EDITORIAL

Retrato de Mogi

Com prêmios como o consagrado Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2002, o prédio da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS), foi idealizado pela viúva do artista com apoio financeiro de grandes empresas, inclusive a Gerdau, que possui braços em Mogi das Cruzes, por meio de leis de incentivo, como a Rouanet, e outros patrocinadores.

Quando se olha para outras cidades pelo Brasil, algumas comparações desolam quem noticia a estagnação ou o desaparecimento de projetos culturais e sociais, que não conseguem criar raízes em Mogi das Cruzes.

Um delas: o fim melancólico da Corporação Musical Santa Cecília, que foi parar nas mãos de quem deixou a cena musical mogiana mais pobre após uma história de 87 anos. O desaparecimento da banda, que possui sede em endereço nobre e histórico, tem laços com outras situações que só Mogi vive.

A cidade desprestigia um raro projeto do arquiteto Rino Levi [1901-1965], considerado um dos maiores expoentes da arquitetura moderna paulista (Teatro de Cultura Artística, o TBC, Cine Ipiranga, Hospital Albert Eisntein, entre outros). É de Rino Levi o traço do teatro do Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, no Distrito de Jundiapeba. Esse prédio recebeu grandes shows no passado e é constantemente elogiado pela acústica primorável. Foi tombado como patrimônio histórico, mas não é usado com deveria há décadas, porque carece de reformas, de uma agenda que leve o público até ele.

Outro fato na mesma linha: desde o ano passado, representantes das Igrejas do Carmo buscam apoiadores para conseguir a liberação de um recurso financeiro assegurado pelo Estado. Só um grupo empresarial ajudou, até agora. Mas isso não garante a liberação da verba. Cupins ameaçam as raridades barrocas desse conjunto, comparado por especialistas com o das igrejas das cidades mineiras.

Mogi vê naufragar projetos sem oferecer uma boia, sem um apoio concreto. E assim as nossas raízes, tradições, memórias vão se perdendo.

Agora mesmo, a cena jovem e musical se debate em busca de ajuda, parceria. A Associação Casarão da Mariquinha está saindo de um casario antigo para um futuro incerto. Nem vamos entrar no mérito dos acertos e desacertos dessa trajetória. Vamos ao que está em jogo nesse caso: um produto cultural que delegou a Mogi, no ano passado, pela primeira vez, o Prêmio Governador do Estado como território cultural merecia ter sido melhor acolhido, incentivado, observado pela gestão pública, pela iniciativa privada, pela sociedade civil.

O mesmo corre-se o risco de acontecer, em setembro, com outro espaço inovador, o Galpão Arthur Netto, que gestou projetos como o Festival Internacional de Teatro Knots.Nudos.Nós, por conta própria e risco, em janeiro de 2017.

E Mogi vai vivendo de aparências, perdendo conteúdo, apoiando-se em frestas temporárias abertas por quem tem boas ideias, mas não consegue vê-las reproduzindo frutos.