ENTREVISTA DE DOMINGO

Salvador Boucault Júnior, de olho nos avanços da oftalmologia

Salvador Boucault Júnior conta histórias de mais de quatro décadas na oftalmologia. (Foto: Eisner Soares)
Salvador Boucault Júnior conta histórias de mais de quatro décadas na oftalmologia. (Foto: Eisner Soares)

As inovações tecnológicas da Oftalmologia garantem hoje avanços significativos na prevenção, diagnóstico e tratamento de problemas visuais, mas uma atitude essencial para que tudo isso alcance resultados positivos ainda depende do paciente: o hábito de iniciar o quanto antes o acompanhamento com o profissional da área. Na avaliação do oftalmologista Salvador Boucault Júnior, isso deve começar antes mesmo dos 2 anos de idade e não apenas quando as crianças entram na escola, por volta dos 5 a 6 anos, como ocorre na maioria das vezes. “Quanto mais cedo, melhor”, aconselha. De família tradicional na cidade, o mogiano neto de Isidoro e Vera Boucault e de Álvaro e Joana Freitas, ficou órfão de pai (Salvador Boucault) aos 7 anos e, assim como os outros irmãos mais novos, Álvaro e Márcio, foi criado pela mãe, a professora Anyres de Freitas Boucault. Estudou no Grupo Escolar Coronel Almeida, no Ginásio do Estado – Instituto de Educação Dr. Washington Luís -, no curso de Química Industrial do antigo Ateneu Mogiano e formou-se na quarta turma da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em 1976. Fez especializações, mestrado e MBA em Oftalmologia, inclusive em Barcelona, na Espanha. É fundador do Centro Boucault, na Vila Oliveira, onde aos 43 anos de carreira atua ao lado dos filhos Ricardo e Fernando, que seguiram seus passos, e concretiza o plano de construção de um centro cirúrgico na clínica. Na entrevista a O Diário, ele fala da profissão:

Como o senhor avalia os avanços da Oftalmologia desde o início da carreira, há mais de quatro décadas até os dias de hoje?

Em 1985, minha amiga Elizabeth Cipolla conseguiu estágio para mim no Instituto Barraquer e fiquei três meses morando em uma pensão com outros três médicos estagiários brasileiros, em Barcelona, na Espanha, para conhecer a cirurgia de implante de lente intraocular em pacientes com problemas no cristalino. Joaquim Barraquer foi pioneiro nessa técnica cirúrgica que era um avanço para a época. Uma pessoa que usava óculos de 20 graus poderia abandoná-los e quando voltei, trouxe a novidade aos mogianos. De lá para cá, por exemplo, esta cirurgia evoluiu muito e hoje é feita com apenas um furinho minúsculo, introduzindo a lente com a própria agulha. Muita coisa mudou. Minha aparelhagem do início da carreira já foi para o museu. Hoje, tudo é automatizado, temos as cirurgias a laser, os exames com alta tecnologia e diagnósticos cada vez mais precisos, tratamentos eficazes e inovações diárias capazes de garantir a prevenção de vários problemas e doenças.

Os pacientes também estão mais conscientes sobre a necessidade de acompanhamento oftalmológico e prevenção de doenças visuais?

Há uma maior preocupação e conscientização com a prevenção de doenças dos olhos, principalmente porque a informação também se tornou muito mais acessível a todos com o advento da Internet. Nossa maior satisfação é conseguir detectar e tratar algum deficit logo no início, porque desta forma são maiores as chances de solucionar o problema o quanto antes. Por isso a importância de levar as crianças ao oftalmologista antes mesmo dos 2 anos de idade, embora a maioria das pessoas só se preocupe com isso quando os filhos estão na idade escolar, por volta dos 5 a 6 anos. Mas vale o conselho: quanto mais cedo, melhor.

O senhor atua na Oftalmologia há 43 anos. Quem são seus pacientes hoje?

Tenho pacientes da época em que a clínica funcionou no primeiro endereço, na rua Dr. Corrêa, onde atendi por 30 anos. Hoje trabalho com meus filhos Ricardo e Fernando, que também foram para a minha área, mas tenho os pacientes que querem passar comigo, então, venho atendê-los. E todos, desde que comecei minha carreira, recebem a mesma atenção. Primeiramente converso, depois examino e, em seguida, volto a conversar. Isso é muito importante e faz a diferença, por isso não abro mão deste momento. Um oftalmologista, para poder prescrever óculos, tem que primeiramente examinar os olhos.

Por que a escolha pela Medicina?

Era um sonho. Sempre achei bonito conversar com as pessoas para ajudá-las a cuidar delas. Já os olhos, para mim, são a parte mais importante do corpo humano. Temos vários sentidos, mas basta fechá-los por um minuto e percebemos o quanto a visão é importante. Tanto que nenhum outro médico opina sobre o trabalho do oftalmologista, o que muitas vezes não acontece em outras especialidades. Por todas estas razões, optei pela Oftalmologia.

Como foi o ingresso na faculdade?

