessoas são vítimas de um pernicioso jogo de interesses. Por isso, perdem os direitos jurídicos ou, quando não se chega a isso, têm a voz, a identidade e os desejos calados.

É uma morte antecipada. Quem não viu isso acontecer dentro de famílias ou de grupos outros, que determinam propositalmente a morte civil de um sujeito, de olho em benefícios financeiros ou políticos?

É um dos lados mais bárbaros da relação humana, em particular, quando se trata de pessoas mais velhas, que muito já fizeram por seus algozes.

Essa situação lembra o drama vivido pelo Rio Tietê, responsável pelo abastecimento de milhões de paulistas que vivem na Região Metropolitana do Estado, mas abandonado à própria sorte.

As dores e os lamentos do Rio Tietê não são ouvidos. Há uma aceitação com a sujeira, o mau cheiro, o sofá jogado dentro do leito, a vazão d’água reduzida, as respostas nada convincentes dadas pelos governos do Estado e do Município sobre a qualidade das águas desse “peso morto”.

Em Mogi das Cruzes, o Rio Tietê não é tratado como um provedor de água doce e muito menos como um recurso natural que poderia ser capital para o turismo, a melhoria da paisagem urbana, a qualidade de vida.

Nada disso é matéria nova. Técnicos e políticos que se revezam nos cargos com poder de decisão conhecem muito bem as causas da morte do Rio Tietê – o esgoto domiciliar a partir dos bairros mais populares (Socorro, César de Souza) e os defensivos agrícolas, que escorrem para o manancial antes da chegada à Estação de Captação Pedra de Afiar, de onde o Semae tira água para o abastecimento da Cidade.

Esses dois elementos fazem proliferar as plantas aquáticas que são um sintoma da mesma doença, a poluição.

A bandeira do Rio Tietê pouca força tem demonstrado para mobilizar a opinião pública, a academia, entidades e associações (com poucas exceções), partidos e nem mesmo moradores ribeirinhos. Desesperança? Acomodação? Descrédito? Pode ser.

Interessante notar que tratamento diferente tem recebido, com todo o louvor e o reconhecimento deste jornal, o Brejinho de César de Souza, onde a fauna e a flora ainda exuberante estão despertando o olhar de muitas pessoas.

O mesmo não acontece com o Rio Tietê. Por que será?