CIRCUITO

Psicologia inclusiva e acolhedora

Luciana Garcia de Lima coordena uma clínica que atende em Mogi das Cruzes crianças e adolescentes de todas as idades. (Foto: Eisner Soares)
Luciana Garcia de Lima. (Foto: Eisner Soares)

Psicóloga e psicopedagoga especializada em neuropsicologia, especialista em avaliação psicológica e em neurologia clínica e intensiva, Luciana Garcia de Lima coordena uma clínica que atende em Mogi das Cruzes crianças e adolescentes de todas as idades, inclusive os que apresentam o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Aliás, com foco nesta condição ela lançou, no mês passado, um livro que funciona como um guia para pais e/ou interessados no tema. É que, além de ser responsável pela avaliação de pacientes, ela se dedica a escrever artigos e outros textos, com o objetivo de orientar e conscientizar. E é isso o que ela faz aqui, espaço em que comenta como é atender jovens autistas, e também quais são as principais queixas psicológicas e comportamentais do público infantojuvenil.

Como é trabalhar com jovens autistas?

Os autistas são pessoas que aprendem quando você entende o jeito delas, como elas funcionam. Assim, qualquer aprendizado correspondido vale a pena, melhora a qualidade de vida e o relacionamento com família e com a própria aprendizagem. Pequenos detalhes para nós são gritantes para eles, então é muito gratificante atendê-los.

Os pais que tem filhos autistas precisam de orientação?

Sim, e não só nesses casos, mas todos os pais e responsáveis, independente das condições ou queixas do paciente. No caso do autismo, como temos queixas de comportamento e ensino de habilidades, o ideal é fazer de 20 a 40 horas semanais de tratamento. Só que tanto tempo custa caro, e acabamos transformando pais e professores em co-terapeutas, para que continuem as orientações em casa.

Em sua opinião ainda falta conscientização sobre o autismo?

Sim, embora já tenha melhorado muito, ainda falta muita informação. Os pais possuem mais dados que as escolas, que estão perdidas em relação a inclusão, como funciona um aluno autista, que tipo de intervenção pode ser feita. Aliás, a maioria dos meus pacientes estudam em escolas regulares e outros em centros especializados, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), e é preciso ter um cuidado muito grande, pois o autista não percebe que está sofrendo bullying, por exemplo. Eles são tão puros que acham que é brincadeira, que as pessoas estão rindo por estarem felizes.

Foi pensando assim que você escreveu o livro ‘Autismo – Práticas e Intervenções’, lançado em Mogi das Cruzes no último dia 24?

O projeto surgiu a partir da necessidade que sentimos na clínica, como muitas pessoas parando de tomar vacina pois leram na internet que elas causam o autismo, ou então fazendo dietas malucas e tomando suplementos. Para escrever esse livro, eu e outros profissionais fizemos pesquisas baseadas em evidências, ou seja, o leitor pode replicar o que está ali, pois existe comprovação científica que não causará dano para a criança. Queremos promover a procura por fontes confiáveis, e por lançaremos outras obras em breve.

São os pais que percebem as questões das crianças e adolescentes?

É difícil que os pais procurem ajuda espontaneamente, sem a indicação de alguém, como um médico neurologista. Na verdade, a grande parceria que temos hoje é com as escolas, que acabam encaminhando para avaliação o aluno com dificuldade de aprendizagem. Então a maioria dos pacientes vêm dos colégios, desde educação infantil até o ensino médio, o que é muito bom, porque mostra que o corpo docente tem intenção de entender como funciona o cérebro da criança, como ela aprende melhor, que tipo de estratégias podem melhorar a aprendizagem.

Você comentou que as escolas encaminham pacientes, mas não há acompanhamento psicológico no ambiente escolar. Seria interessante se houvesse?

Com certeza, não só psicológico, mas também com uma equipe multidisciplinar formada por um psicoterapeuta, um fonoaudiólogo, um terapeuta ocupacional… Na escola esses profissionais não podem fazer atendimento, mas podem dar todo o suporte, identificar problemas de comportamento, modificar o ambiente a fim de evitar problemas, orientar professores, os pais e responsáveis e encaminhar para o devido tratamento.