Aprovado em Medicina no vestibular da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), que tinha cerca de mil candidatos para 80 a 100 vagas iniciais, me formei na quarta turma, em 1976, com amigos como Feitosa (José Ribamar) e Mariângela Trandafilov. Nossa turma se reúne três vezes por ano e está sempre se falando. Tivemos professores como Glauco De Lorenzi, Luiz Pereira, Castor Jordão Cobra, Milton Cruz Filho, Mauro Kuroba, Luis Henrique Frizzera e outros muito respeitados. Paguei os três primeiros anos da faculdade com ajuda da minha mãe e do meu avô, mas no quarto ano estava difícil e procurei o seu Waldemar (Costa Filho, ex-prefeito), que havia conseguido uma bolsa para o meu primo. Um dia, ele estava na faculdade e pedi a ajuda, mas ele disse que não tinha como colaborar comigo. Fiquei no corredor, ele passou para tomar café, voltou e eu estava ali parado. Foi falar comigo, me deu uma bolsa de estudos de Engenharia e paguei a diferença para Medicina.

Depois ele foi paciente do senhor?

Sim. Tinha horário exclusivo no meu primeiro consultório, na rua Dr. Corrêa, mas sempre fez questão de pagar pelas consultas. Ficava bravo quando eu insistia em não cobrar.

Há mais recordações dos tempos de estudos?

Lembro que os estudantes chamavam a atenção na cidade, ainda bem interiorana e tranquila. Os alunos de Medicina eram um charme desfilando de roupas brancas por Mogi, enquanto os de Engenharia andavam de carrões importados pelas ruas. A maioria vinha de fora, da Capital e até de outros estados, e ficava morando em repúblicas na cidade. Mas tiveram aqueles que se formaram, iniciaram a carreira aqui, fizeram família e ficaram em Mogi, cidade estratégica, a 40 km de São Paulo, a 50 km da praia e a 40 km de São José dos Campos.

Vamos recordar sua vida na cidade. Como foi a infância?

Quando nasci, meus pais (Salvador e Anyres de Freitas Boucault) moravam no início da rua Dr. Ricardo Vilela, na casa de número 165, perto dos meus avós Joaninha e Álvaro e da minha tia Júlia, bem no centro da cidade. Ali passei a infância jogando bola e taco na rua e brincando com meus irmãos (Álvaro, que hoje é médico, e Márcio, engenheiro), que são mais novos, os vizinhos e amigos, na época em que era rara a passagem de carros por lá. Meu pai era conhecido como Dodô, nome de sua loja de materiais de construção também na Ricardo Vilela, onde coincidentemente hoje está a Dodô Vidros. Ele morreu quando eu tinha apenas 7 anos e minha mãe, que era professora primária, nos criou com a ajuda dos meus avós Joaninha e Álvaro. Foi uma época complicada.

Onde o senhor estudou?

O primário foi no Grupo Escolar Coronel Almeida, onde tive excelentes professores. Depois, fiz o curso preparatório para o Exame de Admissão com as professoras Etelvina e Celeste, numa sala em cima da bicicletaria que havia na rua Dr. Paulo Frontin. Até hoje sei de cor todas as preposições que aprendi naquela época. Fui aprovado no Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Dr. Washington Luís). Neste tempo, estudava de manhã no Washington Luís e à noite no Ateneu Mogiano, que funcionava onde hoje está o Liceu Braz Cubas, e lá me formei químico industrial. A propósito, o Liceu foi fundada por meu tio Plínio Boucault e o professor Mauricio Chermann, na rua Princesa Isabel de Bragança, na área atualmente ocupada pelo edifício Helbor Tower.

O senhor tocou na fanfarra do Washington Luís?

Saía de casa levando no braço a calça do uniforme da fanfarra, sempre bem passada, até a escola. Chegando lá, trocava de roupa e ia para a avenida desfilar, tocando caixa. Na apresentação do Vale do Anhangabaú, na Capital, onde fomos campeões do Estado, fui caixa-mor.

Qual foi seu primeiro emprego?

Sem pai e com a mãe professora, meu tio Eduardo, sócio do Dr. Homero Gomes na Minas Car, que vendia automóveis, me levou para trabalhar no escritório de lá. Por causa disso, fui para o Liceu estudar Contabilidade, fiz a primeira prova, fui bem, mas não gostei do curso.

Ficaram mais lembranças da juventude?

Tocava bateria na banda Black Stones, com o Renato Piacentini, que era guitarrista, o Edson no contrabaixo, o Vanderlei na guitarra e baixo e o De Carlo no vocal. Todas as quartas-feiras ensaiávamos no Clube de Campo, com a permissão do presidente da época, o Dr. Milton Cruz. Nós fazíamos apresentações na cidade, no próprio Clube, e fomos tocar até em São Sebastião. No repertório tinha The Beatles, Rolling Stones e outros. Aos 19 anos, tive que vender a bateria para fazer o cursinho. Fui da primeira turma do Objetivo do prédio da Gazeta, na Avenida Paulista. Neste tempo, morei com meus tios Jairo e Iracema, em São Paulo. Anos mais tarde, já na faculdade, era chamado e ia tocar bateria na Brascol, competição esportiva entre os alunos do Liceu Braz Cubas e do Ginásio do Estado. Aliás, há 2 anos, quando o Centro Boucault uma década na Vila Oliveira, contratamos um conjunto, mas também toquei um pouco de bateria durante a comemoração.