ENTREVISTA DE DOMINGO

Solange Parada, a arquitetura que humaniza a vida

Solange Parada

Solange Parada conta histórias vividas na Arquitetura e na ONG Instituto Terra Projetos Pró-Comunitários

Envolvida em projetos sociais desde os 11 anos, quando começou a participar das atividades na Entidade Espírita Cáritas, a mogiana Solange Parada defende o poder transformador das pessoas a partir do momento em que passam a ter dignidade e a melhoria do ambiente em que vivem. Formada em Arquitetura e Urbanismo na turma de 1980 da Universidade Braz Cubas (UBC), há 15 anos ela fez parte da fundação da Organização Não-Governamental (ONG) Instituto Terra Projetos Pró-Comunitários, da qual é presidente, que atende entidades de Mogi e Região com projetos de arquitetura e design de interiores. Filha caçula do artista e comerciante Rubens Parada, que por vários anos esteve à frente da Parada Vidros na Cidade, e da dona de casa Lourdes Parada – que faleceu no ano passado -, ela fez o primário e o ginásio no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e o colegial no Liceu Braz Cubas, onde se formou em Magistério. Após a Faculdade de Arquitetura e o estágio no escritório do engenheiro José Machado Pinto, Solange trabalhou em uma construtora da Cidade, atuou na Capital e também na loja de quadros do irmão, Sérgio Parada, onde começou a ser procurada para desenvolver vários projetos em sua área. Em 1985, montou o primeiro escritório e, nos anos 90, desenvolveu vários trabalhos comerciais, especialmente para lojas do Mogi Shopping, que estava se instalando na Cidade. Hoje é adepta do sistema home work. Na bagagem profissional, traz ainda a experiência como professora nos cursos de Arquitetura da UBC, durante 16 anos, e na Bela Artes, onde atuou três anos. Na entrevista a O Diário, Solange conta suas histórias vividas em Mogi:

Como foi sua infância na Cidade?

Quando nasci, meus pais (Rubens e Lourdes Parada) moravam em uma casa da Rua Tenente Manoel Alves dos Anjos, mas 5 anos depois se mudaram a Antônio Meyer, no Jardim Santista, onde ainda havia poucas residências e tínhamos um terreno vazio que chamávamos de campinho. Nos divertíamos ali, fazendo guerra de mamonas, espirrando água uns nos outros, tomando banho de mangueira, andando de bicicleta e enchendo vidros de maionese com vagalumes. Era uma época boa, em que podíamos brincar com tranquilidade na rua. Sou a caçula dos quatro filhos (Sônia, Sérgio, Sidnei e Solange) e meu pai sempre foi ligado às artes, fez parte do grupo de fundadores da Amba (Associação Mogiana de Belas Artes), na década de 60, expôs fora do País, mas para sustentar a família, teve durante muitos anos a Parada Vidros. Minha mãe trabalhou antes de se casar, mas depois passou a se dedicar aos filhos e à casa.

Onde você estudou?

Não fiz a pré-escola, entrei direto no primário no Instituto de Educação Dr. Washington Luís, onde tive professoras como dona Maria José Grinberg, Maria José Franco, e também estudei o ginásio. Havia excelentes professores, como Mieka Fukuda, de Artes; Niquinho (Antônio Freire Mármora), de Música; Cláudio Martins, de Matemática; entre outros. Nesta época, também fiz balé com a professora Clara, que dava aulas em uma sala na esquina das ruas Ipiranga e Braz Cubas e depois mudou para o prédio em cima do Cine Urupema. Depois, cursei o colegial básico e o Magistério no Liceu Braz Cubas.

Por que a escolha pelo Magistério?

Toda a família era de professores e eu sempre falava que não queria esta carreira, mas quando fiz o Liceu, as outras opções eram Química e Secretariado, então, preferi o Magistério, que anos mais tarde exerci, lecionando nos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Braz Cubas (UBC), durante 16 anos, e da Bela Artes, onde fiquei três anos.

E a formação em Arquitetura?

Nos tempos de colégio, no Liceu Braz Cubas, tive aulas de teatro com o Gerson Barros e pretendia estudar nesta área, mas minha mãe não queria. A Faculdade de Arquitetura havia sido criada há pouco tempo na Braz Cubas e estava na moda. Com as amigas Laurinha Gonçalves, Maria Tereza Simões e Regina Jardim, fui assistir a uma aula lá e naquele dia houve apresentação de um grupo de teatro. Fiquei entusiasmada e quis fazer o curso, onde tive aulas de Desenho com Neusa Pires, da qual fui monitora, assim como da Célia Boratto. Já gostava de artes e, com o tempo, peguei gosto também por projetos. O professor Eduardo Kneese de Mello lecionava História da Arquitetura e me encantava com suas aulas. Uma vez, nos mostrou o projeto do Museu do Louvre. Em outra ocasião, nos falou sobre o Centro Georges Pompidou, um prédio moderno com estrutura metálica em um bairro tradicional de Paris, na França. Estávamos no final da década de 70 e tudo isso me abria os olhos para novos horizontes e para o mundo. Sempre ia estudar em outras cidades e na Capital e passei a respirar arquitetura 24 horas por dia.

Você já trabalhava na área?

