EDITORIAL

Só falta culpar São Pedro

Há de se adotar cautela ao avaliar os alagamentos e enchentes registrados no início desta semana em bairros ribeirinhos de Mogi das Cruzes para não se cair nas tramas do discurso inconsistente para explicar as causas desse problema urbano.

Essas áreas ficaram livres dos prejuízos enfrentados por famílias de baixa renda nos últimos anos por duas questões: choveu mais entre janeiro e março, e a cidade não se preparou para as enchentes, para minimizar o impacto da impermeabilização do solo gerado pela alta velocidade da ocupação urbana na última década.

O regime das chuvas até o ano passado foi marcado pela redução dos índices pluviométricos no Estado de São Paulo, que também diminuiu os recursos para o combate das enchentes.

Neste verão, além choveu mais e os temporais foram esparsos, castigando mais algumas regiões do que outras, o que ocorreu, por exemplo, anteontem à noite, em Biritiba Ussu. Esse fato torna urgente a adoção de medidas que atendam todo o território da cidade, e não bairros pontuais.

O sistema de drenagem formados por valetas, galerias, bueiros, corrégos e rios não estão dimensionados para reter as águas da chuva, como observa o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, em um artigo publicado nesta semana, sobre a criminosa insistência da gestão pública em seguir um modelo de combate às enchentes que não apresenta soluções para o drama que penaliza milhares de pessoas afetadas pela força das chuvas, e faz vítimas fatais em médias e grandes cidades.

A limpeza e o aprofundamento das calhas de rios e córregos, defende o especialista, não reduz as enchentes urbanas. Santos, foi secretário municipal em Mogi das Cruzes. Ele aponta como caminho seguro a descentralização do combate às enchentes, com a construção de reservatórios domésticos e empresariais para o acúmulo e a infiltração de águas de chuva, a adoção de calçadas e sarjetas em pátios e estacionamentos drenantes, bem como valetas, trincheiras e poços drenantes, além da multiplicação de bosques florestados no espaço urbano.

Há soluções e tecnologia para se enfrentar as humores do clima, que estão mais instáveis do que nunca. O problema é a trama do governar para hoje e não para o amanhã. Nisso, a crise hídrica de 2014-2016 não pode seria mais exemplar. Sem chuva, os recursos para o combate às enchentes foram carreados para outros setores. O clima mudou. Os gestores públicos não. Seguem a cartilha da negligência e incúria, e se bobear, vão culpar São Pedro.