ENTREVISTA DE DOMINGO

Geólogo Silvio Pomaro analisa o risco das barragens da região

Silvio Antonio Canevare Pomaro. (Foto: Henrique Campos)
Silvio Antonio Canevare Pomaro. (Foto: Henrique Campos)

A tragédia com o rompimento da barragem de rejeitos de minérios que matou centenas de pessoas e destruiu Brumadinho (MG) chama a atenção para a situação das mineradoras de Mogi das Cruzes e dos cinco reservatórios de água que formam o Sistema Produtor Alto Tietê (Spat), na Região. O geólogo Silvio Antonio Canevare Pomaro, 51 anos, destaca que fatores como a falta de gestão e de fiscalização contribuem para a ocorrência de problemas como o que assolou a cidade mineira e teve repercussão internacional nas últimas semanas. Nascido em Pereira Barreto, no Interior do Estado de São Paulo, ele se formou em Geologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, e foi trabalhar na área de mineração em Paranapanema, no Tocantins, envolvido no projeto de pesquisa para extração de ouro naquela região. No ano seguinte, 1993, se mudou para Mogi das Cruzes, onde já estava a irmã, a arquiteta Heloísa Pomaro, vislumbrando a oportunidade de montar a Sondaterra Sondagens e Poços Artesianos, empresa especializada em perfurações e geologia para a construção civil, sondagens e investigação do solo para grandes empreendimentos e clientes particulares. Desde então, já fez sondagens para o Metrô e mineradoras, assim como para construção de viadutos, túneis e edificações de grande porte. Na entrevista a O Diário, Pomaro fala sobre as condições da atividade de extração mineral e das barragens de água da cidade, além de alertar para a necessidade de construção de uma nova estrada ligando Mogi ao Litoral para que a Rodovia Mogi-Bertioga seja utilizada apenas como via de apoio, a fim de evitar riscos com novos deslizamentos de terra e pedras na pista.

As barragens de mineração representam riscos em Mogi das Cruzes?
Como em Mogi há poucas áreas de mineração, e mais de proteção, dependendo o tipo de minério requer lagoas de rejeitos, mas não é todo tipo de extração que precisa disso. Temos a extração de rocha de brita, que requer as lagoas às vezes, mas são buracos e não áreas de rejeitos nessa proporção como a de minério de ferro, que gera uma quantidade grande de materiais. Temos muita água e rejeitos represados no país e precisamos dar uma solução rápida para eles. Mas a atividade mineradora não é o que mais me preocupa em Mogi.

O que mais o preocupa na cidade?
São os reservatórios de água, que retêm um volume muito grande para abastecer toda a Região Metropolitana de São Paulo e estão a montante da Capital. Eles requerem boa fiscalização, manutenção e instrumentos de monitoramento constante. Se uma destas represas estourar, muita gente morrerá afogada e as demais ficarão sem água porque não há reserva. O Alto Tietê, como reservatório estratégico, tem cinco barragens, todas interligadas e no mesmo vale. Se por acaso uma destas barragens se romper, será um efeito dominó, a força da água levará tudo e a cidade ficará no solo. Por isso é preciso ter acompanhamento constante de profissionais capacitados, com materiais apropriados. Não se pode economizar nisso. A fiscalização tem que ser bem atuante e ostensiva, senão, uma hora pode romper uma pequena represa, que afetará outra. O ser humano faz as intervenções na natureza, mas precisa pensar nas consequências.

Qual é a saída?
No caso das mineradoras que têm rejeito, primeiramente elas têm que dizer o que farão com isso, se usarão de forma sustentável, para um bem comum, na construção de estradas e produção de tijolos… No caso de Brumadinho, aquele monte de material teria que ter uma solução. É preciso decidir o uso do rejeito para que ele não fique estocado. O destino final tem que ser pensado e estar dentro de um ciclo sustentável porque senão as pessoas descartam aquilo debaixo do tapete, deixam para a próxima geração se virar e vão gerar problemas. Isso exige mudança na legislação mineral, que é da década de 60, de Getúlio Vargas. Estamos aquém do que precisamos hoje. O mundo mudou e as leis precisam ser reinventadas. As soluções para o lixo dependem de tecnologia, inteligência, educação e profissionais qualificados.

O que ocorreu com a barragem de Brumadinho foi um novo alerta?
Aquilo virou um problema social, com muitos mortos, a cidade que dependia dos royalties da mineradora, não tem mais isso, e ficou sem água. A empresa ameaça não explorar mais o minério ali. Brumadinho vai falir e ficar sem os recursos naturais que tinha, porque o rio não existe mais, as águas subterrâneas estão contaminadas, o solo não produz mais nem um pé de milho, os animais não têm como viver sem alimento e as pessoas estão se contaminando. Gerou um problema social em função da falta de gestão e fiscalização. O grande problema do planeta é que o ser humano gera tanto rejeito e não consegue lidar com isso. Há ilhas de plástico nos oceanos, mineradoras com mais rejeitos do que minérios, e grande quantidade de lixo amontado nos aterros sanitários que não se sabe o que fazer com ele. O planeta está empurrando estes lixos. Temos o lixo atômico que não sabemos se levamos para dentro do mar, se as aeronaves levarão para o espaço…

