CHICO ORNELLAS

Sob a luz de um abajur lilás

Mogi de A a Z

Antes da Aids, antes mesmo da liberalidade sexual, não havia cidade deste Interior que não tivesse a sua “zona”, denominação simplificada, pejorativa mesmo, para as casas de luzes fracas, abajur lilás e moças alegres. Mogi das Cruzes não haveria de fugir à regra e os seus rapazes dos anos 40 juntavam trocados para ir ter às casas situadas atrás da Igreja do Carmo ou do Risca Faca, o bairro de má fama que ocupava a área hoje dominada pela simpática Praça Rotary.

Nos anos 50 e 60, na medida em que a cidade crescia, o comércio do amor – era assim que se falava ? – também se desenvolveu e várias casas surgiram na periferia. Havia a Espanhola, codinome de uma certa dona Coral, que manteve a liderança do setor por muito tempo, administrando uma casa lá para os lados do Botujuru. Era uma verdadeira chácara, de árvores frondosas e moças idem. Para manter a concorrência, pressuposto indispensável ao aprimoramento de qualquer negócio, dona Yolanda não permitia que nada ficasse fora do lugar na sua casa do Alto do Ipiranga, proximidades do Palacete do Jafet (ele também não existe mais, demolido para o nada). Assim como Maria Preta, no caminho para César de Souza. E Yeda, em Braz Cubas.

Em todas elas, a cerveja invariavelmente era servida quente. Afinal, os lugares existiam para outras coisas do que a chacrinha em volta de uma Antártica. As moças que recebiam os rapazes e mesmo respeitáveis senhores, faziam parte da comunidade e frequentavam as mesmas ruas por onde circulavam famílias em dia de compra. No footing da Dr. Deodato, os rapazes que com elas cruzavam evitavam cumprimentos mais efusivos e algumas garotas da cidade trocavam cochichos curiosos quando uma delas passava. De alguma forma, elas eram reconhecidas.

A bem da verdade, as “zonas” de Mogi eram um centro de referência na região e chegavam mesmo a justificar incursões de rapazes da Capital. Mas nada que as comparasse a Bauru, onde pontificava dona Eny, proprietária e fiel zeladora da principal atração turística da “cidade sem Limites”. A ponto de ser passagem obrigatória de um conhecido ministro dos governos militares, hoje falecido. Mandava ele avisar que chegaria tal dia, às tantas horas. No momento acertado, a mansão estaria fechada para recepcionar a comitiva de autoridades e jornalistas. Em São Paulo, o mesmo ministro mantinha suíte reservada no Hotel Samambaia, para onde ia regularmente, em companhia das sobrinhas de tia Laura Garcia, a severa proprietária do falecido – como ela – La Licorne. Primeiro na Praça Roosevelt; depois, na Vila Buarque, ali na Rua Major Sertório onde Juca Chaves teve sua casa de espetáculos e hoje é um estacionamento.

Mas, voltemos a Mogi das Cruzes: algumas vezes, quase sempre nas noites de sábado, período de maior movimento, não era difícil um grupo de rapazes chegar para algumas horas. Numa dessas ocasiões, ginasianos do Liceu Braz Cubas cruzaram, na sala, com o pai de um dos integrantes do grupo. Situação constrangedora. Para ambos.

Em outra ocasião, ginasianos do Instituto de Educação Dr. Washington Luís decidiram levar consigo um professor. Muito conhecido na cidade, o mestre não era dado às coisas do amor vendido. Preferia, conscientemente, a fidelidade aos princípios herdados. Mas, como o diabo sempre está de plantão, lá foi o professor atender ao convite. Só não sabia que seus alegres alunos haviam escolhido dois para acompanhar a incursão professoral. Esconderam-se em um armário. Resistiram por pouco tempo: o armário despencou, o mestre enrubesceu. Os alunos ficaram de segunda época em História.

