CIRCUITO

Jair Pedrosa defende uma cidade com mais ciclistas

Jair Gusman Pedrosa. (Foto: Eisner Soares)
Jair Gusman Pedrosa. (Foto: Eisner Soares)

Morando em Mogi há 22 anos, Jair Gusman Pedrosa tornou-se um ativista, em defesa de várias causas para a cidade. Formato em Tecnologias e Redes e pós-graduado em Administração do Terceiro Setor e Gestão Cultural, aos 60 anos ele ganha a vida com serviços de marketing digital, como gestão de mídias sociais, mas usa todo o tempo livre para discutir pautas de interesse dos mogianos, como a criação de mais espaço para os ciclistas ou ainda a instalação de uma unidade do Sesc por aqui. À frente do coletivo BiciMogi, Pedrosa explica que para aumentar a presença das bicicletas no ambiente urbano é preciso criar políticas públicas que enxerguem este meio de transporte como uma alternativa não só para desafogar o trânsito mas também diminuir a poluição emitida pelos carros e motos.

Como surgiu o interesse em defender mais espaço para os ciclistas?

Quando eu trabalhava no mercado financeiro havia um programa de bolsas de valores sociais e eu fiz a ponte, a interface de várias entidades com a Bovespa. A partir disso comecei a me especializar no terceiro setor. Em paralelo a isso, sempre gostei de ciclismo, embora nunca tivesse ligado essa prática a atuações sociais, mas em certo momento comecei a ver, ainda em São Paulo, o quanto a bicicleta era importante na questão de mobilidade ativa nas pessoas e também para o meio ambiente, afinal, cada bike na rua significa um carro a menos. Comecei a intensificar essas atividades de uns cinco anos para cá, mas vejo que aqui em Mogi existe certa dificuldade de entendimento disso, tanto por parte dos moradores e comerciantes quanto dos próprios ciclistas.

A que você atribui esta dificuldade de entendimento?

Ela começa com os comerciantes, que acham que são os carros que fazem compras, quando quem compra são as pessoas. Explico: quando se fala de fazer ciclorrotas e ciclovias com ligação pela área central eles ficam super agitados, pois implicaria em eliminar ao menos uma zona azul para estacionamento de veículos. Outro agravante recente foi o desmanche do bicicletário que havia no terminal central. Até foi feito um do lado de fora, menor, mas ninguém para lá, por ser perigoso. Então a cidade carece deste serviço, a exemplo de Suzano, que tem um feito pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), com capacidade para 600 bikes, e que está sempre cheio, uma boa para quem precisa deixar a bicicleta para pegar trem ou ônibus.

Quantos grupos de ciclistas há em Mogi?

Hoje temos quase 20 grupos de ciclistas, sendo que a maioria deles é voltados para trilhas, mountain bike e/ou passeios de final de semana. Temos coletivos formados por três ou cinco pessoas, mas também temos os que tem mais de 100, e ainda os que praticam ações sociais, como o BiciMogi, do qual faço parte, e o Ciclo Sensorial, que atua na inclusão de pessoas com deficiência.

O que é o BiciMogi e qual seu papel neste coletivo?

Sou coordenador do BiciMogi, que foi fundado em 2015. Trata-se de um coletivo horizontal, sem presidência ou CNPJ, cujo foco não está nos passeios, mas sim na atuação política em defesa de mais espaço para bicicletas na cidade. A iniciativa surgiu a partir de um projeto chamado ‘Bicicleta nas Eleições’, que consista em propor cartas de compromisso sobre ciclomobilidade para os candidatos a prefeito e vereador, e desde então estamos lutando por esta causa.

Como é a atuação de vocês?

Temos atuado junto a comissão de transportes da Câmara Municipal, para a qual estamos pleiteando uma cadeira representativa, e também com outros grupos de ciclistas, com os quais tivemos apoio durante a elaboração do Plano de Mobilidade Urbana, que foi aprovado em 2017, contendo um capítulo sobre ciclomobilidades. Este documento aponta que na época a cidade tinha 20 quilômetros de ciclovias, e a proposta estabelecida é que esse número seja pelo menos dobrado até 2027, o que é muito pouco, pois a Avenida das Orquídeas vai entregar, sozinha, 6 quilômetros. Também atuamos promovendo “bicicletadas”, que inclusive vão voltar a acontecer agosto: são passeios que começaram nos Esstados Unidos e depois ganharam o mundo, feitos de bike pelas ruas das cidades para reivindicar mais espaço para este meio de transporte.

Quais são os benefícios proporcionados pelo ciclismo?

São várias vantagens, que vão desde condicionamento físico a não ter que pagar estacionamento. Mas a parte mais vantajosa é para o meio ambiente, já que é um meio de transporte que não polui. Vale lembrar que é uma solução de micromobilidade, para distâncias de até 10 quilômetros, mas para que mais pessoas utilizem é preciso criar uma cultura para isso.

E qual é o caminho para criar essa cultura?

