ENTREVISTA DE DOMINGO

Roberta da Costa Almeida: cuidado para não terceirizar o filho

Roberta Almeida é psicóloga. (Foto: Eisner Soares)
Roberta Almeida é psicóloga. (Foto: Eisner Soares)

Há dois anos, a convite de uma mediadora de conflitos da rede pública estadual, de maneira voluntária, a psicóloga Roberta da Costa Almeida, de 39 anos, atuou em duas escolas públicas de Mogi das Cruzes. Ouviu de estudantes de 11 a 15 anos como é viver a adolescência em meio ao que testa a saúde emocional e mental dos adultos – crise econômica e do mercado de trabalho, o avanço da depressão e do suicídio, inclusive entre crianças e jovens, e a dependência da tecnologia, que passou a ser classificado no Código Internacional de Doenças (CID-11). Nas rodas de conversa e palestras, Roberta encontrou jovens com depressão e baixa autoestima, desmotivados, desvalorizados, e com dificuldades em lidar com a frustração, além de casos de tentativas de suicídio e depressão. “O ser humano está adoecido, e nessa fase da vida, quando há uma urgência, uma coragem para tudo, o jovem começa a enfrentar problemas que vão continuar existindo todos os dias: o não, a frustração, o desemprego na família, a separação dos pais, o luto pela perda de um ente querido. E, muitas vezes, ele vive isso tudo sozinho”, alerta a profissional. Entre outras palavras, ela reforça que filho “não pode ser terceirizado, ele não é responsabilidade da escola” e nem da televisão ou do celular. Acompanhe a entrevista da profissional, fluminense de nascimento (mas moradora em Mogi desde os primeiros anos de vida), e especialista em orientação vocacional para jovens, adultos e idosos (sim, adultos e idosos estão migrando de profissões):

Como é a sua atuação?

Estudei na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e quando me formei, em 2013, recebi um convite para atuar em Jacareí, onde fiquei por dois anos, e depois voltei para Mogi, onde residem meus pais, Maria Silvina e Roberto Gomes de Almeida. Eles vieram trabalhar em Mogi. Atendo adolescentes e adultos, e também trabalho com a vocação profissional.

Em Mogi, como foi a atuação na escola pública?

A convite da professora Célia da Silva, que era mediadora de conflitos, eu tive a oportunidade de realizar um trabalho voluntário de psicologia e educação, com palestras, rodas de conversa e oficinas de emoções a jovens de 11 a 15 anos, que estudam na mesma sala.

E o como eram esses jovens?

Eram encaminhados à mediação, eram jovens rebeldes, alguns se cortavam, e detectei quadros de depressão, tentativa de suicídio. Eles precisavam de um espaço de fala, se sentiam desvalorizados, tinham dificuldade em lidar com a frustração. E quando você vai aprofundando o contato descobre que o comportamento tem causas outras, como desestrutura familiar, a separação dos pais, o luto por perder um ente querido. O ser humano está adoecido, e ao viver esses momentos, o adolescente, que está amadurecendo as emoções, vive um momento difícil. Eles são ainda mais frágeis do que o adulto.

Como a crise econômica afeta o jovem?

Eu vivi esse momento, em Jacareí, entre 2014 e 2015, quando as demissões em massa ocorriam, e no contexto clínico, havia a preocupação com o futuro, com o desemprego, o bem-estar da família, e também as perdas dos direitos, e também agora. Todos são impactados pela instabilidade sobre como será o futuro.

O governo federal tem destacado o aumento do suicídio, inclusive de criançjas. Você registra esse aumento, no atendimento psicoterápico?

Sim. E esse é um fenômeno crescente há alguns anos. São pessoas que têm uma grande dor emocional, e como não conseguem lidar com essa dor, o suicídio é visto como uma solução para o fim dos problemas. Esse comportamento possui três estágios: a ideação, quando o jovem ou o adulto dizem, aleatoriamente, ‘as coisas não têm solução’, ‘eu não faço falta para ninguém’, ‘a vida perdeu o sentido’, depois são os estágios da tentativa (os cortes, a mutilação do corpo) e a consumação do suicídio.

Por que mais jovens estão vivendo essas fases?

