CIRCUITO

Rafael de Albuquerque fala sobre o Outubro Rosa e a saúde da mulher

Rafael de Albuquerque e Silva. (Foto: Heitor Herruso)
Rafael de Albuquerque e Silva. (Foto: Heitor Herruso)

Médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia, Rafael de Albuquerque e Silva é chefe do planejamento familiar e responsável pelo ambulatório de climatério, menopausa e osteoporose na Prefeitura de Mogi das Cruzes. Ele também faz parte do comitê de mortalidade da cidade, atende na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Jundiapeba e dá inúmeras palestras sobre saúde da mulher, principalmente neste mês de outubro, quando se dedica à programação Outubro Rosa, a qual detalha nesta entrevista.

Heitor Herruso

Como é trabalhar com planejamento familiar?

Tem alguns paradigmas interessantes neste tema. Um deles é que existe a parte da religião e outras questões, mas sempre falo para minhas pacientes que quero mostrar para elas a importância de planejar uma família. A família mudou: antigamente era “papai, mamãe e filhinho”, e hoje, além dos casais heterossexuais, há os homossexuais, bissexuais, pansexuais e mais. É preciso quebrar os preconceitos e mostrar que é muito mais vantajoso econômica e psicologicamente ter uma família que planejou ter 10 filhos do que uma que não planejou ter um único e acabou tendo.

Qual seu trabalho em relação a isso?

Quis ampliar o planejamento familiar e criei, na Prefeitura, um programa chamado Planejamento Familiar ao Alcance de Todos. Não é só para mulheres e vale para homens também, para os quais fazemos vasectomias, assim como para elas realizamos laqueaduras. Mas é mais focado nas mulheres, que vão mais em reuniões e em médicos. São palestras e conversas com as pacientes, e também trabalho com os médicos e enfermeiros da prefeitura, dando palestras e capacitação, garantindo que haja material para que as coisas aconteçam.

De onde surgiu essa ideia de fazer palestras?

O projeto iniciou porque minha formação se deu em Botucatu, onde sempre me ensinaram a ser mais proativo em relação a comunidade. Estudei em uma das poucas instituições que oferecem contato com famílias desde o primeiro ano de medicina, tornando cada aluno responsável por três grupos familiares. Quis trazer e ampliar isso em Mogi, e procurei entender as pacientes, quais eram seus problemas e dúvidas em relação aos métodos. Acho horrível só fazer uma palestra, uma aula apenas. Para funcionar tem que ser algo palpável. E foi pensando assim que intensificamos as atividades da campanha Outubro Rosa.

Qual seu envolvimento com a campanha Outubro Rosa?

O Outubro Rosa surgiu como forma de orientação. Antigamente, quando os Estados Unidos começaram a desenvolver essa relação sobre o câncer de mama e surgiu a mamografia, para identificá-lo, isso era pouco divulgado. Então foi criada uma corrida de rua, em outubro, mês em que já havia muitos eventos médicos. A programação fez tanto sucesso que resolveram fazer anualmente, e ganhou o mundo.

Aqui em Mogi percebi que era só “palestrinha”, então vi que precisávamos fazer algo mais ativo. Criamos coletas de papanicolau nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) com mais frequência, e passamos a oferecer orientação para comunidade em relação ao Outubro Rosa – não só sobre o câncer de mama também sobre o câncer de colo do útero e a saúde da mulher de modo geral, inclusive divulgando o DIU (dispositivo intrauterino) como método contra a gravidez indesejada.

Como funcionam os trabalhos neste mês?

Nos momentos de fala, sempre começo perguntando quem as pacientes procuram quando tem alguma dúvida relacionada a saúde. A resposta? O médico. Mas está fácil marcar médico? Não, nem no particular. Aí o que acontece é que as mulheres perguntam para a vizinha, para a amiga, para a internet, e ficam com muitos mitos na cabeça. Então a programação é pensada para quebrar estes mitos e divulgar as informações corretas. E há muitas coisas absurdas por aí.

Quais são os mitos mais comuns?

O DIU é o que mais tem mitos envolvidos, porque o de 30 anos atrás é totalmente diferente do que existe agora, que é menor e mais tecnológico, moderno e fino. Tem gente que pensa que o DIU é abortivo, e ele não é; que causa infecção e que causa câncer, quando não causa – o que acontece é que com ele a paciente vai mais vezes ao médico e acaba fazendo a coleta do papanicolau com mais frequência. Também há dúvidas em relação a pílula do dia seguinte: vários casais dizem que este método não funciona. Mas são dois comprimidos que a mulher tem que tomar direto, e muitos acham que estes dois comprimidos são um para a mulher e outro para o homem.