Quais são as principais queixas relatadas nesses encaminhamentos?

Recebemos muitas queixas de falta de concentração na escola, as vezes porque a criança não está entendendo, as vezes porque ela tem algum problema emocional que atrapalha atenção e memória, mas de modo geral as questões são bem variadas e envolvem também habilidades sociais, como crianças que vão bem nas matérias mas não participam das aulas e/ou não interagem com os colegas.

As questões relacionadas aos autistas são as mesmas?

Nem sempre. As queixas mudam pela condição deles, que apresentam muitos problemas de comportamento. É preciso trabalhar muito o ensino de habilidades, pois o especto do autismo faz com que eles não aprendam por imitação e observação. São crianças e adolescentes muito concretos, e por isso temos que pegar na mão e ensinar, um tratamento diário e individualizado, pensado para tratar também comorbidades como depressão, epilepsia e deficit de atenção.

Como é feita a avaliação inicial dos pacientes?

A avaliação demora normalmente de cinco à seis sessões com uma hora cada. Primeiro fazemos uma anamnese, o que pode ser realizado com os pais juntos ou separados. Depois montamos, a partir da queixa, uma bateria de testes para avaliar habilidades intelectuais, acadêmicas e cognitivas, como memória, atenção e planejamento. A partir daí vamos cruzando esses dados com o que as famílias relataram e mandamos questionários tanto para a escola como para a família preencherem com calma.

E os tratamentos?

Encaminhamos para terapia psicológica para tratar a parte emocional, ou terapia familiar quando identificamos que a dificuldade está na dinâmica familiar, ou terapia psicopedagógica para sanar problemas de aprendizagem, ou então neuropsicológica para corrigir deficit de atenção. Em casos mais graves de comportamento, com transtornos que já estejam num nível mais grave, afetando muitos aspectos, encaminhamos para avaliação do neurologista ou psiquiatra e eles verificam a necessidade de medicação.

Qual a duração média destes métodos?

Embora os tratamentos não costumem demorar menos de um ano, não há como medir. Isso depende de como responde cada pessoa, e em casos de autismo as ações são de longuíssimo prazo, para toda a vida.

Você considera importante que todas as pessoas tenham tratamento psicológico?

Eu não diria tratamento, mas sim prevenção. Estamos bem longe de que isso aconteça, mas algumas escolas já trabalham com isso, com educação emocional. A partir do momento que a criança aprende a identificar emoções nela e nas outras pessoas, consegue trabalhar resiliência, enfrentamento de situações e resolução de problemas, ou seja, ela passa a ter menos tendência a desenvolver qualquer tipo de transtorno psicológico.

Qual o maior desafio enfrentado por seus pacientes?

Tem casos em que a família é um problema muito grande, tem casos em que o ambiente escolar é o grande problema, e em outros a principal questão é o transtorno da própria criança. Mas também há vezes em que são os próprios pacientes que percebem o que está errado, como um menino de 16 anos que me procurou. Ele estava cismado, dizia para os pais que tinha algum problema. A família achava que não, que a convivência era normal. Para tirar a dúvida fizemos a avaliação, e descobrimos que ele tem autismo de alto funcionamento, ou seja, pedagogicamente ele vai muito bem, mas tem dificuldade com interações sociais, como ter amigos.

Falando em adolescentes, eles apresentam questões diferentes dos pequenos?

Os adolescentes têm problemas grandes para resolver, como as mudanças corporais, hormonais e emocionais. É muita coisa ao mesmo tempo, e eles não têm maturidade, porque a parte do cérebro responsável por isso não está completamente formada ainda. Por isso estão mais vulneráveis a qualquer tipo transtorno psicológico, bullying e vícios.

Há muitos casos de jovens com depressão?

Sim, atendo muitos adolescentes que se cortam, se machucam ou até mesmo que já tentaram suicídio. Existem muitas produções que os influenciam a isso, e quando não há uma estrutura familiar muito bacana, eles ficam ainda mais vulneráveis. Com livros, jogos e séries que não tem mais final feliz, fica uma sensação de falta de esperança, pois crianças e adolescentes não tem maturidade para entender certos temas.