O adulto está mais maduro para lidar com as frustrações, as dificuldades. O jovem, não. A adolescência é caracterizada pela supervalorização dos sentimentos, a coragem para fazer isso ou aquilo. Ele não lida, não está sabendo lidar, com a frustração, com o limite. Então, o término de um namoro é algo terrível. E o jovem – e também o adulto – precisa saber que todo dia, algo não sairá como ele deseja. A vida tem experiências positivas e negativas, para todos. Outro fator que deve ser considerado é a depressão, nem todo depressivo vai tirar a vida, mas o suicídio pode ser um resultado da depressão não tratada.

A tecnologia, o celular, hoje, muda a forma de as pessoas se relacionarem.

A geração de muitos pais não teve o celular na infância. Então, quando a amiga queria contar para outra, que encontrou o namorado, depois da saída da escola, ela tinha de esperar até o dia seguinte, quando ia novamente para a escola, ou ela ia até a casa da amiga para contar. Havia um tempo de espera, que acabou. Em segundos, ela conta para a amiga. E o que acontece hoje? A amiga visualiza e não responde. Então, o outra fica brava, cobra a resposta. A frustração se instala porque a outra pessoa não está disponível o tempo todo. Isso está acontecendo também porque estamos aprendendo a lidar com a tecnologia.

E essa novidade começa mais cedo, nos primeiros anos de vida.

Sim, há bebês com menos de dois anos, seguindo jogando no celular. O celular não pode ser visto como o vilão, nem a tecnologia, mas é preciso observar a maneira como a pessoa lida com a tecnologia, que tem um bom uso, para o estudo, o trabalho, para favorecer o homem.

Mas, o que fazer quando o filho fica horas no celular, nos games ou redes sociais?

Eu recomendo aos pais não darem o livre acesso. E eles me dizem, mas eu não consigo impedir. Então, é preciso lembrar que os pais não estão exercendo a parentalidade – eles são os responsáveis pelos filhos. E há pais que usam esse meio, o celular, para ‘distrair’ o filho pequeno. Não estou culpando os pais, registre isso, mas esse não é o melhor caminho.

Por que pais têm dificuldade de impor limites?

O que nós ouvimos, e estudamos, é que há uma voz corrente, que diz: ‘eu quero dar ao meu filho o que eu não tive’. A educação se tornou permissiva demais, o pai não precisa ser um general, mas ele não é o amigo do filho, ele é o pai. E deve atuar para conquistar o respeito, por meio do diálogo, do acordo.

Hoje, a dependência do celular também ocorre com o adulto?

Nós vemos as pessoas na sala do jantar, ou no restaurante, todas em silêncio, olhando o celular. E o que isso significa? Significa que essas pessoas estão dando mais atenção ao outro, que está a quilômetros dali, e perdendo o agora, o presente, um momento que nunca mais será vivido. A ida na casa dos avós, ou a uma festa em família, é outro exemplo. O adolescente pergunta, se no passeio, haverá internet. Se não houver, ele fica em casa. É uma decisão que os pais precisam acompanhar e decidir.

Quais são os prejuízos desse modelo de relação social?

Tudo ainda está acontecendo, mas os estudos apontam prejuízos comportamentais, porque a pessoa não consegue se manter atento ao presente, ao agora, e a uma vida se torna virtual. Nós temos falado sobre o tempo ativo, presente, que não volta, e essa forma de relação não propõe laços reais entre as pessoas. Há uma vida paralela à real. Há os prejuízos fisiológicos, perda de sono, de atenção. O adolescente precisa dormir bem porque os hormônios do desenvolvimento agem à noite, durante o sono, sem isso, eles prejudicam o processo de crescimento. Outras conseqüências são as crises de humor, o comprometimento postural, perda auditiva (fontes) e há estudos sobre o desenvolvimento do astigmatismo por causa da luz intensa do celular, durante longos períodos. Tudo, no entanto, está em processamento, porque os reflexos da tecnologia estão por acontecer.

E as questões emocionais, nesse contexto?

