EDITORIAL

Resiliência (Danryoku-sei)

Em menos de um segundo é possível traduzir do japonês para o português, a palavra popularizada no Brasil, ‘banzai’, uma interjeição que literalmente significa 10 mil anos, e é empregada para desejar prosperidade, vida longa.

Imagem esse mesmo exercício, um século atrás. Além da coragem, força de trabalho e o poder de adaptação, a mímica ajudou muito os primeiros imigrantes a vencer as barreiras linguísticas e tocar a vida.

Naquele tempo, comprar algo nos armazéns era até mais fácil porque bastava apontar para uma mercadoria. Ter o dinheiro, já era outra história. As primeiras famílias japonesas pouco compravam – usavam o que tinham trago dentro de suas malas e o que elas mesmas conseguiam produzir.

Muitos dos primeiros imigrantes faleceram sem entender o português. Esse encargo foi deixado para os filhos mais novos, alguns anos depois. No início, inclusive, quando havia possibilidade, a maioria das crianças frequentou as escolas de língua japonesa.

Estão nos relatos das mães sobre o sofrimento, o medo e as descobertas daqueles dias, um traço comum, além da brutal disparidade enfrentada quando descobriram que as promessas dos dois governos não correspondiam à realidade e as diferenças culturais entre as nações.

A grande ameaça, para elas, era uma doença, uma complicação no parto, uma febre persistente. Como explicar o que se sentia, sem ter palavras para isso?

Todas essas lembranças deixaram de ser contadas ontem, data que marcou os 112 anos da imigração japaponesa, nos ambientes de encontros dos descendentes dos primeiros imigrantes, ou nas comemorações tradicionais como a missa campal destinada à celebração desse marco histórico.

Neste ano, o convívio comunitário entre essas famílias, mais antigas, está bem mais ameaçado. Dissemos isso porque o relacionamento dessa comunidade que se fez na área rural é basicamente sustentado pelos encontros mensais os bairros e nos festivais maiores, promovidos pelo Bunkyo e a Associação dos Agricultores de Cocuera.

A pandemia impõe adaptações, alterações de calendários. “Modelos novos”, como disse a este jornal o diretor do Bunkyo, Roger Kayasima.

Resiliência (Danryoku-sei) é um conceito que a comunidade japonesa não só entende como pratica.

A história dos 112 anos da imigração japonesa está ancorada na capacidade de se adaptar, moldar aos novos tempos, mas retornar à essência, à originalidade. Uma virtude necessária ao mundo todo, nos dias de hoje e no futuro próximo.


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