PATRIMÔNIO

Punição a vândalos é desafio para o poder público, em Mogi

LIMPEZA Prefeitura retira tinta colocada no monumento O Bandeirante, instalado na rodovia Mogi-Dutra. (Foto: Eisner Soares)
LIMPEZA Prefeitura retira tinta colocada no monumento O Bandeirante, instalado na rodovia Mogi-Dutra. (Foto: Eisner Soares)

As depredações de monumentos, espaços e equipamentos públicos são cada vez mais frequentes na cidade. Apenas na última semana, Mogi das Cruzes registrou destruição das novas instalações do Mirante do Pico do Urubu, incêndio no Ecoponto e invasão de quadra esportiva recém-inaugurada no Parque Olímpico, além da tinta jogada na escultura O Bandeirante, também conhecida como ‘Homem de Lata’, instalada na porta de entrada do município. Para completar, a Guarda Municipal flagrou na manhã de ontem um caso de pichação na Avenida das Orquídeas.

A questão é: onde está a fiscalização que não consegue impedir esse tipo de atitude? O secretário municipal de Segurança, coronel Paulo Roberto Madueira Sales, que não esconde a sua “indignação” quando trata desse assunto, explica que apesar de manter uma ronda 24 horas, a cidade é extensa e a demanda aumentou muitos nos últimos tempos, especialmente por situações que envolvem a quarentena, como no caso de abertura irregular de estabelecimentos, festas, bailes funks, eventos com aglomeração, além de outras questões como descarte de lixo clandestino e invasões de áreas.

“Antes da quarentena o Ciemp (Central Integrada de Emergências Públicas) recebia entre 15 a 20 denúncias por dia. Atualmente esse número vai de 120 a 180. A gente procura atender todos os chamados, mas os casos de pichações são muito rápido, levam apenas alguns minutos e dificilmente têm testemunhas”, observa o coronel, que também pede a colaboração da população para ajudar a monitorar, fotografando e anotando placas de carros.

Ele observa por exemplo, que uma pessoa com material já preparado poderia facilmente se aproximar e esguichar a tinta em uma escultura, em questão de minutos, sem testemunha, que é o que ele acha aconteceu com o Bandeirante, peça feita pelo artista Belini Romano.

No caso mais recente, registrado ontem, um cidadão foi observado pelas câmeras de monitoramento do Ciemp, que acionou a Guarda Municipal. Os agentes foram até o local e o flagraram pichando pontos de ônibus e muretas instaladas na Avenida das Orquídeas. A ocorrência foi registrada pela Polícia Civil.

Além de ter que responder processo, a multa cobrada para esse tipo de infração é de 50 (UFM), equivalente a R$ 8.9 mil. Caso a autuação não seja paga, ela é inscrita na dívida ativa e a cobrança feita meio da Justiça que pode, inclusive, determinar o leilão de bens para quitação.

A Prefeitura não tem levantamento sobre os custos desses prejuízos aos cofres públicos, mas o coronel cita o exemplo do Pico do Urubu, investiu cerca de R$ 400 mil em uma obra que vai ter que passar por outra reforma, tamanho estrago nas instalações.

Sociólogo opina sobre a revisão de homenagens

O ataque a monumentos que homenageiam figuras históricas ligadas a escravidão e massacres indígenas – como foi o caso da avaria feita com tinta vermelha jogada na escultura do Bandeirante, instalada na entrada da cidade – divide opiniões. Parte da população classifica como um ato de vandalismo, mas outra parcela entende que essa é uma espécie de reparação histórica.

Essa onda cresceu com o movimento de protesto ‘Vidas Negras Importam (Black Lives Matters)’, lançado nos Estados Unidos para combater o racismo e a violência policial contra a população negra. O caso mais emblemático foi a derrubada da estátua de um mercador de escravos por manifestantes no Reino Unido.

“Essa é uma reação a um monumento que envergonha e não traz algo bom para a memória”, avalia o sociólogo Affonso Pola, que acha necessário ampliar esse debate, inédito no Brasil, para se chegar a um consenso sobre o destino dessas figuras com as quais parte da sociedade não se identifica, como no caso da escultura do Bandeirante. Uma das saídas, na opinião dele, seria a transferência desse tipo de obra para um museu, com o registro histórico daquele período.


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