À medida que se dá condições para o ciclista circular, com a construção de ciclovias, ciclofaixas e mais segurança, as bicicletas aparecem no cenário urbano. Hoje muita gente não anda de bike na cidade por medo. O que a gente precisa é de uma politica pública de incentivo, e estamos lutando por isso, a exemplo do abaixo assinado que fizemos há três anos para a criação de uma ciclovia na Avenida João XXIII. Esta via e a Avenida NarcisoYague Guimarães, são algumas das que tem maior fluxo de ciclistas em Mogi, e também onde não há segurança alguma. Nela deveria haver a diminuição da velocidade máxima dos carros, e com um projeto bem feito daria para fazer uma ciclovia. Recentemente a prefeitura veio com a ideia do Eco-Tietê, que pretende desafogar o trânsito dessa área e já virá com ciclovia, mas que deve ficar pronto daqui a pelo menos cinco anos. Até lá o que vai acontecer?

Você acredita que as bikes sejam soluções para o cada vez mais intenso trânsito de Mogi?

Sim. Acredito não só na presença de mais bicicletas mas também no investimento e incentivo de uso do transporte publico, questão em que é preciso ter coragem para transformar em exclusivos alguns trechos da linha preferencial de ônibus, pois muitos carros invadem estas faixas. Vejo também a necessidade de se transformar mais vias em únicas na cidade, ou seja, criar ruas que só vão e ruas que só voltam. Até tentou-se fazer isso na Vila Oliveira, com mão única na Capitão Manoel Rudge, mas os comerciantes reclamaram e acabou não indo para frente. Outra sugestão é na Avenida Governador Adhemar de Barros, que tem uma das ciclovias das mais engraçadas do Brasil, com apenas 60 centímetros de largura. Com a inauguração da Avenida das Orquídeas, que deve acontecer em breve, esta avenida poderia ser transformada em mão única para acessar a vizinha Suzano, o que diminuiria o trânsito e proporcionaria mais espaço para bicicletas.

E é possível conectar as ciclovias e ciclofaixas da cidade?

É possível sim fazer a interligação dos trechos. Basta elencar quais são as ruas do Centro que poderiam receber uma ciclovia para conectar o pessoal de Braz Cubas com o César de Souza, por exemplo. Não seria preciso derrubar tantas zonas azuis quanto se pensa. Para resolver a questão, uma das reivindicações do BiciMogi é a criação de um Plano Cicloviário, no qual poderemos identificar melhor os locais que poderão ter essas interligações. Este documento é algo fundamental para a cidade. Por aqui, depois de estabelecido o novo Código de Obras, toda nova rua ou avenida tem que ter ciclovia, então o que está sendo feito agora já conta com este planejamento, mas além das conexões falta manutenção nos pontos já existentes.

O desenho das ciclovias atuais permite que os ciclistas andem somente nos locais para eles indicados?

Não. Em alguns locais as pessoas não se sentem seguras na via, como na ponte sobre o Rio Tietê, na Avenida João XXIII, em que os ciclistas acabam usando a calçada, pois mesmo ali sendo uma ciclorrota, não há a segurança necessária. Quando se implanta uma ciclorrota como essa é preciso reduzir a velocidade máxima permitida para os veículos, mas se isso for feito ali vai causar transtornos, então é delicado. Outra situação é que o ciclista muitas vezes acaba procurando o caminho mais curto e vai na contramão, até mesmo para facilitar o desvio de possíveis acidentes, mesmo isso não sendo o correto. Então tudo se resume a criação de mais espaços como ciclovias e também campanhas de educação.

Em sua opinião a cidade está pronta para receber bicicletas e patinetes de aluguel?

Quando vou para São Paulo eu utilizo essas bicicletas de aluguel, e sei que existiu tentativas dessas empresas de vir tanto para Mogi como para Suzano, mas não sei como foram as negociações. No entanto, antes que isso aconteça seria preciso ter mais espaços determinados para ciclistas.

A que outras causas você se dedica?

Estou na presidência da Associação de Moradores e Amigos do Parque (Amaparque) que promove mutirões de limpeza e outras medidas ecológicas na região próxima ao Parque da Cidade e também atuo na secretaria geral da Rede Nossa Mogi, que é associada a rede Nossa São Paulo e fala de vários aspectos da cidade. Mas outra causa que tenho defendido há muito tempo é a instalação de uma unidade do Sesc em solo mogiano. Comecei a abraçar essa ideia pois quando trabalhava em São Paulo usava muito este serviço, e não acreditava que uma cidade como Mogi não o tinha.

Todo lugar em que o Sesc é instalado muda. As relações culturais melhoram, os artistas são beneficiados, o esporte é incentivado, enfim, ocorre um intercâmbio muito grande. Primeiro tem a obra que gera empregos, e depois há o orçamento anual da unidade, que gira em torno de R$ 40 milhões/ano, valor maior do que várias secretarias de cidade do Alto Tietê juntas. Em 2013 fui um dos fundadores da página ‘Sesc Nós Queremos’ na internet, e participei da indicação do primeiro terreno, que não deu certo. Mais recente vi a segunda indicação dar errado por ter sido feita como “cessão de direitos”, e não como “doação”. Então vamos abrir um novo processo para tentar agora doar a área do Centro Esportivo do Socorro e dar continuidade ao assunto.