CHICO ORNELLAS

Pra não dizer que não falei das flores

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Era meado da década de 1970, o período mais duro do regime militar que vigeu entre 1964 e 1985, na esteira do AI-5 de dezembro de 1968. Esta semana completa 50 anos o documento que desmascarou a ditadura e lançou, ao porão, as instituições do País. O Brasil vivia, às vésperas do AI-5, um de seus períodos de maior produção cultural. Os festivais de música serviam de válvula de escape à ditadura que parecia perdida em si mesmo.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Nesse cenário, o paraibano Geraldo Vandré, aos 33 anos, era um dos nomes de maior destaque. Vinha de sucessos como “Aruanda”, em parceria com Carlos Lyra, “Fica mal com Deus” e “Menino das Laranjas”. Levou sua “Disparada” (parceria com Théo Barros), interpretada por Jair Rodrigues, à final do Festival da Record de 1966; empatou com “A Banda”, de Chico Buarque. Então veio o 3º Festival Internacional da Canção na TV Globo.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Ao certame Vandré levou “Pra não dizer que não falei de flores”, que se transformou em ícone da resistência ao regime militar e ficou conhecida por “Caminhando”. O refrão “Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, / Não espera acontecer” foi tido como uma chamada à luta armada. A música foi à final e perdeu para “Sabiá” (Chico e Tom Jobim). A vaia que se seguiu ao anúncio da vencedora é inesquecível.

Pelos campos há fome

Em grandes plantações

Pelas ruas marchando

Cynara a Cybele, ao lado de Tom e Chico, cantaram “Sabiá” sob a maior vaia que se tem notícia em um espetáculo artístico do País: o povo exigia que “Caminhando” fosse declarada vencedora, no momento mais emblemático na história dos festivais brasileiros. O ano de 1969 começou com forte censura governamental no teatro, na música e na imprensa. Ter um disco com a música de Vandré, em casa, era objeto de desejo entre os estudantes de então.

Indecisos cordões

Ainda fazem da flor

Seu mais forte refrão

E acreditam nas flores

Vencendo o canhão

Pois foi aí que eu me socorri de um grande e querido amigo. Nelson Marques dividia, com Benedito Máximo, o controle da Livroeton, o emblemático magazine que começou na esquina da Avenida Pinheiro Franco com Rua Deodato Wertheimer e depois mudou-se para o Edifício Jorge Salomão, ali mesmo na Praça Firmina Santana. Encomendei-lhe um disco de Geraldo Vandré com “Pra não dizer que não falei de flores”. Ele levou-me a um cômodo que servia de depósito.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Abriu uma caixa de papelão e lá estavam vários long plays com a música. Entregou-me um, dizendo que não o podia vender. Ele sabia que eu não indicaria a fonte – faço hoje, 50 anos depois. Levei para casa na Rua Isabel de Bragança, chamei meus pais e irmãos e coloquei na vitrola. Todos ouviram em silêncio e meu pai, ao final, perguntou-me onde havia conseguido; eu dei-lhe uma piscada e nunca mais me perguntou. Em casa foi sempre assim.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Jamais se perguntou, em casa de meus pais, e eu sigo em minha própria: a orientação é uma ação coletiva, a decisão, assim como a responsabilidade, são individuais. Ainda agora minha mulher pediu-me que fizesse sua cola para as eleições. Sentou-me ao meu lado e foi elencando seus candidatos, eu procurava o número no computador e anotava na cola. Ela não me perguntou em quem deveria votar, eu não lhe perguntei o porquê da escolha.

