ARTIGO

Sanitário unissex

Perseu Gentil Negrão

Dias destes estava conversando com uma amiga, que perguntou se eu não estava escrevendo mais. Respondi-lhe que nada estava me inspirando. A culta e inteligente mulher observou que a atual situação do Brasil não inspira.

Refleti a respeito e conclui pelo acerto da observação. Passamos por um período de quase 16 anos de trevas. Conseguimos exorcizar o PT. Porém, a ementa ficou tão ruim quanto o soneto. O atual governo está mais perdido que cachorro que caiu do caminhão de mudança. Parece que não tem um projeto. E o Congresso? O país quebrado e os legisladores preocupados com o fundo partidário. Sem falar na famigerada “Lei do Abuso de Autoridade, que tirou o “revólver do mocinho”. O Supremo criou norma processual (delator falar depois do delatado). Afinal, “é consagrado o princípio geral de que nenhuma nulidade ocorre se não há prejuízo para a acusação ou para a defesa” (por incrível que pareça, a decisão é do ministro Ricardo Lewandoski, no recurso extraordinário nº 1235274/SP, julgado em 26/09/2019).

A cereja do bolo foi a entrevista do ex-procurador-geral da República, com “pitadas de psicopatia”. O glacê veio com a decisão do ministro Alexandre Moraes (fases do crime: cogitação, preparação, execução e consumação – o delito só pode ser punido se houver início da execução – que, evidentemente não ocorreu).

Não está fácil encontrar inspiração. Mas lembrei que dias atrás fui utilizar um sanitário público. Ao chegar no dito cujo, com as pernas já “trançadas”, encontrei a plaquinha de limpeza. A gentil faxineira, percebendo a minha premência, orientou-me a utilizar o sanitário feminino, dizendo que estava vazio. Como sou antiquado, fiz cara de espanto. A boa mulher indicou-me, então o sanitário de deficientes físicos. Notando que não havia qualquer pessoa nestas condições, aliviei-me.

Com a cabeça do lugar, tornei-me filósofo.

Está mais do que na hora de acabar com as segregações nos sanitários. Estes locais precisam ser unissex (termo “vintage”). A medida poria fim a qualquer dúvida de gênero; evitaria (ou diminuiria) as filas nos sanitários femininos e, principalmente, acabaria com os famigerados cochos para urinar. Estes “mijadouros” (cochos) são medievais e, por isso, são chamados de “manja rôla”. Você minha amiga, não sabe como é vexatório urinar nestas condições. Muitas vezes, a gente perde a concentração. Em algumas ocasiões, chega a dar complexo de inferioridade.

Deixe seu comentário