ENTREVISTA DE DOMINGO

Roberto Escobar, o barbeiro que virou corretor de imóveis

O CAMINHO Roberto Escobar chegou a Mogi das Cruzes em 1959 para trabalhar no Salão Elegante, depois comprado por ele. (Foto: Elton Ishikawa)
O CAMINHO Roberto Escobar chegou a Mogi das Cruzes em 1959 para trabalhar no Salão Elegante, depois comprado por ele. (Foto: Elton Ishikawa)

Um amigo de Cachoeira Paulista trouxe a novidade – em Mogi das Cruzes, o Salão Elegante estava com uma vaga aberta. Daí para a decisão bastou uma conversa com o pai para Roberto Escobar, então com 20 anos, trocar a cidade onde nasceu por Mogi das Cruzes, já próspera e com seus 80 mil moradores.

“Te ensinei tudo o que eu sei”, disse-lhe o pai.

“E se não der certo?”, retrucou o jovem. “A casa de seu pai não vai mudar de lugar”, retornou Pedro Nogueira Escobar. O endereço da família era Canas, lugarejo entre Lorena e Cachoeira Paulista, onde Pedro e Maria Augusta criaram cinco filhos (Pedro, Wanderlei, Roberto, Ronaldo e Paulo Sérgio). O pai era o barbeiro dali. A mãe, a quituteira conhecida pelos doces e salgados servidos em festas de aniversário e casamentos.

Cinco anos após chegar a Mogi, Roberto Escobar tornou-se o proprietário do salão, num lance típico daqueles tempos, quando a cidade acolheu, como filho, muita gente de praças paulistas, mineiras e cariocas por onde os trens da Central do Brasil circulavam e levavam as notícias sobre o desenvolvimento industrial do município. O antigo dono, Joaquim Mineiro, propôs a venda da barbearia. Escobar não tinha o dinheiro, mas topou comprar fiado o Salão Elegante, onde eram cortados cabelo e barba de juiz, promotor, delegado, professores, médicos e políticos. Quem assinou as 25 promissórias do negócio foi Waldemar Costa Filho (1923-2001), que por quatro vezes se elegeria prefeito daqui. Foi lá que ele viu surgir “Beto, o Tesourinha”, personagem deste jornal, inspirado no dono da barbearia onde tudo acontecia.

Da barbearia, ele migrou para o ramo imobiliário. Aos 80 anos, ativo e sem ideia de parar de trabalhar, Roberto Escobar partilha memórias próprias e de personalidades como políticos e empresários nesta Entrevista de Domingo. Tudo de maneira leve, sem avançar os sinais de saias-justas e confidências. Porém, com o sabor dosado pelos bons contadores de histórias.

De Cachoeira Paulista para Mogi. Foi assim?

Eu nasci em Canas, que pertence a Cachoeira Paulista. Meu pai era barbeiro, eu trabalhava com ele, quando um conhecido contou que havia uma vaga aberta no Salão Elegante, do Joaquim Mineiro, na Rua Coronel Souza Franco. Eu tinha 20 anos e conversei com o meu pai e ele falou: “Aqui já te ensinei tudo o que eu sei”. Então, perguntei: “E se não der certo?”, e ele falou o que jamais esqueci: “A casa de seu pai não vai mudar, sempre estará aqui para você”.

Como era Canas?

Um lugar pequeno, entre Lorena e Cachoeira Paulista. À época, Mogi, já contava com 80 mil moradores. Lá, estudei no Grupão, como era chamada a escola igualzinha ao Coronel Almeida daqui. Todas as escolas do Interior, daqueles tempos, tinham o mesmo projeto feito pelo Governo do Estado. Mudava o nome, a minha era “Evangelista Rodrigues”. O meu pai foi um homem bom. Um pai que não sei se eu estou sendo para os meus filhos, um sujeito calmo, ponderado. Minha mãe, Maria Augusta Escobar (que viveu até os 95 anos) era a quituteira do lugar. Naquele tempo era assim. Havia as quituteiras, que faziam os doces e salgados para os casamentos. Na minha casa, todos ajudávamos a enrolar os doces para as festas.

Pedro Escobar foi uma grande referência?

Ele e minha mãe. O certo, com eles, era ser educado, honesto, decente. A gente aprendia a ler na escola, mas a obrigação se aprendia em casa. Meu pai dizia: quando um cobrador bate na sua casa, os teus filhos vão achar que isso é normal, que isso é o certo. Você pode ter dívidas, mas deve honrá-las. Essas eram a regra, a conversa, o exemplo. Papai nunca me bateu e eu fui (pausa) terrível. Outra coisa, ele ensinava, irmão não briga com irmão, você pode até se desentender com a cunhada, com a sogra (risos), mas com o irmão, não.

