CULTURA CAIPIRA

Primeira edição do Festival da Cachaça agita Sabaúna

Alambi Fusca é uma das atrações do festival. (Foto: Edson Martins)
Alambi Fusca é uma das atrações do festival. (Foto: Edson Martins)

O clima rural de Sabaúna abrigou ontem o início do 1º Festival da Cachaça de Mogi das Cruzes, no Espaço Arena, ao lado da estação ferroviária do distrito. Doze produtores da bebida mais popular do Brasil se reuniram para oferecer ao público diversas opções do líquido que vem da cana-de-açúcar. Hoje o evento continua a partir das 10h30, com destaque para o mestre cachacista Jairo Martins, que comandar palestra sobre a cachaça, às 14 horas.

O Alambi Fusca chamava a atenção logo na entrada do espaço da Associação Nacional de Preservação Ferroviária. O projeto familiar é de João Carlos Martins, de 65 anos, e de seu filho, Carlos Renato Martins, de 35 anos, de Poá. Os dois gostavam de frequentar eventos de carros antigos, mas buscavam algo que pudesse ajudar a pagar os custos das viagens que faziam para participar dos encontros. A maior parte das pessoas investia em comida e cerveja, mas não tinha cerveja. Foi então que eles se capacitaram para fazer a produção e venda das cachaças.

“As que mais saem são as cachaças de jabuticaba, amendoim e cambuci. A do cambuci não poderíamos deixar de fazer, porque é bastante tradicional aqui na região. Todo o processo desde a retirada da cana até o engarrafamento para a venda demora cerca de dois meses”, detalha. A família também oferece licores, sendo que entre eles se destacam o de café e jabuticaba.

Também vem de família a produção de cachaça de Ivanio Carvalho. Morador de Braz Cubas, ele entrou há 10 anos na área e hoje além de produzir antepasto de cambuci, oferece a cachaça do fruto e a bebida curtida na canela sassafrás. Ele que sempre precisou deixar a cidade para participar desse tipo de evento, avaliou como importante para a marca poder mostrar aos mogianos o que é preparado aqui. “Todo processo demora um ano e oito meses para ficar pronto. E a gente usa o cambuci e a sassafrás porque são nativas da nossa mata e com forte memória para a nossa região”, destacou.

O evento foi organizado pelo produtor Dimas Roberto Gorgulho. Ele lembra que desde pequeno ajudava o pai lambiqueiro Lázaro Noronha Gorgulho, já falecido, a colocar os rótulos da cachaça Santa Branca e Fazendinha. Com essa memória, ele achou que estava na hora da cidade valorizar o setor, até porque a primeira indústria a ser reconhecida no Estado tendo a cana-de-açúcar como matéria-prima foi em Sabaúna, em meados da década de 1890.

“Acredito que esse festival vai entrar no calendário de Sabaúna, porque está muito ligado ao que o distrito representa na cidade, que é a memória rural, caipira. E logo na primeira edição, a gente conseguiu trazer o cachacista Jairo Martins, que viaja o mundo inteiro falando da nossa cachaça. Ele vai ser um dos pontos altos do festival”, ressaltou.

No Espaço Arena, além da bebida, o público pode conferir barracas com alimentos à base de mel, cambuci e outras frutas, e ainda refeições nas barracas de churrasco, galinhada e café caipira. O clima de quase 30 graus atraiu ontem bastante gente para tomar chopp e cervejas artesanais. O local abriga ainda artesãos e antiquarias.

O aposentado Wilson Decaris saiu cedo de Poá de bicicleta e já chegou em Sabaúna experimentando a cachaça de cambuci do Alambi Fusca. “Gosto bastante da cachaça do cambuci. Chego a andar 50 quilômetros de bike entre Poá e Biritiba Mirim só para comprar”, diz.

O visitante tinha ainda a opção de pagar R$ 20,00 e fazer um passeio de jipe até o Museu da Cachaça, onde funcionou a indústria de cana-de-açúcar à época comandada pelo produtor Chiquito Franco, mais tarde vendida ao grupo Pirassununga, fabricante da 51.

Livro explica segredos da cachaça no Brasil

No livro “Os Segredos da Cachaça” (Alaúde Editorial, 2018), João Almeida e Leandro Dias explicam que o decreto 6.871/2009 reconhece como cachaça a aguardente de cana produzida no Brasil com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume, a 20ºC, obtida pela fermentação do caldo de cana-de-açúcar, podendo ser adicionada de açúcares até 6 gramas por litro. No linguajar popular e nos diversos cantos do país ela recebe apelidos, como branquinha, pinga, caninha e há quem diga até que é água que passarinho não bebe, mas a certeza é que sempre que a pessoa estiver frente a um litro de cachaça vai saber que ela foi produzida no Brasil.

Uma curiosidade do assunto é a de que apesar de a aguardante passar pelo mesmo processo da cachaça, um não é sinônimo do outro. Ou melhor: toda cachaça é uma aguardante, já o contrário é errado afirmar, considerando que a segunda tem um grau alcoólico que pode extrapolar os 48% de volume da cachaça, e chegar ao limite de 54%, e pode ser produzida por qualquer outras matérias-primas, como uva, pêra e maçã.

No livro, os autores destacaram ainda que a cachaça no Brasil tem três certidões de nascimento. A primeira delas é de 1516, dos registros da Feitoria de Itamaracá, em Pernambuco, que mantinha um engenho de açúcar. Quatro anos depois, a história traz a suspeita de que algum engenho de Porto Seguro, na Bahia, fabricava o líquido e de lá ele passou a ser enviado a diversos países.

O último deles e o mais aceito por historiadores vem só em 1932, com o Engenho São Jorge dos Erasmos, no Estado de São Paulo. Atualmente, segundo o livro, o Brasil tem cerca de cinco mil alambiques cadastrados no Ministério da Agricultura.