Todas as casas resistiram por vários anos em Mogi. Sobreviveram até mesmo à repressão imposta por alguns delegados de polícia que, por motivos não menos suspeitos, insistiam em fechar as ditas casas suspeitas. Elas só não resistiram mesmo à liberalidade sexual dos anos 70 e ao advento da Aids dos anos 80. Aí, tudo fechou. Houve quem tentasse reviver os velhos tempos. Mas nada será igual.

FLAGRANTE DO SÉCULO XX

(Foto: arquivo pessoal)

1970 – Pode acreditar, é pura verdade: no desfile pelo aniversário da cidade, em 1970, há 49 anos, o Gran Circo Americano, que estava montado na Chácara da YaYá, levou para a Avenida Pinheiro Franco uma de suas jamantas, conduzindo os elefantes que participavam de suas funções.

Carta a um amigo

Montezuma não me pegou

ANTROPOLOGIA – Museu Nacional de Antropologia, na cidade do México. (Foto: arquivo pessoal)

Meu caro Alberto

Lembrei-me desta passagem ao recordar, dia destes, conversa que tivemos há algum tempo, véspera de uma viagem que eu tinha para o México. Você me disse: “Vais ao México? Então, cuidarei para que Montezuma nos vingue a todos, aplicando-lhe o corretivo de sua maldição”.

Era uma viagem de apenas três dias. Da Maldição de Montezuma eu sabia pouco, até então. Tudo o que me chegara a respeito viera pelo testemunho de José Flávio, primo que dirige a área jurídica de uma multinacional e que viveu alguns anos na cidade do México.

Fundada 175 anos antes da descoberta do Brasil, a cidade do México foi erigida a partir de 1325 em uma área diabólica: num lago, posteriormente drenado, circundada por vulcões (alguns ainda ativos) e passível de constantes terremotos. Há tremores diários, quase imperceptíveis. Nada parecido com o de 1975, que deixou 20 mil mortos e 3 mil edifícios destruídos.

Uma das maiores cidades do mundo hoje, com graves problemas de poluição atmosférica, ela preserva, com orgulho, muito da cultura asteca que lhe deu origem. Boa parte dessa tradição está atrás de vitrines de vidro no valioso Museu Nacional de Antropologia. O melhor, entretanto, está mesmo na Praça da Constituição, o Sócalo, como a chamam os mexicanos, com o Palácio Nacional, criminosamente construído pelos invasores espanhóis com a utilização das mesmas pedras utilizadas na praça original, que os astecas erigiram e os colonizadores colocaram abaixo.

O melhor, entretanto, são os poucos trechos dos canais de abastecimento de água construídos séculos atrás. Na área onde está hoje o Parque Chaputelpec, foram feitos vários reservatórios, que armazenavam a água vinda das montanhas vulcânicas ao redor da cidade. Uma rede de canais conduzia a água para o centro histórico, hoje Sócalo. Alguns trechos desses canais foram preservados e podem ser vistos, principalmente no Paseo de La Reforma. Estão cerca de dois metros acima do nível da rua. Por uma razão: a cidade do México, nos últimos 90 anos, baixou nove metros o seu nível urbano.

A água vulcânica, rica em minerais, provocava diarreias homéricas em quem a consumia. Era a Maldição de Montezuma. Que não me pegou nos dois dias que fui hóspede do imperador asteca. Para alegria de poucos; e tristeza de muitos.

Grande abraço do

Chico

Alfredo José Nahum. (Foto: arquivo pessoal)

GENTE DE MOGI

AMIGO – Procure, pela cidade, alguém, que o tendo conhecido, faça-lhe algum reparo. Eu jamais ouvi. Era um mogiano típico, daqueles de abraço longo e frases certeiras. Não me lembro de ter encontrado, qualquer dia que fosse, a porta de sua casa na Rua Coronel Souza Franco fechada. Alfredo José Nahum morreu em dezembro de 1993.

O melhor de Mogi

Há dois serviços do governo estadual na cidade que merecem aplausos: o restaurante Bom Prato e o Poupa Tempo.

O pior de Mogi

Mais uma ocorrência de furto, há dias, no vestiário masculino do Clube de Campo de Mogi.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… provar o bigorrilho do Mercado Municipal.

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