CHICO ORNELLAS

Prenúncio de um vendaval

Da esquerda para a direita: Cuco Pereira, Jacob Lopes, Franco Montoro, Rubens Magalhães, Almino Afonso e Audálio Dantas.

Garimpador de preciosidades, o amigo João Camargo foi buscar, nos arquivos do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas, valioso registro fotográfico de reunião política havida, em Mogi, no dia 22 de maio de 1981. É registro de momento histórico na Cidade.

Havia quase 18 anos, cisão entre duas correntes locais levou a um dos períodos de maior maniqueísmo na política daqui. De um lado, o grupo do prefeito de então, Carlos Alberto Lopes e, de outro, Waldemar Costa Filho, vice-prefeito no período 1963-1968 Os dois grupos caminharam juntos nas eleições de 1962: o patriarca Carlos Alberto Lopes elegeu-se prefeito, tendo Waldemar Costa Filho como vice.

A união dos dois parecia improvável. Até que, procurado para uma composição, Waldemar Costa Filho impôs sua condição: precisava de financiamento para capital de giro da Sometra, transportadora da qual era sócio, com Mario Cilento, instalada na esquina da Rua Ipiranga com a Avenida Fernando Costa (hoje há uma loja de pneus no local).

O próprio Waldemar (falecido em abril de 2001) revelaria isso muitos anos depois, contando que, na manhã seguinte ao encontro, recebeu telefonema do gerente local do Banco do Estado de São Paulo, informando que o montante estava disponível. Fora liberado pelo governador Adhemar de Barros.

Carlos Alberto Lopes e Waldemar Costa Filho cumprimentaram-se na posse, nunca mais. O prefeito despachava no gabinete instalado na antiga residência do dr. Deodato Wertheimer, na Rua José Bonifácio; Waldemar dava expediente em gabinete da Rua Barão de Jaceguai, entre as ruas Braz Cubas e Isabel de Bragança. Instalou ali um governo paralelo. Não fazia outra coisa senão instigar.

Entre 1964 e 1968 foram cinco anos de acirrada disputa. Incluíam demandas políticas (houve processo de impeachment contra o prefeito); questões administrativas (desvio de materiais) e provocações pessoais (melhor não lembrar). Em 1968, Waldemar elegeu-se prefeito; fez seu sucessor em 1972, o apolítico promotor de Justiça Sebastião Cascardo e retomou a Prefeitura em 1977.

Em 22 de maio de 1981, data da reunião documentada pelo CPDOC da FGV, Waldemar estava no segundo mandato, aquele em que faria a estrada Mogi-Bertioga. Nem esta foi suficiente para aplacar os desejos de mudança de todo o País, nos estertores do regime militar.

A reunião de 22 de maio de 1981 é bem uma mostra da política local na época. Há pouquíssimos quadros de ativistas locais nas fotografias. De todos os flagrados, o único que continua atuante é o vereador Cuco Pereira. Mas era o embrião do que viria um ano depois.

Se havia poucos locais, a elite dirigente do MDB estava presente. De Almino Afonso a Mario Covas, de Franco Montoro a Audálio Dantas. Faltou apenas Ulysses Guimarães. Daqui, além de Jacob Lopes e Cuco Pereira: José Marcos Gonçalves, Rubens Magalhães e Eduardo Lopes.

Seguiram-se ao encontro as confabulações para montar a chapa às eleições do ano seguinte. Rubens Magalhães, um dos candidatos naturais a prefeito, estava aliado ao professor e comerciante Aécio Yamada, uma maneira de dividir a colônia japonesa, então controlada pelo prefeito Waldemar Costa Filho, que apoiava Junji Abe para sua sucessão. O outro candidato era o professor Waltely Aquino de Oliveira. Para vice de Waltely, Rubens foi buscar o promotor público e professor universitário Antônio Carlos Machado Teixeira.

Nesse tempo do bipartidarismo (Arena e MDB), cada partido poderia ter três candidatos (sublegendas). Venceria o partido cuja soma das legendas fosse maior e, neste, o nome mais votado.

Tudo estava pronto para iniciar a campanha quando Waltely anunciou que preferia ser candidato a vice. Sem tempo para mudar a chapa antes da convenção, a liderança do MDB optou pela alteração mais simples: Machado vira candidato a prefeito e Waltely o seu vice. Houve quem previsse: “Depois a gente muda”.

Não mudaram. Machado Teixeira elegeu-se e cumpriu mandato estendido (1983-1988); Jacob Lopes fez-se puxador de votos ao se eleger deputado estadual com folga e Franco Montoro governador do Estado.

Foi um vendaval, 37 anos atrás. O que aconteceu depois já é outra história.

FLAGRANTE DO SÉCULO XX 

SEMPRE ELE – Me pergunto constantemente: qual seria a memória de Mogi sem o trabalho de Benedicto Alves, o comerciante que tinha por hobby a fotografia. Pois é dele este registro, creio que da década de 1930, dos fundos das igrejas do Carmo, a partir da rua Otto Unger. No portão à esquerda, está a nova capela, construída em meados da década de 1960, quando os frades carmelitas tinham planos de demolir as antigas igrejas. Enfim preservadas por lançamento no Livro de Tombo do Instituto do Patrimônio Histórico.

GENTE DE MOGI
CHIQUITO – O mogiano Francisco Franco, que aqui era tratado por Chiquito, tinha 42 anos, em 1950, quando se elegeu prefeito de Rancharia. Foi, em seguida, deputado estadual (1955-1969) e presidente da Assembleia Legislativa. Na política local era aliado do grupo Lopes e carregou, nas eleições de 1966, Manoel Bezerra de Melo (Padre Melo) para sua primeira eleição como deputado federal. Terminou a carreira política dia 29 de abril de 1969, cassado pelo AI-5 do regime militar. Morreu dia 17 de novembro de 1991.

O melhor de Mogi
O Museu de Rua. Há anos, o historiador Isaac Grinberg sugeriu – e a Prefeitura acatou – a ideia de instalar painéis fotográficos em pontos estratégicos da Cidade, mostrando como eram esses logradouros no passado. Isto consolidava a identidade comunitária e fortalecia a alto estima da população. Virou pó.

O pior de Mogi
Há uma semana, em editorial, este jornal perguntou ao secretário de Desenvolvimento local, Clodoaldo de Moraes, quais ações estavam em curso para preparar Mogi ao fim da atual crise. Sabe a resposta que tivemos? Silêncio absoluto.

Ser mogiano é….
Ser mogiano é… pelo menos saber o que foi e onde ficava o Parque Infantil Monteiro Lobato.