Esta tragédia era previsível?
Ali foi a junção de várias coisas que ocasionaram a tragédia. Dois fatores importantíssimos que levam a uma situação dessas são a falta de gestão, por parte do empreendedor, e de fiscalização, não só por parte dele, mas também do Estado. Na gestão, você vai fazer a construção, obedecendo todos os requisitos, seja para uma barragem ou aterro. Depois da falta de gestão, o problema é a pouca fiscalização. Hoje, quem deveria fiscalizar além do empreendedor seria o Estado e ele está cada vez falhando mais porque não tem estrutura. Antes isso era feito pelo Departamento Nacional de Produção Mineral e agora pela Agência Nacional de Mineração. Nós, geólogos, há muitos anos acompanhamos a decadência nesta estrutura e esperávamos que fosse melhorar com a agência, mas piorou porque há menos pessoas contratadas. São 79 pessoas para fiscalizar tudo o que temos de mineradoras e minérios no Brasil.

O que pode ter ocorrido em Brumadinho?
A barragem de Brumadinho já estava em estado de estabilização há três anos, mas porque desceu e estava seca, segundo os laudos?. Ou esta documentação foi comprada ou a empresa resolveu fazer algo que não sabemos. Para uma barragem de rejeitos descer são necessários peso e pressão. Esta barragem só estava com peso e não tinha pressão, porque quem faz isso é a água. No meio técnico, chegamos a pensar que houve entrada de água na barragem ou natural ou artificial, pela ação do homem. Neste processo de descomissionamento, a Vale pode ter decidido tratar aquele rejeito, talvez para extrair ferro, cobre e outros elementos associados à lama. Uma área com aquela quantidade de rejeitos pode ser trabalhada a seco ou úmida, que é a melhor forma porque se coloca os rejeitos em tubos, bombeia-se e joga-se longe. Já a seco, são necessários tratores e caminhões. A Vale deveria estar fazendo alguma operação e umedeceu a área para bombear algo que estava estável, sem pensar no risco. Só podemos afirmar algo após os laudos. Primeiro será investigado e pode ser que as drenagens subterrâneas de fundo não estavam funcionando. O problema é que a própria Vale a fiscalizava e, quando a barragem era estatal, a fiscalização batia nela menos ainda.

O que é preciso fazer no caso das mineradoras para evitar problemas?
O País precisa voltar mais os olhos para a mineração porque desestruturou os departamentos fiscalizadores desde a década de 80, quando já havia a falta de investimento da federação. Enquanto o país é rico em minério, o DNPM está falido, a Fundação Geo-Rio, que estuda e fiscaliza as operadoras, está sucateada e o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) enfrenta a falta de investimento, principalmente na pesquisa.

O que houve com a barragem em Mariana também já era um alerta…
Era um alerta, assim como outras pequenas barragens de rejeitos e represamentos que tiveram problemas. O minério nesta região era extremamente bom, mas a mineração não cabe mais ali em função do volume de habitantes. O risco ambiental e humano é mais alto que o valor do minério, por isso a mineração tem que estar afastada, em locais não urbanizados, para diminuir o risco. Há a poluição do ar, sonora, das águas e do solo, que estão ligadas ao ser humano. Hoje, em Mogi, existe risco sim, porque tudo em volta tem moradias, só não sabemos o grau deste risco. As minerações dependem de água, então poluem os rios onde as cidades captam água. Ou vamos para o risco, permitindo que se faça isso, ou isolamos o risco, não permitindo que aconteça.

E a situação dos deslizamentos de terra e rochas na Rodovia Mogi-Bertioga?
A rodovia precisa urgentemente do estudo geológico. Quando foi feita, a partir de um melhor caminho para se chegar à praia, não se imaginava que haveria problemas anos depois. Na época da construção, os engenheiros podem até ter pensado que se chovesse muito poderia ser que caísse terra e rocha, e que a estrada, cruzando um rio tão forte, poderia ter problemas nas pontes, mas o investimento que se tinha na época para estrada era esse e foi uma grande realização. Temos que tirar o chapéu para quem fez porque uma estrada dessas não é fácil de ser executada, com os equipamentos daquele tempo e impedimentos. Se tivéssemos a questão ambiental de hoje, ela não iria sair nunca. A forma construtiva da Mogi-Bertioga foi com a tecnologia que se tinha, mas hoje vemos que poderia ter sido diferente. Temos estradas cruzando barreiras, como a Serra do Mar, feitas de forma sustentável. A Imigrantes é executada com boa tecnologia, assim como vem sendo feito na Tamoios, com viadutos, pontilhões e túneis. No caso da Mogi-Bertioga, não havia tecnologia para transpor a Serra como hoje e ela foi feita no trator, cortando morro, e gerando problemas. Fez-se cortes e aterros. Hoje, após algumas décadas, os cortes estão desmoronando e os aterros afundando.

