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Sem público, a Festa do Divino de Mogi das Cruzes começa hoje

IMPÉRIO DO DIVINO Diferente dos anos anteriores, o altar está montado dentro da Catedral de Santana, que já recebe os devotos. (Foto: Fábio Aguiar)

No século passado, durante 15 anos, entre os anos de 1940 e 1955, as manifestações folclóricas da Festa do Divino Espírito Santo não foram realizadas. A Segunda Guerra desmobilizou a comunidade de devotos. Após 65 anos, a situação de repete a partir de hoje com o cancelamento de parte dos ritos populares.

Não serão realizadas a quermesse, a Entrada dos Palmitos, e nem as passeatas noturnas que visitam ex-festeiros e devotos acamados, e nem o afogadão, distribuído gratuitamente a milhares de pessoas, na véspera do encerramento do evento do povo. A agenda religiosa, com a novena e o tríduo da Alvorada, começa a partir de hoje, com transmissão pela internet e a restrição dos participantes aos padres e festeiros.

Houve muita resistência para a tomada dessa decisão, segundo o festeiro e vereador Mauro de Assis Margarido, que está na Festa do Divino desde 2017. Em 2018 foi capitão de mastro, e neste ano, assumiu a condição de festeiro.

Margarido admite que foi um dos que mais resistiu à suspensão da quermesse determinada pela pandemia do novo coronavírus, e a quarentena em vigor até o final deste mês.

“Foi uma definição delicada e difícil, porque o fim da quermesse afeta o atendimento prestado pelas 29 entidades participantes do evento”, disse.

Por noite, as cerca de 20 mil pessoas que frequentam as barracas de doces, bebidas e outras delícias gastronômicas são responsáveis pelo faturamento de cerca de R$ 3 milhões arrecadados no ano passado, sendo R$ 1 milhão foram destinados aos custos e infraestrutura, e o restante dividido entre as ações filantrópicas.

“Será um dinheiro que não vai entrar no caixa dessas entidades e, por isso, nós decidimos manter ações como o sorteio de um carro e outros prêmios, que acontecerá no segundo semestre”, informa.

Além disso, as comunidades estão utilizando a marca do Divino em iniciativas como a venda de produtos típicos da quermesse. “Estamos mobilizando essas comunidades pelas redes de whastApp, para que elas consigam, de alguma forma, manter o que seria feito na Festa”, acrescenta.

Na avaliação dele, apesar das dificuldades, as entidades encontrarão meios para sobreviver. “Elas são tocadas por pessoas que se doam muito às causas, e por doadores que deverão continuar auxiliando esses projetos”, diz.

A rifa dos prêmios, incluindo um carro zero, destina 40% dos valor arrecadados às entidades parceiras.

Além dos recursos da quermesse, os patrocínios que já haviam sido acertados (grupo Alabarce e Associação Comercial de Mogi das Cruzes) foram desfeitos e o dinheiro já pago à Associação Pró-Festa do Divino foi devolvido.

A expectativa dos organizadores mira o ano que vem. Segundo o festeiro, o hiato, neste maio, poderá fermentar um grande interesse pela Festa do Divino do ano que vem. “As pessoas estarão com muitas saudades e estão sentindo a falta da Festa nesse ano. Acreditamos que em 2021, ela será ainda mais especial em função do cancelamento deste ano”.

Ruptura

Segundo o historiador, professor e ex-festeiro Jurandyr Ferraz de Campos (1936-2019), as manifestações culturais da Festa do Divino foram suspensas apenas entre as décadas de 1940 e 1955 em Mogi das Cruzes, no período da Segunda Guerra e após a franca recessão econômica que a sucedeu. Depois, as encenações e festejos foram retomados com a repetição de tradições como a escola do festeiro e a manutenção de uma “casa da festa”, onde quitudes eram feitos para serem distribuídos aos participantes, como os moradores da região da Serra do Itapeti, que vinham passar os dias dedicados ao Espírito Santo nas casas que mantinham no centro da cidade. Pelos estudos de Campos, a Festa do Divino mogiana é realizada há 407 anos.

