NO PALCO

Priscila Nicoliche em final de temporada

Nicoliche em ‘Medea (I) Material’, um monólogo nascido do texto-base do escritor e dramaturgo alemão Heiner Muller
Nicoliche em ‘Medea (I) Material’, um monólogo nascido do texto-base do escritor e dramaturgo alemão Heiner Muller

Priscila Nicoliche ocupa o palco do Centro Cultural de Mogi das Cruzes neste 14 de setembro, na penúltima apresentação do ano de ‘Medea (I) Material’, um monólogo nascido do texto-base do escritor e dramaturgo alemão Heiner Muller [1928-1975] após pesquisas conduzidas pela atriz e diretora de teatro, esteio do Quântica Teatro Laboratório, e da Associação JPS de César de Souza. Ela também está em ‘Yerma’, de Federico Garcia Lorca, estreia deste mês do grupo suzanense Teatro da Neura, como atriz convidada.

Nicoliche fala com as mãos, e o olhar. Vai às lágrimas quando enlaça a história de si mesma, de ‘Medea (I) Material’ e da experiência com as novas gerações na “Jota”, o apelido carinhoso para a JPS, uma associação de bairro que se transformou em um dos mais fortes polos culturais da Cidade, onde leciona teatro e acompanha as demais oficinas formadoras de atrizes/atores, dançarinas/dançarinos e outros artistas mogianos há 15 anos. Ela tem 41 anos. O projeto de pesquisa e a temporada de ‘Medea’ são um dos beneficiários do Programa de Fomento à Arte e Cultura de Mogi das Cruzes (Profac). Com o apoio financeiro que deverá ajudar na manutenção da JPS durante alguns meses, a peça circulou por endereços como a escola Mário Portes, do Distrito de Jundiapeba. E, no final deste ano, será apresentada na entidade, em César de Souza, onde oficinas artísticas atraem estudantes do distrito e de outros bairros.

Na escola Mário Portes, no final do mês passado, estudantes de outras escolas públicas puderam conhecer um pouco da obra do dramaturgo alemão, nome mundial do teatro contemporâneo, que desperta emoções e insights no espectador acerca dos maiores dramas humanos e pessoais. Em ‘Medea’, e em outras obras do Quântica, estão questões que são mola-mestra. Entre as provocações das criações, estão temas políticos, como as mudanças compulsórias de massas de refugiados, obrigados a saírem de seus países por questões  políticas, e a maneira como o mundo trata o assunto.

“O teatro é um ato político, de provocar o pensamento, a crítica, a resposta para o que está acontecendo ao nosso lado”, diz Nicoliche. A descentralização dos palcos do teatro tem animado a mogiana que nasceu no Distrito de Taiaçupeba, e estudou na escola Enedina Gomes de Freitas, no Mogi Moderno. Ela integrou um das últimas turmas do antigo Cefam (Centro de Formação do Magistério), onde está hoje a Fatec (Faculdade de Tecnologia), mas não abraçou a profissão.

O Profac atrela o fomento cultural a uma agenda de apresentações públicas, o que leva a arte à periferia, diversifica o público. “Foi uma experiência incrível porque, na escola pública, há muitos estudantes interessados no teatro, e olha que Medea, é um texto forte, denso. Numa apresentação na própria JPS, algumas pessoas perguntaram, ao final, mas é isso, não há qualquer esperança? E eu digo, é isso: um bloco de tijolo na cabeça mesmo, para provocar o pensamento, a reflexão”. E Nicoliche, tem esperança? À pergunta de O Diário, a atriz para, um átimo, e responde: “Depende, há muita coisa ruim acontecendo, muita mesmo, mas você tem de acreditar no ser humano. E o artista acredita no ser humano”.

 

Fomento, futuro e os desafios

Levar o teatro para a periferia é a cena teatral de um momento marcado, na opinião de Priscila Nicoliche, por uma acomodação da maior parte dos grupos ainda existentes. Ela preside o Conselho Municipal de Cultura, por onde passam os pedidos de fomento à arte e as discussões sobre a ação cultural em Mogi das Cruzes. “Serei apedrejada, mas não será a primeira vez. Penso que o artista mogiano está muito acomodado e vive uma organização apenas dentro de seus próprios grupos, onde fala, critica, mas não transpõe esses guetos, não sai dali para o espaço democrático que, se não é o ideal, é o que existe. E quando o espaço está vazio, vem uma outra pessoa e ocupa”. Hoje mesmo, poucos são os grupos com novos espetáculos em temporada. Exceção bem-vinda tem sido a produção estudantil, que move camarins como os do Festival Estudantil de Teatro, e alguns pequenos “teatros de bolso”, mantidos por alguns poucos grupos e coletivos mogianos. A crítica amplia o raio para outros assuntos como as dificuldades para se fazer deslanchar as leis de fomento.

Diante das duas leis, a de Incentivo à Cultura (LIC) e o Profac, parte da classe artística tem dificuldade em fazer os projetos, ao menos, para serem avaliados. E, aqui, Nicoliche vê a falta da prática teatral e da profissionalização desse fazer. A Lei de Incentivo à Cultura demora a “pegar”, por falta do entendimento também da iniciativa privada sobre a possibilidade de investir em projetos culturais, com a obtenção de benefícios fiscais. Reuniões foram promovidas pelo Conselho Municipal de Cultura para atrair empresários e formar os produtores culturais. Ambas iniciativas atraíram pouquíssimas pessoas. “Os resultados não foram bons, mas vamos continuar tentando”, afirmou. (E.J.)