MEDICINA

Remédio pode reverter arritimia

TRABALHO Vasques busca apoio à conclusão de estudos científicos sobre eficiência do fármaco. (Foto: Eisner Soares)
TRABALHO Vasques busca apoio à conclusão de estudos científicos sobre eficiência do fármaco. (Foto: Eisner Soares)

O médico cardiologista e pesquisador Enio Vasques participará, dia 31, em Boston, do Basic Cardiovascular Sciences, congresso médico promovido pela American Heart Association, para mostrar experimentos de que o remédio enoxaparina, normalmente utilizado como anticoagulante, é capaz de reverter arritmias cardíacas, podendo ser utilizado em paradas respiratórias e casos de morte súbita.

Esta é mais uma tentativa de Vasques para buscar apoio à conclusão de estudos científicos que confirmem a eficiência do fármaco no trato de doenças cardiovasculares. Parte da batalha iniciada por ele e um grupo de cinco médicos que buscaram – sem sucesso até agora – encerrar o ciclo de pesquisas iniciado no ano de 2010. O projeto deixou de receber apoio de grandes laboratórios E não conseguiu obter patente para uso daquele medicamento para uma finalidade diferente daquela para a qual havia sido concebido.

Sem ter como bancar os experimentos, que deixariam de ser feitos em cobaias para chegar aos seres humanos, o grupo praticamente se desfez, embora Enio continue disposto a insistir na busca do apoio para conclusão das pesquisas, apostando que o fármaco poderá salvar vidas, se adequadamente utilizado após comprovação de sua eficiência.

“Estou triste pelo fato de saber que isso pode dar certo e vir a salvar muitas vidas e que esses estudos estão bloqueados por questões comerciais. Existe, é claro, a possibilidade de todos esses experimentos não darem certo e é por isso que insisto que alguém busque algo de bom para as pessoas e não apenas o lado comercial. Por isso mesmo, vou continuar tentando, até conseguir. Não vou parar, pois sei que é bom. Não vou parar”, garante ele.

O início

No começo de 2010, o médico Enio Vasques iniciava uma pós-graduação em Engenharia Biomédica, na Universidade de Mogi das Cruzes, já pensando em um doutorado, quando lhe foi apresentada uma molécula que atuava retirando cálcio da célula. Sua função seria descobrir como aquilo poderia ser utilizado. Por saber que em arritmias cardíacas existe uma sobrecarga de cálcio nas células, o médico concluiu que, retirando o excesso de cálcio, poderia reverter o quadro de arritmia.

Para comprovar isso, passou a provocar a aceleração dos batimentos cardíacos dos ratos e a aplicar neles uma substância, a enoxaparina, e dissacarídeo trissulfatado (a menor fração da enoxaparina), ambas surgidas de estudos feitos pelo professor Peter Dietrich, nos anos 60, na Unifesp.

“Nos experimentos em ratos, verificou-se a reversão de todas as arritmias estudadas, um sinal de que poderia produzir idênticos efeitos em seres humanos”, conta o médico. Com a continuidade dos experimentos, ainda em ratos, descobriu-se que o fármaco, que revertia as arritmias cardíacas letais e não letais, também poderia ser utilizado em paradas cardiorrespiratórias e casos de morte súbita.

“Como funciona em cálcio, imaginei que funcionasse em outros órgãos além do coração. Foram feitos testes em fígado na Faculdade de Medicina da USP, como parte de meu pós-doutorado, sendo publicados os resultados em 2016 e, dois anos depois, a confirmação de efeitos positivos no tratamento do pâncreas”, relata o médico.

Durante esse período, os estudos receberam aporte financeiro de um laboratório nacional e de um europeu, que investiram pesado, apostando na eficiência dos testes e na possibilidade de exploração comercial do fármaco para novas finalidades. Tudo parecia caminhar às mil maravilhas, o que levou os pesquisadores a requisitarem a patente para a nova utilização da enoxaparina ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial.

A patente, entretanto, lhes foi negada. O INPI alegou que o trabalho dos médicos se tratava de uma descoberta e não de uma invenção original.

Com isso, por mais utilidade que a “descoberta” pudesse ter para portadores de diferentes doenças, ela deixou de ser comercial e, com isso, os laboratórios desistiram de seguir investindo na etapa final da pesquisa, justamente quando os testes do medicamento passariam a ser feitos em seres humanos. A explicação: “Sem patenteamento, em dois anos, os chineses estarão produzindo o remédio e inviabilizando a possibilidade de retorno dos investimentos feitos pelos laboratórios”.

O desânimo bateu sobre a equipe médica que trabalhava nos estudos, assim como nas instituições de ensino que auxiliavam e davam aval aos experimentos.

Vasques não desanimou e passou a se inscrever e participar, por conta e risco, de eventos internacionais sobre pesquisas cardiovasculares, onde apresenta o projeto e defende a necessidade de apoio para levar ao fim as experiências com o fármaco. Washington, San Diego, Chicago, Genebra e Buenos Aires foram alguns pontos visitados pelo médico, durante simpósios e outras atividades.

“São tentativas para tentar sensibilizar alguma empresa ou laboratório destituído unicamente de interesses comerciais, que se interesse por algo importante para a saúde das pessoas”, diz o médico, lembrando que a atuação do fármaco não é restrita à arritmia cardíaca, “podendo ser útil até mesmo na proteção de órgãos em transplantes e toda situação cirúrgica que envolva isquemia, que é a diminuição de circulação de sangue nos órgãos, podendo culminar com a morte das células”, diz Vasques.

O cardiologista critica os interesses meramente mercantilistas de alguns setores ligados à saúde, mas garante que falta respaldo governamental para pesquisas científicas no País, o que deixa profissionais à mercê de apoio externo.

Cardiologista abrirá novo consultório na cidade

Aos 54 anos, o cardiologista Enio Vasques está de volta a Mogi após passar dois anos atuando junto à Prevent Senior, em São Paulo, período em que deu continuidade às suas pesquisas e aprendeu a trabalhar com pacientes idosos de 80 até 104 anos. Uma experiência que ele pretende trazer para a cidade, onde está prestes a inaugurar um consultório no Helbor Dual Patteo Mogilar, para atuar juntamente com o atendimento no Instituto Mogiano de Cardiologia e na Lótus Residencial Senior.

Graduado em Medicina pela USP de Ribeirão Preto e doutorado em Engenharia Biomédica pela UMC, o médico é pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP de São Paulo.

Vasques é também pesquisador em Engenharia Biomédica, com ênfase em eletrofisiologia cardíaca, avaliando arritmogênese, fármacos com ação antiarrítmica e risco cardiovascular de fármaco.

O pesquisador é associado do LIM 37 (Laboratório de Transplante e Cirurgia do Fígado) da Faculdade de Medicina da USP, em pesquisa básica e translacional, com ênfase em testes de novos fármacos na cirurgia e transplante de fígado e pancreatite aguda, além de avaliação de variabilidade RR (sistema nervoso autônomo) por meio de holter 24 horas pelo Instituto do Coração (Incor-SP). Tem presença constante em congressos internacionais, onde apresenta os resultados de pesquisas feitas principalmente para o uso diversificado da enoxaparina.