COMPORTAMENTO

Professora de Mogi se dedica a ajudar autistas

Milena e os filhos Carlos Henrique e Danilo Henrique, ambos diagnosticados com autismo, no ginásio de Paradesporto. (Foto: Eisner Soares)
Milena e os filhos Carlos Henrique e Danilo Henrique, ambos diagnosticados com autismo, no ginásio de Paradesporto. (Foto: Eisner Soares)

Se até 2017 a professora Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol, a Lourdinha, dava aulas de Educação Física, ela teve uma reviravolta profissional ao decidir abandonar as quadras. Isso porque em anos de profissão, passou pela vida de alguns alunos diagnosticados com Transtorno do Espectro do Autista (TEA), o que fez com que a profissional resolvesse trabalhar somente com eles. Hoje, ela atende aos autistas no contraturno escolar e busca se especializar cada vez mais para que possa auxiliar cada um deles.

Lembrando que abril é o mês de conscientização do autismo, Lourdinha reforça que é de extrema importância que o assunto esteja cada vez mais em evidência. “É como se pudéssemos levantar uma bandeira e mostrar que eles existem, mas que têm vida própria e também estão na sociedade. É necessário fortalecer esse olhar para eles, mostrando quem são, onde vivem e quais são os anseios e as conquistas. É importante ressaltar que eles são parte da sociedade e não é porque são diferentes que não são humanos. Muitas vezes essa parte humanizada é relacionada só com as atividades, mas é preciso de respeito acima de tudo”, disse a professora.

Ela defende a ideia de que os autistas não podem ser vistos como diferentes, mas sim como um grupo de pessoas que tem uma maneira diferente de viver. Por isso, a atenção voltada a eles pode ser manifestada nos mais diferentes espaços, principalmente nos públicos, como os parques, por exemplo. Atendendo às crianças, ela diz que os brinquedos que estão instalados nestes locais precisam chamar atenção de alguma forma, para que elas não se sintam acanhadas e, ao contrário disso, tenham vontade de brincar.

Mas a evolução de cada um vai muito além disso, e tem de ser estimulada desde cedo, principalmente nas escolas. Lourdinha defende a integração entre o ensino e o atendimento clínico. Como cada indivíduo tem suas peculiaridades, é interessante conhecer a fundo aquele aluno ou paciente. Por isso, ela tem elaborado um projeto, onde o mesmo relatório – com um perfil e especificações de cada um – pudesse ser utilizado nas escolas e também por uma equipe multifuncional, formada por médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais.

“Tudo tem que estar integrado, mas é uma pena que na rede pública não tenha essa equipe multifuncional, o que é muito difícil de se encontrar hoje, principalmente para quem tem menos condições financeiras. Acredito que precisa ter uma resolução mesmo, porque já existe uma lei referente ao autismo, mas no papel é diferente do que acontece na vida real. Meus alunos que teriam direito a uma professora exclusiva na sala de aula não conseguem, mesmo quando a mãe abre o pedido na Diretoria de Ensino”, afirmou Lourdinha.

A profissional frisa ainda que dar mais atenção para os portadores do espectro é importante para que tenha um melhor entendimento de que eles não podem ser rotulados dentro da doença e que o que ela busca é dar a eles maior autonomia e conhecimento de mundo.

Milena vence barreiras pelos filhos

Mãe de dois meninos diagnosticados com autismo, Milena Tsukahara, 41, diz que faz o que pode para criá-los mais independentes e “para o mundo”. Os esforços dela parecem estar dando certo e ela vê os filhos em constante evolução. O mais velho, Carlos Henrique Baccarat Neto, 19, por exemplo, tem ido às aulas do curso técnico de ônibus e sozinho. Enquanto o mais novo, Danilo Henrique Tsukahara Baccarat, 14, tem progredido na escola, onde já criou um curta-metragem sobre um jardim sensorial.

Quando Carlos se formou no ensino fundamental, em 2017, ela já buscava novas ocupações para o jovem. No ano passado, tentou matricular o filho no curso de jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), mas em nenhum dos semestres foi formada uma nova turma. Sendo assim, ele ficou o ano inteiro em casa, o que ela não gosta. “Quanto mais eles ficam desocupados, mais ficam no mundinho deles e é isso que não podemos permitir. Temos que trazê-los para o nosso mundo”, comentou a mãe.

No início deste ano ele foi matriculado no curso técnico de Química e tem gostado. Por lá, o contato maior com a vida adulta faz com que Carlos sinta medo dos preconceitos. Em casa ele conta que já fez amigos, mas que não falou para eles que é autista, já que fica com receio de uma possível rejeição.

O irmão mais velho se junta a Danilo na hora de fazer atividades físicas no Centro Municipal Paradesporto, no Rodeio. “Isso para eles é muito importante. Apesar de ter uma programação, ainda sinto falta de profissionais especializados, que são poucos. Os meninos teriam direito a um professor para acompanhá-los em sala de aula e a gente briga na justiça por isso, mas, mesmo assim, é muito difícil”, relata a mãe.

Ela lembra que o filho mais novo foi diagnosticado com autismo aos sete anos, quando estudava em uma escola particular e não era bem atendido. Ele recebeu acolhimento em uma Escola Municipal, onde encontrou uma professora que o deu a atenção necessária, além de alfabetizá-lo. Hoje, estuda na Escola Estadual Maestro Antônio Marmora Filho, aonde encontrou professores “humanos e dedicados”, segundo Milena.

Jefferson tem um sonho: ser bombeiro

Patrícia acompanha o desenvolvimento de Jefferson. (Foto: divulgação)

Um menino sonhador. É assim que Patricia da Soledade Dias de Sousa, 36, define o filho Jefferson Rodrigues do Espírito Santo Júnior, diagnosticado aos quatro anos de idade com o Transtorno do Espectro do Autista (TEA). Hoje, com 14 anos ele já faz projeções para a vida adulta e diz que quer ter barba, um carro branco e uma tatuagem ao completar 18 anos, além de almejar ser bombeiro para salvar as pessoas e também os animais.

“Tenho certeza que todos os sonhos do meu filho se realizarão”, diz a mãe que já passou por muitas situações antes mesmo de ter o diagnóstico do menino. Ele sempre gostou muito de assistir televisão e quando era mais novo fica nervoso caso ela não ligasse o aparelho. Por isso se jogava no chão e batia com a cabeça na parede. Os pediatras diziam que ele não tinha nada e que aquilo tudo era “manha de criança mimada”.

Aconselhada a buscar um neurologista, ela esperou por um ano até que conseguiu atendimento na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), onde recebeu o diagnóstico. Depois, conseguiu matricular Jefferson na Escola Municipal de Educação Especial (Emesp), que foi onde o menino aprendeu a andar, a comer sozinho, perdeu o medo de entrar na piscina e por anos recebeu tratamento com uma fonoaudióloga. Além disso, foi o atendimento psicopedagogo que contribuiu ainda mais com a independência do menino, que hoje é alfabetizado e sabe fazer contas, mesmo não conseguindo ainda fazer coisas aparentemente fáceis, como assoprar e cuspir.

“Ele passou pelo consultório por seis anos e esse atendimento ‘abriu o computador da mente dele’. Agora, ele é um menino calmo, inteligente, lindo e faz desenhos digitais um mais lindo que o outro. O Jefferson adora computador e ver vídeos em inglês. É claro que ele ainda tem algumas dificuldades com essas coisas que parecem tão simples para nós, mas que para eles pode ser uma grande dificuldade. Ele não gosta de muitas conversas, mas é um menino encantador”, relata a mãe.


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