Como foi mudar para Mogi das Cruzes?

Para mim, com 20 anos, a brincadeira foi oito vezes maior, porque a cidade já tinha seus 80 mil habitantes. Cachoeira, 10 mil. Aqui, muitas pessoas me ajudaram, e não vou falar de um ou outro porque posso me esquecer. A dona Odete Brandão, mãe da Neid Da San Biagio (que estava ao lado de Tirreno Da San Biagio na fundação do jornal O Diário), disse que eu poderia morar na casa dela. Ela e minha mãe eram comadres. Mas eu fui morar em uma pensão, onde a Maria Luiza era filha da proprietária e foi com quem me casei e vivi 56 anos.

Como era ser barbeiro?

Era uma delícia, porque você ouve conversas, opiniões, escuta corintianos e são-paulinos, conhece as pessoas, fica sabendo o que estava acontecendo. E não precisa ser muito inteligente para se tornar um autodidata, essa é a verdade. Naquele tempo, estou falando do passado, era assim, você se tornava um ponto de informação. Você conhece o juiz, o promotor, o delegado, os professores, os médicos, os políticos.

Apenas homens frequentavam o Salão?

Não, tinha uma mulher, a única, a Miss Lilian, esposa do proprietário da Grifitth, Robert Lee Warrem, que cortava o cabelo a La Garconne, o popular ‘a La Joãozinho’, que ia ao salão.

Como era a convivência com os chefes políticos, quando eles se encontravam no salão?

Iam todos, Waldemar, Jacob Lopes, Rodolfo Jungers, Padre Melo. E se encontravam. Nunca tive problemas porque eu ouvia muito, falava o menos possível, e sempre que podia, era útil.

Nesse período, a cena política mogiana pegava fogo.

Era uma guerra. Quando eu cheguei, o Waldemar Costa Filho tinha perdido a eleição para o Rodolpho Jungers, um gentleman, uma pessoa maravilhosa. Depois disso, o Waldemar se elegeu e esteve quatro mandatos na Prefeitura; porque foi um grande prefeito. Havia a disputa, mas havia respeito. Eles conversavam quando se encontravam. Mas que a política era uma guerra, isso era, era um ‘pega pra capar’ de verdade.

A convivência com Waldemar Costa Filho começou logo?.

Sim, por causa do salão. Quando Joaquim Mineiro disse que queria vender o salão, eu não tinha o dinheiro, mas ele disse que me vendia fiado, se o fiador fosse o Waldemar. Eu fui falar com ele. O Waldemar propôs comprar à vista e eu pagaria depois a ele. O Joaquim Mineiro não queria assim. E o Waldemar assinou as 25 duplicatas; na metade, já estava xingando porque não tinha paciência para ficar assinando.

Como era o Waldemar?

Ele amava o que fazia, gostava de desafio, da política, de fazer obra. E se valeu dos amigos que o ajudavam. Pessoas que tinham um número de telefone direto para falar com ele. Então, não sei hoje, se os prefeitos agem assim, mas essas pessoas sabiam dos problemas, então ligavam para ele quando encontravam alguma coisa errada. Não tinha isso de ir para a rádio ou o jornal apontando erros, porque a solução vinha logo. Uma vez, o governador Carlos Lacerda (1914-1977), que era padrinho de casamento do Minor Harada (ex-vereador), comentou: ‘Senhor Roberto, tem gente que nasceu para política. E o Waldemar nasceu para ser político, para fazer política, e fazer bem’. Ele sabia onde estava a oportunidade, se valeu de projetos a fundo perdido, como o Cura (linha de financiamento federal) e asfaltou a periferia. A cidade cresceu nas mãos dele.

O senhor era um do interlocutor entre moradores e o prefeito?

Os pedidos que eu levava eram de pessoas simples, gente que não sabia nem como pedir algo, e o Waldemar tinha uma característica. Ele atendia as pessoas com aquela educação de quem nasceu na Inglaterra e estudou na Suíça (brincadeira). Ele tinha o jeito dele, grosseirão, mas tinha palavra. Quando ele dizia sim, era sim. Se não, era não. E não voltava atrás.

Como eram os pedidos?

Coisas corriqueiras como uma ligação de água. E havia pedidos para determinados apuros financeiros, quando alguma pessoa não conseguia pagar determinada taxa na Prefeitura, e não havia, naquele tempo, isenção. Eu o vi pagar com dinheiro do próprio bolso. Eu também fiz isso.

Foi assim que nasceu a amizade com o empresário Fumio Horii?

