ENTREVISTA DE DOMINGO

Renato Costa Ferreira e as questões do vestibular

Renato Costa Ferreira é professor do ensino médio e de curso pré-vestibular. (Foto: Henrique Campos)
Renato Costa Ferreira é professor do ensino médio e de curso pré-vestibular. (Foto: Henrique Campos)

Maratona de estudos, ansiedade, pressão, disciplina, realizações e frustrações…. Como lidar com a rotina que envolve o preparo e ingresso nas universidades mais disputadas do País? O professor Renato Costa Ferreira, que já lecionou na rede pública estadual e há sete anos é professor dos ensinos Fundamental II e Médio e do Cursinho Pré-Vestibular do Colégio Objetivo, ensina a passar por esta fase da vida, enfrentar desafios, se preparar bem, escolher a profissão e recomeçar quando necessário. Mogiano, ele traz o magistério no DNA. Filho dos professores Renato Ferreira e Elizabeth Vidal Costa Ferreira, estudou no Colégio Objetivo desde a antiga quinta série – hoje sexto ano do Fundamental – até o terceiro ano do Médio, quando descobriu a aptidão para ser professor, inspirado em um de seus mestres em sala de aula. Formado em Biologia e Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e pós-graduado em Exercício Terapêutico na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Renato iniciou a carreira na Escola Estadual Dr. Deodato Wertheimer antes de ingressar no corpo docente do Objetivo e atualmente também leciona em Suzano. Confira abaixo a entrevista do professor a O Diário:

O que representa o vestibular na vida dos estudantes?

É o primeiro grande desafio e pode ser também o primeiro não na vida destes jovens. Não concordo muito, mas dizem que seria a avaliação de todo o processo de educação básica. Acho que a avaliação deve ser diária, passo a passo, mas o vestibular acaba funcionando assim porque é a porta de ingresso nas universidades, encerrando o ciclo da educação básica e iniciando o ensino superior. Eles se sentem cobrados e na obrigação de dar um retorno positivo, por todo o investimento feito pelos pais, pela escola, e isso atrapalha demais o rendimento deles, de querer mostrar serviço e às vezes não conseguir. Há várias possibilidades para o aluno fracassar no vestibular, como a falta de estudo, de conhecimento e de raciocínio lógico. O vestibular de antigamente era mais objetivo, de decoreba e de macetes e hoje é mais de raciocínio e de interdisciplinaridade. No Enem, por exemplo, você começa a ler uma questão, acha que é de Química, mas no meio do enunciado, pensa que é de Física e, na hora de responder, vê que é de Geografia.

Como lidar com isso?

Tentamos trabalhar e mostrar com transparência a realidade da vida de modo geral e dos desafios que todos passamos, com sucessos ou frustrações. E que a partir da frustração dá para trabalhar, melhorar, eliminar as falhas e buscar o sucesso. Eles têm oportunidade todos os anos. O conteúdo do vestibular é um aprendizado acumulativo. Se ele aprendeu no Ensino Médio, tudo isso está com ele. Talvez não seja suficiente para conseguir a vaga que quer em determinada instituição, mas se fizer um ano de cursinho, vai aprender coisas novas, acumular conhecimento e uma hora passa. Há uma cobrança grande pelo resultado, mas o mais importante é cobrar o processo, o dia a dia, a dedicação e o aprendizado. Não existe milagre, é receita. A aula dada, aula estudada tem que ser de verdade, com o conteúdo fazendo sentido. O aluno tem que se preocupar em aprender, não com a nota, porque se ele se concentrar na aula para aprender, o resultado vem automaticamente. Quando se estuda uma parte da matéria porque vai cair na prova, isso foge da memória, não é assimilado. A assimilação vem quando você aprende, não quando decora.

Qual a melhor maneira de fazer a prova?

Além do conhecimento, ele tem que saber fazer a prova, definir o que fazer primeiro, o que deixar para depois e em que momento voltar em uma questão. Tudo isso é treino ao longo do ano, por isso orientamos que façam os simulados e usem formas diferentes de resolver as questões, porque às vezes eles têm conhecimento, mas se perdem no tempo, na sequência, e começam a pular muito as questões para depois voltar. A estratégia de resolução de uma prova é importante, senão ele se perde. O aluno sabe a matéria e chuta um monte de questões que sabia porque não teve tempo. Há aluno que tem conteúdo, mas não é um matador de questões. Se você conversar sobre o assunto, ele sabe absolutamente tudo, mas quando coloca a questão na frente dele, ele não consegue resolvê-la. Pode ser falta de interpretação, de leitura de gráfico, de raciocínio… São muitos detalhes que estão envolvidos e quando trabalhamos com as frustrações, começamos a dar estes exemplos aos alunos e corrigimos isso ou aperfeiçoamos estes detalhes e, em mais um ano ou dois, ele conseguirá atingir a meta.

Como é hoje a concorrência por vagas, principalmente nas universidades públicas?

É muito grande. Mais de 53% dos aprovados em universidades públicas fizeram pelo menos um ano de cursinho e, deste total, 80% cursaram dois 2 anos. A realidade é que não é comum passar no vestibular logo após o Ensino Médio e trabalhar com isso mostra ao aluno que não é fracasso dele, é uma realidade atual. O mais normal é não passar e já trabalhamos o ano todo, dizendo que não fiquem com a ansiedade e preocupação de que têm que ser aprovados, porque isso vai acontecer quando eles estiverem preparados e às vezes não depende nem do conhecimento específico de cada disciplina, mas da ansiedade na hora da prova. Temos um aluno muito bom que ficou uma hora e meia sem conseguir começar a prova. Ser aprovado é muito difícil, mas possível. Vamos dando exemplos, buscando, trabalhando no dia a dia, orientando, para que possam adquirir o resultado. Os cursos mais disputados hoje são Medicina, Engenharias, Administração e Direito.