Há soldados armados

Amados ou não

Quase todos perdidos

De armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam

Uma antiga lição

De morrer pela pátria

E viver sem razão

Finda a questão do festival e chegado o período negro do regime militar, vários artistas do cenário brasileiro partiram para o exílio voluntário. Geraldo Vandré não fez diferente e foi para três anos no Chile. Chegou em 1970, quando Salvador Allende se elegeu presidente, voltou ao Brasil em 1973, quando Augusto Pinochet se fez mandatário. E voltou diferente, arredio. Até que teve algumas apresentações em TV; mas já não era o mesmo.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

E chegamos a meado da década de 1970: era delegado, em Mogi, Murilo de Macedo Pereira. Chegou aqui no curso da carreira, após passagem por São José dos Campos e nunca mais saiu, mesmo aposentado. Passou a atuar nas universidades locais. Pois um dia ligam da delegacia para Murilo, que estava em casa na Vila Oliveira. Disseram-lhe que um motorista de táxi, conduzindo um passageiro, estava na repartição contando uma história estranha.

ENÍGMA VIVO – Geraldo Vandré, em 1968 (33 anos) e hoje (83 anos).

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

O motorista dizia que atendera ao passageiro na estação de trem e que o senhor, aparentando 40 anos, pedira-lhe para circular próximo da Câmara Municipal, da Prefeitura, do Banco do Brasil, do quartel da PM e da Delegacia de Polícia, onde parou e apresentou-se ao plantão. Imaginando ser um terrorista, na época dos atentados e roubos a banco. Murilo interrogou o passageiro e, confirmada sua identidade, o levou para jantar em sua casa,

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Somos todos soldados

Armados ou não

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Pois o passageiro era Geraldo Vandré, que passou horas com a família de Murilo, aceitou o jantar e, tarde da noite, voltou para São Paulo. Quando Murilo contou-me a passagem e eu cobrei não me ter avisado a tempo de testemunhar o encontro, disse-me que encontrou um homem culto, de boa conversa e sem ranço político algum, fosse de direita, fosse de esquerda. Ele até cantou algumas músicas suas, mas negou-se a entoar “Caminhando”.

Os amores na mente

As flores no chão

A certeza na frente

A história na mão

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Aprendendo e ensinando

Uma nova lição

Do ostracismo e do silêncio a que se impôs por vontade própria, Vandré saiu apenas este ano, para duas apresentações na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. Dentre os que lhe foram próximos, a única explicação que encontram para autoexílio do compositor é o fato de a obra ter superado o criador e o ter transformado no “Ge Guevara cantor”. Ele próprio teria se referido a isso.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Em tempo: seu nome de registro é Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, tem 83 anos e vive, com a esposa, no Centro de São Paulo. Na biografia “Geraldo Vandré – Uma canção interrompida” (Vitor Nuzzi/2015) o autor desmente versões de que o compositor teria se perturbado, em decorrência de tortura sofrida nos órgãos de repressão do regime militar. Vitor Nuzzi, ao fim das pesquisas para o livro, definiu o personagem: “É um enigma vivo”.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
POTÊNCIA – A Cooperativa Agrícola de Mogy das Cruzes ficava na Rua Dr. Deodato Wertheimer, logo após os trilhos da estrada de ferro, na direção do Mogilar. Era símbolo da força que a agricultura tinha na Cidade. Resultado da união em torno dos ideais do cooperativismo.

GENTE DE MOGI
MILTÃO – Ele integrou as melhores equipes que Mogi já teve – antes da profissionalização – em vôlei e basquete. E nunca se afastou do ambiente esportivo, figura constante no Clube de Campo. Era presença certa nos campeonatos de omelete que a instituição promovia. Milton Soares de Souza, o Miltão, morreu em agosto de 2011, tinha 76 anos.

O melhor de Mogi
A mulher mogiana! Nossa, tenho três lá em casa dessa espécime muito especial.

O pior de Mogi
Está instituído o Troféu Avestruz em Mogi. Vai para aquele político ou servidor público que, mesmo com a casa caindo, faz cara de paisagem, o tipo que pergunta: como? Quando? Onde? Ah, isso não é comigo!

Ser mogiano é…
Ser mogiano é… ter comprado alianças de noivado na Relojoaria Cruzeiro, da Rua Dr. Deodato Wertheimer esquina com Flaviano de Melo. E ter combinado o pagamento em vezes, ante o sorriso permanente de Toshio, o proprietário.