Afogado será servido em entidades sociais

REPOUSO O afogadão do povo atenderá pessoas que vivem nas ruas, (Foto: arquivo)

Os panelões da barraca do afogado não serão usados neste ano, como em todas as demais edições da Festa do Divino de Mogi das Cruzes. Porém, uma ação social não deixará os símbolos do Espírito Santo, a fartura e o alimento adormecidos. Os organizadores vão produzir cerca de 200 pratos do caldo à base de carne e batata no sábado, dia 30, para atender as pessoas em situação de rua.

Inicialmente, a ideia era distribuir o afogado nas ruas. Mas, os riscos de aglomeração para os voluntários e os assistidos mudaram os planos.

O prato do afogado será preparado e levado às entidades que atendem essa parcela da população, a Abomoras e a Casa de Assis, em Braz Cubas.

As recomendações de não estimular a reunião das pessoas levou os organizadores a refazerem o programa inicial da Festa do Divino. Foram planejados, inicialmente, atos como uma carreata pelas ruas da cidade no dia 30, quando aconteceria a Entrada dos Palmitos.

Logo após a divulgação, um grande número de pessoas começou a ligar para os festeiros e ex-festeiros, comentando que iriam participar da carreata. “Então, tivemos de optar pelo bom senso e mudamos a programação, eliminando essa iniciativa. O nosso desejo é que as pessoas continuem acompanhando as novenas, pelas transmissões das redes sociais da Diocese, e preservando os devotos, principalmente, os mais velhos”, afirmou o festeiro e vereador Mauro de Assis Margarido (PSDB).

O festeiro ainda assimila as mudanças impostas à Festa do Divino pela pandemia. Mas, já reflete sobre o legado dessa crise sanitária e econômica. “A pandemia mostrou ao mundo que é preciso mudar, que estávamos vivendo em um ritmo muito louco, cada um pensando em si. Estamos vendo que uma pessoa precisa da outra para vencer esse vírus. Mais do que nunca, precisamos ser mais humanos, mais cuidadosos com o próximo”.

Provocado sobre a ruptura criada pela polarização política e ideológica vivida no Brasil, e também demonstrada durante a pandemia, o vereador respondeu; “Ela existe, sei que uma parte das pessoas ainda não entende que a prevenção é necessária, mas há muitas pessoas pensando o contrário. E, nós, devotos, confiamos no Divino, confiamos em Deus, e acreditamos que tudo isso vai passar”.

Padre Shishito dará bênção de abertura

Uma benção a ser dada pelo padre Diogo Shishito aos festeiros Alecxandra e Mauro de Assis Margarido e os capitães de mastro, Roberta e Maurimar Batalha, na tarde de hoje, na Catedral de Santana, em uma solenidade fechada, deverá marcar o início da Festa do Divino de Mogi das Cruzes. Ontem, alguns devotos conheceram o altar preparado para as celebrações deste ano.

Apenas a programação de novenas será mantida, com as transmissões pelas redes sociais, e três alvoradas acontecerão, também com limite na participação dos devotos.

No programa da Festa do Divino, um alerta é dado aos fiéis sobre a impossibilidade de participação nesses atos, por causa da quarentena que visa reduzir os índices de propagação da novo coronavírus, que provoca da Covid-19. As próximas três semanas, segundo o Governo do Estado, serão marcadas por um grande número de casos confirmados, o que exige ainda o isolamento social.

Os festeiros passarão por alguns ruas da cidade, com as bandeiras, e se dirigirão à Catedral de Santana.

Amanhã, a primeira noite da novena será celebrada pelo bispo diocesano, dom Pedro Luiz Stringhini, na Categral de Santana. Nos demais dias, missas acontecerão em igrejas como os santuários do Bom Jesus (São Benedito) e Coração de Jesus.

A programação completa pode ser acompanhada nas tramissões online pelo Facebook da Festa do Divino (https://www.facebook.com/festadodivinodemogidascruzes) e da rede social das paróquias que participarão da novena.


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