Por que a redação é a grande vilã não só dos vestibulares, mas também do Enem?

Porque na redação você consegue avaliar de modo individualizado, não tem a questão do chute, da sorte, é preciso ter repertório. Ali fica visível quem tem mais conhecimento e consegue argumentar melhor sobre aquele tema, cada vez mais complexo, normalmente sobre problemáticas atuais, que exige repertório sociocultural e conhecimento de vida. Tem que ter a técnica, mas precisa de repertório com documentários, entrevistas, telejornais, ou seja, estar atualizado. A redação tem peso muito grande na nota final e o aluno não consegue burlar ou maquiar a falta de conhecimento. Ali fica tudo muito nítido. Mas existe treino para isso e vejo a evolução dos alunos desde o Ensino Fundamental. Quem faz o que a escola propõe, segue a cartilha e a ideia tem grande evolução.

Como é este treino?

O grande ponto do vestibular, do lado mais emocional, é trazer o aluno para esta realidade não só da prova, mas escolar, porque no ensino nacional há um abismo entre o Fundamental II e o Ensino Médio. A escola que tenta encurtar isso tem resultado muito satisfatório, mas isso se cria na base e não é à toa que se chama Ensino Fundamental. No Médio, claro que se consegue criar, mas o trabalho fica mais árduo. O aluno sabe estudar, mas vai aplicar isso para o conteúdo específico do vestibular e, muitas vezes, na cultura nacional, acaba querendo estudar para o vestibular só no Ensino Médio.

Quando este preparo deve ser iniciado?

Com a programação paralela para os alunos do primeiro e segundo anos, trazendo-os para vivenciar este mundo sem estarem de fato no ano do vestibular, mas já sabendo como é. Devem fazer o vestibular como treineiros e os simulados, sem toda aquela pressão. A hora que ele chega lá, isso não é mais novidade e já está mais preparado. Não que não vá sentir a tensão. Hoje, tudo acontece cada vez mais cedo, quando estes alunos chegam na universidade estão com 17 anos de idade e há aqueles que se sentem imaturos. Mostramos que são muito jovens e que fazer um ano ou dois de cursinho vai complementar a falta de maturidade às vezes para escolher o curso. A frustração não é só na reprovação, mas na dificuldade de saber qual caminho tomar. Às vezes, eles se inscrevem em vários cursos, de áreas e universidades diferentes, no mesmo ano. E isso quem mais enfrenta é o aluno que vai bem e tem rendimento acima da média em todas as matérias. Como nada para ele é destaque, parece ter aptidão e vocação para tudo, por isso não sabe o que fazer. Estes alunos, com médias altas, se submetem ao cursinho por ainda não terem a definição do curso.

Como adquirir o hábito do estudo exigido para o êxito nas provas?

O cursinho é um período que amadurece porque trabalhamos muito a preparação mais clássica para o vestibular, que é aula dada, aula estudada. Muitas vezes, o aluno do Ensino Médio, como tem provas regulares, acaba se dedicando mais a elas do que ao hábito do estudo diário. No cursinho não há estas provas, ele acaba tendo consciência e como já passou por uma frustração de não ter aprovação direta do Ensino Médio começa a enxergar de maneira diferente. É bacana ter um resultado de imediato, mas é válido fazer o cursinho, porque em um ano, ele consegue atingir a maturidade necessária e existe até o caso do aluno que é aprovado no vestibular, mas não tem certeza de que quer fazer aquele curso. Alguns até arriscam a começar a faculdade, mas abandonam e voltam para o cursinho porque percebem que falta algo.

De que forma ajudar na escolha de quem é aprovado em várias universidades?

Há alunos que já têm pré-definidas a primeira, segunda, terceira opções… Mas também tem aqueles que são aprovados em várias e que não sabem qual escolher. Uma aluna passou em nove universidades de Medicina de ponta, com notas altíssimas, e nos procurou chorando para pedir orientação. Começamos por aquelas em que ela não queria estudar, chegamos a duas, pontuei o que conhecia delas e ela decidiu.

Qual a diferença no preparo do aluno da escola pública e da particular?

Infelizmente temos defasagem de conteúdo e falta de comprometimento e de dedicação ao estudo em casa, além da questão do próprio aluno muitas vezes se achar inferior aos outros, o que cria a sensação de frustração. Mas essa comparação também pode acontecer com aqueles que sempre estudaram na rede particular. Ter rendimentos diferentes é normal porque as pessoas são diferentes e têm aptidões diferentes. No caso do aluno que vem da escola pública é preciso trabalhar muito o período extraclasse e oferecer plantões de dúvidas para lapidar isso ao longo do processo.

O que mudou no vestibular com a implementação das cotas para negros?

Ficou mais difícil ainda entrar na universidade porque diminuiu o número de vagas e temos casos de alunos cotistas com resultados muito inferiores do que os demais, mas estes acabam entrando e os outros não. E há muita desistência, porque existem alunos cotistas que entram e não conseguem concluir o curso porque têm dificuldade, então é uma vaga desperdiçada.

Hoje, qual o papel do professor?

O grande desafio dos professores é entender que os alunos são adolescentes, então, além das mudanças fisiológicas, há a parte psicológica e emocional. Hoje, o professor tem que ser um educador mesmo, trabalhar muito além da sala de aula com o aluno, saber olhar para ele e identificar quando pede socorro pelos olhos ou quer contar algo bom, dar liberdade para que possa trazer o que ele vive. A melhor parte da profissão é estar com alunos, conversar com eles, ouvi-los e mostrar que estamos juntos. Tanto é que quando são aprovados, muitas vezes vêm correndo para contar na escola antes mesmo de falar com a família.