EDITORIAL

Saúde mental

É grave e ao mesmo tempo muito oportuno, o relato feito pelo secretário municipal de Suzano, Luis Claudio Rocha Guillaumon, sobre a impossibilidade de prestar um rápido atendimento psicolóico e psiquiátrico aos estudantes, vitimas do massacre ocorrido no dia 13 de março, na Escola Estadual Professor Raul Brasil.

A violência sofrida por essa comunidade escolar expõe uma perversa falha da rede pública de saúde mental brasileira, justamente quando ela se faz mais necessária. Há um crescimento notável das doenças e transtornos mentais desacompanhado de investimentos potentes o bastante para atender a demanda de patologias.

O secretário Guillaumon mostrou números e o tamanho do vazio nessa área de saúde mental, onde Suzano não é exceção. É regra. As cidades brasileiras começaram muito tarde a montar redes específicas para tratar as doenças mentais. Até pouco tempo, aliás, famílias de todas as cidades da Região contavam como referência apenas o Ambulatório de Saúde Mental de Mogi das Cruzes.

A descentralização de serviços psiquiátricos, a partir do Sistema Único de Saúde (SUS), trouxe algum alento. Mas, além da desestrutura administrativa, há falhas importantes como o desinteresse dos profissonais habilitados em atuar na rede pública por causa dos baixos salários e excesso de pacientes.

Bem, em Suzano, a fila de espera por um psicólogo possui 1,3 mil nomes, incluindo nesse universo, os estudantes que passaram por um situação considerada de alto estresse, com potencial para desencadear a fobia, ansiedade, depressão, esquizofrenia, e outros transtornos da mente e da personalidade.

O Governo do Estado tem dado transparência aos passos do atendimento a vítimas e familiares dos estudantes que invadiram a escola e mataram cinco estudantes e dois professores da Raul Brasil, além de um tio dos assassinos, e depois tiraram a própria vida. Nota-se uma boa vontade, em razão da gravidade do que aconteceu com esses estudantes e professores. Mas, nesse caso, só boa vontade não resolve. É preciso criar meios de rapidamente disponibilizar esse tipo de atendimento.

Os ritos burocráticos acentuam a distância existente entre o desejo do gestor público e a realidade. Mostra mais: a necessidade de se investir e a falar mais sobre a saúde mental.

Nesta semana, um encontro na Câmara de Mogi das Cruzes discutiu o bullying e os participantes destacaram a necessidade de se criar uma rede de atendimento aos alunos, vítimas e agressores, e também aos professores. Essa rede precisa contar necessariamente com psicólogos e até psiquiatras. E aqui voltamos ao início dessa história: os danos gerados pela falta de políticas públicas de saúde mental, que estão por trás, hoje, de tragédias como a de Suzano, do avanço do suicídio entre jovens, adultos e idosos, e de outras desordens sociais e pessoais.