Vou dar o exemplo dos jogos online. A pessoa passa de uma fase para outra muito rapidamente, e fica excitada, alegre, e então perde, não consegue seguir em frente, frustra-se rapidamente. Ali funciona como uma Ferrari, que vai de uma velocidade de zero a mil, em segundos. Essas descargas emocionais vão para a vida real, interferem no trato com os irmãos, com os pais, criam a raiva, ou então o “reset”. A pessoa passa a “ressetar” (variado do termo inglês, reset, que significa reiniciar ou reconfigurar o computado) a vida, o outro, quando recebe um não, quando perde uma vida no game.

Como você enxerga as relações das gerações futuras, a partir das vivências atuais?

É muito difícil projetar, porque há sempre variantes. Não são todas as pessoas que vão seguir esses caminhos. E, como disse, a tecnologia é algo novo.

Mas, é algo que seguirá em frente, não retrocede.

Sim. E cada vez mais rapidamente.

Como os pais devem agir, então?

Os pais precisam ser mais presentes, e eu não culpo os pais. A ausência tem explicações como a necessidade de trabalhar. Mas, é necessário encontrar um meio-termo, o celular ou as redes sociais não podem substituir o pai e a mãe, ele não é calmante para a criança ficar quieta. Professor não é o pai. E o professor hoje também vive a opressão, desenvolve doenças mentais.

Como trocar o celular pela presença?

Eu vejo pais que fazem barganhas, chantagens, oriento a fazer acordo, de tempos breves, que possam ser cumpridos, por ambos, pai e filho. O pai também deve desligar o celular e prestar atenção ao filho, ter um tempo de qualidade com o filho.

O ciberbullying amplificou o bullying. Tivemos o atentado à escola de Suzano, que terminou com um estudante matando o outro, e depois tirando a própria vida, quando o bullying também foi citado…

O que aconteceu em Suzano não pode ser generalizado, ainda está sendo entendido. Mas, o ciberbullying potencializa o bullying. E o jovem não vê os limites, por exemplo, com o envio dos “nudes”. Da mesma forma que esse meio cria outros problemas como a gordofobia, o desrespeito pelo outro. Há namoros virtuais que duram dois anos, sem as pessoas se verem, se tocarem. Esse também pode ser um meio de fuga da realidade, porque as pessoas não conhecem quem são seus parceiros de fato. Não se trata de condenar, mas de propor uma reflexão: que horas as pessoas vão sair das redes sociais para a vida real? Há uma terceirização dos filhos. Pais que dizem, eu pago a escola. O papel da escola não é ser pai ou mãe.

O jovem navegam na internet onde há de tudo, entre os youtubers, como você acompanha isso?

Oriento os pais a supervisionarem o que os filhos fazem nas redes sociais, quem são e o que falam os youtubers que eles seguem. Por que a violência contra o filho acontece dentro de casa. Fiz um estudo sobre o fenômeno da “baleia azul”, na Universidade de Mogi das Cruzes, e depois, veio outro modelo, o personagem Moma, que induzia a criança a desafios. Os desafios chegavam a sugerir dar fim à própria vida. Se não há uma supervisão, o jovem é influenciado. Há youtubers, e não se trata de ser contra eles, que propõem desafios como quem mais come doce, em menor tempo, ou quem cheira mais desodorante.

O jovem sai mais tarde, ou nem sai da casa dos pais, e há também quem estuda e não trabalha. Como o jovem se prepara para o trabalho?

Temos uma situação de má formação profissional e de falta de especialização, embora, as oportunidades existam, Mogi das Cruzes é exemplo disso, tem cursos gratuitos de formação em todas as áreas. Mas, há jovens desinteressados e os desafios emocionais na escolha profissional, a crise, o desemprego, a incerteza sobre o futuro, a má remuneração, tudo isso influencia no comportamento do jovem. A orientação vocacional pode auxiliá-los, e também aos adultos e idosos, porque as pessoas estão vivendo mais e trocando de profissão em diferentes momentos.

Orientação vocacional para o idoso?

Sim, eles podem encontrar atividades que gostariam de ter feito, quando jovens, e se manterem ativos agora, na terceira idade, aprendendo música, por exemplo.

Como superar esses desafios todos?

Participei do Janeiro Branco, no início deste ano, que propõe atenção à saúde mental e emocional a quem procura busca lidar com as questões existenciais. E uma proposta é refletir a vida com foco no ser, e não no ter. Há um consumismo extremo, que é prejudicial.