ARTIGO

Quando será o derradeiro?

Perseu Gentil Negrão

Essa semana, do nada, lembrei de um acontecimento que ocorreu na minha infância. Nunca vi papai alterado pelo álcool, salvo uma única vez. Uma noite, um amigo/cliente de papai apareceu em casa e eles conversaram muito tempo no escritório. Depois, sentaram-se à mesa da sala de jantar e começaram a tomar uísque. Eu era criança e pouco entendia da conversa. Ouvi muitas vezes a palavra “falência”, sempre com um tom triste. À medida que o conteúdo da garrafa foi baixando, a prosa ficou mais solta. Minutos após, notei que eles enchiam os copos e diziam: “este é o derradeiro”. Ao final da garrafa, o pobre homem foi embora (nunca mais o vi) e papai foi dormir. Na sequência, pensei na palavra “derradeiro”.

“Há muitos anos li que a vida é como um grande rio, que vai desde o nascimento até o final, para uma espécie de mar desconhecido” (“A Estrada da Vida”, Rubens Sudário Negrão). Já percorri o maior trecho do rio e estou tentando retardar a rápida viagem. Mas, um dia chegarei ao
“Derradeiro Porto”. Pode até ser que eu pegue uma corrente adversa, que me jogue à margem… Durante a navegação, estive acompanhado de pessoas queridas, mas muitas, pela corrente mais forte, chegaram no “Porto”; outras chegarão bem depois de mim.

Como o Natal está chegando, tendo a ficar nostálgico e reflexivo. Assim, fiz “uma viagem” ao passado.

“Voei” para a casa onde nasci e fui criado. Na cozinha, estava mamãe, cantarolando e enrolando os docinhos italianos, que serão fritos e, posteriormente, embebidos em mel. Em seguida, percebi a presença de papai, cheguei a sentir sua mão direita na minha cabeça. Tudo tão real, com tanto amor. Voltei a ser criança, brincando com meus irmãos. Ouvi papai chamando para eu cumprimentar vovô e vovó, que foram em casa. Sorri, pensando no “dinheirinho” que vovô dava nos Natais. Ao lembrar da ceia, senti o cheiro do cabrito assado, da leitoa frita, do bolo de nozes, dos docinhos com mel… Meus avós, meus pais… todos já chegaram no “Porto”.

Depois, outro “voo”. Recordei dos Natais em minha casa, as meninas espalhando papéis de presentes… A casa cheia de gente, vida e luzes, principalmente daquelas dos nossos corações, das nossas alegrias. Lembrei daqueles que já “chegaram no Derradeiro Porto” e que estarão presentes apenas em nossas lembranças.

Um dia, que espero demore (nunca se sabe), chegarei no “derradeiro” e serei apenas uma lembrança. Quem sabe seja boa para alguns?

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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