O Waldemar era radicalmente contrário às mineradoras, a quem comparava com os homens que engravidavam as mulheres e as abandonavam. Ele dizia que eles retiravam o que estava no subsolo de um terreno que não pertencia a eles. E tinha ainda a disputa com o Jacob Lopes, que exercia essa atividade. Então, o Sérgio Knippel (advogado e contador) me disse que um agricultor que frequentava o Salão estava solicitando autorização da Prefeitura para operar em um terreno em Jundiapeba. Era Fumio Horii, que eu não me lembrava, mas ia, sim, ao salão. Eu disse ao Sérgio que seria difícil, porque o Waldemar tinha ideia fixa contra a mineração, mas pedi que fizesse a papelada. Eu expliquei ao Waldemar que o terreno era de propriedade da família, e que não era uma exploração em terra alheia, e ele autorizou. Depois, o Fumio foi tomar um café comigo, e perguntou quanto teria de pagar pela ajuda. E eu disse que nada. Aliás, eu paguei o protocolo feito na Prefeitura, e também o café que tomamos no Bar e Bilhar Glória (Rua Flaviano de Melo). Outras empresas, como a São Caetano (cerâmica), passaram a me procurar. Mas não funcionava assim, nem comigo, nem com o Waldemar, que tinha horror aos mineradores pela exploração do subsolo.

A fidelidade ao grupo segue até hoje?

Sim, sou fiel ao Boy (Valdemar Costa Neto), e sim, sei dos problemas que ele teve, eu os conheço todos, mas a fidelidade segue.

E a relação com os outros prefeitos?

Mogi teve bons prefeitos. O Bertaiolli foi um deles; é um político que não tem limite, porque gosta do que faz. Ele pode ser o que quiser, ministro, presidente. Mogi sempre esteve bem representada. Embora eu continue cachoeirense, tenho parentes ainda lá, eu acho que Mogi, sinceramente, é tudo de bom. E deve muito a gente como o padre Manoel Bezerra de Melo, que trouxe as faculdades e, com elas, muitas pessoas que representam bem Mogi. O Henrique Borenstein, que é mais velhinho do que eu (pode dizer isso aí), tem um papel importante no desenvolvimento de Mogi. E há muitos outros.

Quais lugares frequenta?

O Varejão, às 6h30. A Maria Luiza dizia que eu ia cedo para ajudar a montar as barracas. Vou ao Varejão desde que o Minor Harada fez a primeira edição, onde está hoje o Shibatinha, ao lado da Santa Casa. E aos sábados, o Mercadão.

Como mudou para o ramo imobiliário?

Uma coisa levou a outra. Na barbearia eu conhecia muita gente, gente que estava chegando e gente que estava vendendo terrenos. Mogi cresceu muito com a chegada das faculdades. Foi uma mudança que aconteceu em 1982. E fui parceiro do Edcir Andreucci, e agora sigo a parceria com o filho dele, o Moa (Moacir Andreucci).

Esse ramo, como outros, está mudando por causa da tecnologia. Como será o futuro do corretor de imóveis?

Não só do corretor, mas do advogado, do jornalista, do médico, de todos. O corretor de imóveis sério sempre será o que vai ajudar na melhor escolha, porque conhece o mercado, sabe apontar se o comprador vai mesmo ganhar ou não com a aquisição, e irá auxiliar no planejamento para a compra. Na internet, os negócios também acontecem, mas sem esse olhar profissional. É como na medicina, o médico pode dar o diagnóstico sem olhar o paciente, mas, na minha opinião, ele precisa ver o paciente, olhar no olho, ouvir a queixa. Um dia, nesse caminhar, não vamos morrer mais. Com a internet você diminuiu as diferenças porque todos têm acesso à informação, algo antes era restrito a quem era letrado.

Nesse aspecto, o combate das desigualdades, o Brasil avançou?

Muito e isso se deve aos últimos governos. Antes, quando o pobre andava de avião? Nunca. O problema é que hoje nós (o País) saímos da mão de um sargentão (a presidente Dilma Rousseff), que foi sofrível para todos, e caímos na mão de um capitão despreparado. Muita coisa após a Revolução de 1964 deu certo, e embora eles fossem militares, eles eram preparados, sabiam o que estavam fazendo, não é como agora.

E a família?

Eu me casei com a Maria Luiza (que faleceu neste ano). E tivemos a Rita de Cássia, o Roberto Júnior, que Deus permitiu que eu fosse o pai dele até os 23 anos, quando ele faleceu, e a Érica. E os netos: Ramon, estudante de Medicina, o Pedro, que estuda Direito e mora comigo, e o Eric, que está em um intercâmbio nos Estados Unidos.

Aos 80 anos, pensa em parar de trabalhar?

Eu preciso trabalhar para não morrer, quem trabalha vive mais, tem os desafios, as chateações, as alegrias. Preciso do trabalho para viver.

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