EDITORIAL

Que mundo virá?

A proteção da vida de quem tem mais de 60 anos e doenças preexistentes será decisiva para reduzir a taxa de mortalidade da doença provocada pelo coronavírus e moldar como será o mundo no pós-pandemia.

O perfil da letalidade em Mogi das Cruzes, divulgado por este jornal, na edição de sexta-feira, aponta justamente para o que a ciência vinha dizendo: entre as vítimas fatais estão mais homens do que mulheres, e indivíduos que já passaram da fase considerada produtiva para o trabalho.

Nisso, a pandemia da Covid-19 difere muito da gripe espanhola, de 1918, que matou mais jovens adultos, entre 20 e 30 anos, com destaque para as mulheres grávidas.

Essa diferença já está ditando os passos atuais da prevenção, e poderá ter ainda mais peso em uma segunda onda de casos. Primeiro porque já se sabe que os assintomáticos serão cerca de 80% entre os contaminados, grupo onde estão as pessoas mais novas.

Em Mogi das Cruzes, entre os 131 que infelizmente não resistiram à agressividade da doença, apenas uma pessoa tinha menos de 20 anos.

Políticas públicas e da indústria farmacêutica levam em consideração os ganhos financeiros e de visibilidade a serem capitalizados com este ou aquele caminho adotado para tratar qualquer doença.

E, aqui, poderá ser moldada uma crise ética dentro da crise social e econômica já sentida. Especialmente, em países como o Brasil, onde o idoso, sejamos honestos, não é prioridade.

Idosos têm liderado índices de violência moral e física dentro de casa. Há uma indesculpável cartilha seguida por muitas famílias, sociedades e governos, e que tem um termo jurídico: parte dos idosos é submetida à morte civil ainda em vida. Como isso se dá? Eles costumam não ter mais voz nos assuntos de família, de dinheiro, nas decisões da própria vida.

Por falar nisso, notaram como os idosos vistos nas ruas foram tão achincalhados? Um julgamento que muitos fizeram embora esses mesmos sujeitos também estivessem nas vias públicas.

Já se teme uma regressão nos índices de expectativa de vida, não apenas pela Covid, mas por questões como os impactos do isolamento social. Nem as praças, onde os idosos encontram o conforto da confraternização e um meio de se manterem visíveis, eles possuem hoje.

O futuro dessa parcela da população dependerá, e muito, das respostas a essas e outras questões. Uma delas: a saúde do homem. São eles os que mais estão morrendo na pandemia.


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