Relação trabalhista guia ficção científica ‘Estação Pedido’

China Mièville é autor de 'Estado Perdido' (Foto: Divulgação)
China Mièville é autor de ‘Estação Perdido’ (Foto: Divulgação)

O que acontece quando um escritor marxista resolve criar um mundo de fantasia? Estivadores de uma raça de homens-sapos entram em greve e resolvem usar sua capacidade de manipular magicamente a água para travar o tráfego portuário, obviamente.

“Eu realmente quis mostrar como seriam as relações trabalhistas num universo fantástico”, contou à reportagem o britânico China Mièville, 43, durante conversa sobre seu romance “Estação Perdido”, que acaba de ser lançado no Brasil. “Outra coisa que sempre me incomodou é que, na literatura de fantasia, muitas vezes o racismo não é só um preconceito – é uma verdade ontológica. Raças não humanas se comportam de um jeito totalmente estereotipado. Mas não vejo por que um estereótipo racista deveria ser mais verdadeiro nesse tipo de mundo do que no nosso.”

A narrativa de “Estação Perdido” aborda essas e outras questões político-sociais espinhosas –da natureza do poder num Estado policial ao casamento de conveniência entre cientistas e militares.

Ao mesmo tempo, o livro tenta enxergar de forma inovadora um dos desafios clássicos da literatura fantástica: a criação de um “mundo secundário”, capaz de projetar uma ilusão de complexidade histórica e cultural que rivalize com a do mundo real.

“Eu queria criar um mundo transbordante, cheio de possibilidades e caótico, e me distanciar da ambientação feudal que dominava o gênero”, conta Mièville (o prenome “China”, por incrível que pareça, não é pseudônimo).

A solução que ele adotou para isso foi misturar uma ambientação superficialmente vitoriana – motores a vapor, ambientes urbanos cheios de névoa e fuligem, carruagens e aristocratas – a pitadas de alta tecnologia e magia (ou melhor, “taumaturgia”, como dizem os personagens do romance).

É uma combinação que hoje costuma ser chamada de “steampunk” (algo como “vapor punk”), um rótulo que o britânico relativiza. “Tenha em mente que o livro foi publicado originalmente há 16 anos. O ‘steampunk’ estava longe de ser uma marca forte como é hoje”, lembra ele.


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