O que pode ser feito?
A única solução seria construir outra estrada, com tecnologia de ponta, pistas duplicadas, viadutos e túneis. A estrada existente hoje serviria para apoio e manutenção, como é a Anchieta, que geralmente fecha quando chove ou há neblina. O trajeto entre Mogi e Bertioga reduziria pela metade, de 40 km para 20 km, assim como aconteceu com a Imigrantes, mas do jeito que está, sem o estudo geológico, a Mogi-Bertioga é perigosa. A construção de muros é um tapa buraco porque só o estudo vai apontar o que tem que ser feito nesta estrada e o custo para deixá-la bem conservada e sem perigo, neste ziguezague, não compensa. É melhor fazer outra. De qualquer forma, o estudo tem que ser feito de imediato e já se passou muito tempo. Estamos de novo em época de chuvas e nada se resolveu. O Estado não vê que é um saco sem fundo, gasta dinheiro e não resolve. O que vem sendo feito é algo para inglês ver, não é definitivo, assertivo, é algo paliativo e pouco estrutural. Mogi fica cada vez mais cheia nas férias, o que não acontecia há 10 anos. Ninguém vinha para cá quando viajava para Bertioga. Isso vira um problema social. O poder público tem que olhar rápido, porque há gente vendendo água na beira de rua, flanelinhas querendo limpar os carros, trânsito caótico, comércio irregular… A Região não sustenta mais o que está acontecendo. O anel viário e as duplicações já chegam ultrapassados. Há 20 anos fiz sondagem para construção da via paralela à linha do trem, desde Jundiapeba até Mogi, que agora será a Avenida das Orquídeas. Mas isso demorou muito.

Qual a avaliação da Serra do Itapeti e da Rodovia Mogi-Dutra?
Ali não vejo tantos problemas porque a Mogi-Dutra passa pela Serra do Itapeti tranquilamente. A serra está preservada, as pessoas que moram lá estão conscientes e, há 20 anos morando lá, percebo que quando chegamos era muito mais degradado do que hoje. Está havendo uma mudança da parte ambiente, com a conscientização. Antigamente, escutávamos tiros a noite toda, com gente matando bichos como pacas, tatus, lebres, veados, jacus, pássaros, e víamos armadilhas no mato. Hoje não se ouve mais tiros, vemos mais animais, como cobras e capivaras, circulando pelas vicinais. Os bichos e as aves estão voltando, o sagui-da-serra escuro, que é endêmico aqui, está volumando as famílias. Então, para a vida natural, fauna e flora, a região da Mogi-Dutra está bem, porque destinaram esta área para chácaras de recreio, que protegem, diferentemente das fazendas de corte de eucalipto e de gado. A vegetação natural está crescendo e percebemos que os córregos têm mais água. A transformação em APA (Área de Preservação Ambiental) foi mais um ponto positivo e só temos melhorias em relação ao meio ambiente naquela região, apesar de mais pessoas vierem morar aqui.

Por que a escolha pela geologia?
Após o primário e ginásio em Pereira Barreto, fiz o colegial em escolas de São José do Rio Preto, Araçatuba e Ilha Solteira e, depois, entrei na Escola de Engenharia Industrial, em São José dos Campos, mas não era o que eu queria e fui fazer Geologia no Rio Grande do Sul. Quando pequeno, gostava de mexer com a terra e pegar minerais na beira do rio. Saber como aquilo e o planeta ser formavam me fascinava. A curiosidade foi amadurecendo e, um dia, um professor falou que meu perfil era estudar Geologia. Ele me deu um livro e me encontrei.

Como foi a vinda para Mogi?
Em 1992 me formei e fui trabalhar em uma empresa de mineração de Paranapanema, no Tocantins, que fazia projeto de pesquisa para ouro, mas quando ela iria começar a exploração, ela não era viável naquele local. Abriram-se outras oportunidades no Amazonas e Pará, mas resolvi não ir mais porque já estava casado e teria que viajar sozinho para estas regiões indígenas. Decidi ficar na área urbana, que iria crescer. Minha irmã, que é arquiteta (Heloísa Pomaro) e já estava em Mogi, me falou para analisar se era interessante montar meu negócio aqui. Já conhecia a cidade, que estava em desenvolvimento, e vim para cá, onde iniciei com a empresa de perfuração Sondaterra. Começamos a operar na área de perfuração para a construção civil, com sondagem e investigação do solo para particulares, construtoras e grandes empreendimentos, mas já fiz sondagem para tudo, desde mineração, Metrô, viadutos, edificações de grande porte e túneis. Foram-se abrindo mais áreas da geologia, com perfuração de poços para captação de água subterrânea e de grande profundidade, com equipamentos robustos. Em conjunto, entrei na área ambiental, com investigação de suspeitas ambientais. A empresa passou a atuar nas áreas de construção civil, engenharia, ambiental de passivos ambientais, investigação e na parte de hidrogeologia, que inclui captação de água subterrânea, com a perfuração de solo e água, além da consultoria, com apoio, pareceres e laudos.