Porque falar destes assuntos? Apenas para conscientizar, ou o foco é evitar câncer e outras doenças?

Primeiro, pela prevenção de câncer, sempre, pois a gente estimula a coleta do papanicolau e a realização da mamografia, que são os dois únicos exames nos quais se consegue prever o câncer antes dele acontecer. E depois pelo planejamento familiar, que diminui o número de gravidez não planejada. Fazemos isso em outubro de forma a chocar e avisar, mas isso deve ser feito ao longo de todo o ano. É interessante que a rotina de exames seja mantida mesma quando a paciente estiver bem. Costumo dizer que quem procura, acha. Acha cedo, com chance de cura, e quem não procura também acha, mas tarde demais.

Quais são os principais erros das mulheres em relação à própria saúde?

Os principais erros estão ligados a falta de informação sobre a saúde e de conhecimento sobre o que é oferecido pela cidade. Aliás, muitas vezes a mídia confunde as pacientes. Elas acham que o autoexame é suficiente, quando não é. O autoexame é uma forma da mulher se conhecer, conhecer a mama, se tem alguma coisa alterada ou não, mas não é uma forma de identificar o câncer. Para isso tem que ser a mamografia.

Infelizmente, no dia a dia elas estão muito ocupadas e atarefadas por causa do trabalho, e tem alguns trabalhos que não são conscientes nessa área e não as liberam para os exames, que são feitos gratuitamente em todas as UBS, com prazos de espera entre uma semana e um mês. Mas os empregadores deveriam saber que se uma mulher está bem de saúde ela vai faltar menos e vai render mais.

A programação do Outubro Rosa também envolve as escolas da cidade?

Nesse ano não temos nenhuma prevenção em relação as escolas, mas queremos que isso aconteça, pois percebemos que há mais adolescentes grávidas. Na semana passada, por exemplo, atendi 18 gestantes de 14 e 16 anos. E elas não participam das palestras pois estão no horário das aulas.

Se lembra de algum caso trágico decorrido da falta de informação?

Há dois anos, uma adolescente de 16 anos morreu, grávida. Ela passou por três ginecologistas, e nenhum prescreveu anticoncepcionais para ela. Se o tivessem feito, talvez ela não tivesse morrido na gravidez. Então atuar de forma incisiva faz a diferença.

Qual a incidência do câncer de mama em Mogi?

O índice é médio, mas sabemos que o número de exames de prevenção está baixo e deveria ser maior. Hoje é mais preocupante na cidade a conscientização do que a incidência de câncer. Por isso, a tendência é que o Outubro Rosa se amplie.

É possível traçar um perfil da mulher que enfrenta esta doença?

No câncer de mama, sabemos que a incidência aumenta a partir dos 40 anos, então ele atinge mulheres mais maduras, que já estão com sua independência financeira maior, e por isso se abalam em termos familiares, pessoais e profissionais. Pode acontecer em mulheres mais novas, mas esses são casos raros. Para evitar que isso aconteça é preciso saber se há algum fator de risco ou histórico familiar de câncer. E no câncer de colo do útero o perfil é outro, pois como 99% dos casos são causados pelo HPV, vírus sexualmente transmitido, ele incide em mulheres mais novas, abaixo dos 30 anos.

E qual a chance de cura?

Hoje a chance de é bem maior do que era antigamente, por causa das técnicas cirúrgicas e medicações que melhoraram e a prevenção que aumentou. Na década de 1990, câncer de mama era um estigma de morte, e hoje vemos muitas pacientes que se curaram.

Como fazer com que mais pacientes se previnam na cidade?

Atendo, em Mogi, 700 mulheres por mês. É muita gente. Fazemos o melhor com o que temos e conseguimos dar um apoio legal, mas não é o suficiente. Uma equipe multidisciplinar seria muito boa nesse sentido. No Hospital das Clínicas Luzia de Pinho Melo há uma equipe assim, de mastologistas. Mas nós que estamos nas UBS e vamos dar as notícias, ficamos abalados e despreparados, pois percebemos que as pacientes ficam psicologicamente abatidas. As encaminhamos para os psicólogos, mas até que elas passem nestes profissionais leva muito tempo, e esta parte do tratamento é muito importante.

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