Fazia monitoria pela manhã, estudava à tarde e havia também o estágio no escritório do engenheiro José Machado Pinto. O curso da UBC estava entre os três melhores do País, havia vários professores da USP (Universidade de São Paulo), como o Célio Pimenta, de História, que era bastante rigoroso, e o Eduardo Corona, que chegou a dar aulas para minha turma e fez o projeto do Campus da Braz Cubas. Tínhamos ainda a Silvia Franco, Vladimir e Stela Polimeno, entre outros, que eram de Mogi. Profissionais hoje de renome, como João Armentano, que em um dos trabalhos sobre cores pegou uma pomba e jogou no meio da sala de aula, como um mágico; Léo Shehtman; e Itamar Beresin, que tem escritório em São Paulo e Nova York, eram alunos do curso na época, assim como o Roger, vocalista do grupo Ultraje a Rigor, que inclusive fazia shows nas festas, assim como o pessoal do Mato Grosso tocava berrante e os bolivianos apresentavam músicas típicas. Havia eventos animados, como o Interfaces, que reunia esporte, shows e palestra.

Quando a Cidade começou a mudar?

A instalação das universidades foi um marco na história de Mogi, que passou a receber muitos estudantes de fora que aqui acampavam na época dos vestibulares e, aprovados, ficavam morando em repúblicas, geralmente no Mogilar, que até hoje tem o metro quadrado valorizado porque há muita procura por moradias por parte de estudantes e pouca oferta. Nossa casa vivia cheia, com meus amigos e dos meus irmãos. Esse pessoal que vinha de outras cidades, muitas vezes acabava se casando no período da faculdade, iniciando carreira, formando família e, então, ficando por aqui. Por isso é que Mogi mudou muito.

Quais eram os pontos de encontro da época?

Além das festas dos estudantes e na casa das famílias mogianas, havia barzinhos e lanchonetes onde costumávamos nos reunir, como o Claudio´s, na Avenida Vereador Narciso Yague Guimarães, em frente à UMC (Universidade de Mogi das Cruzes); o Dunga, na Princesa Isabel de Bragança; o Dudu, na Rua Francisco Franco; o Chalé, na Praça São Benedito (Largo Bom Jesus); a discoteca Kanguru, também na Princesa Isabel, entre outros.

E depois da conclusão da faculdade?

Comecei a trabalhar em uma construtora em Mogi, onde fiquei três anos, depois fui para São Paulo e, de volta para cá, cismei que queria ir embora para Maceió, então trabalhei um tempo com meu irmão Sérgio, na loja de quadros, para juntar dinheiro. Foi neste tempo que começaram a aparecer vários projetos e minha amiga Cecília Moraes me convidou para montarmos um escritório juntas em Mogi. Então, o primeiro foi na Rua Barão de Jaceguai, no ano de 1985, em sociedade com ela. Dois anos depois, ela saiu e eu continuei lá por mais quatro anos, até que fui para a Rua Capitão Manoel Rudge, onde vivi o boom profissional, nos anos 90.

Como foi este período?

Foram vários projetos, principalmente comerciais, onde é preciso ser ágil e criativa. Com a inauguração do Mogi Shopping, fiz muitos projetos para lojas e cheguei a cuidar de 10 ao mesmo tempo, trabalhando de manhã até a madrugada do outro dia. Mas também fiz projetos residenciais e para indústrias, como a Kimberly de Suzano e de Porto Alegre. Na área de estrutura metálica, ganhei premiação com as casas do Iram Alves dos Santos, na Vila Oliveira, e o edifício da Marrano Advocacia, na Praça Norival Tavares. Da Capitão Manoel Rudge, fui para um imóvel próprio, na Otto Unger, onde montei escritório e ateliê e fechei há 3 anos, quando adotei o home work, após 35 anos com escritório e funcionários. Já cheguei a ter 10 estagiários e secretária e hoje tudo se resume a uma cadeira e mesa com computador. Atualmente, há clientes que moram no Exterior e fizeram obras em Mogi e na Riviera, por exemplo, se comunicando comigo pela Internet. Tudo mudou muito e é preciso se adaptar.

Quando surgiu a ideia de montar o Instituto Terra?

Em um curso de liderança, levada pelas amigas Roseli e Rita Pomares, conheci o Grupo Sol, que fazia visitas a entidades sociais e depois passou a se chamar Raios de Sol. Algumas pessoas de Mogi iam para São Paulo participar do grupo e resolveram montá-lo aqui. Todos os segundos domingos do mês, passávamos o dia em uma creche ou asilo para levarmos alegria e abraços, mas como a maioria dos integrantes era formada em Arquitetura, víamos a precariedade dos prédios e queríamos fazer algo para ajudar. A Casa da Criança ficava atrás da Catedral e era toda cinza e com grades. Quando soubemos que ela seria levada para o São João, procuramos o padre Attílio Berta e fizemos como na Casa Cor, onde cada profissional escolhe um espaço para cuidar. Tudo ficou tão maravilhoso que as crianças não acreditavam no que estavam vendo e tinham receito até de tocar nas paredes e móveis. A Erineuda Ventura conseguiu a parceria com o Consulado do Japão para os equipamentos de odontologia para o consultório montado no local. Parecia um sonho. A TV Diário fez reportagem conosco e, por conta disso, a Globo também mostrou nosso trabalho.

Quais outras entidades o Terra já atendeu?

Fizemos projetos na creche Ane (Associação Nova Esperança), do Jardim Nova União, e também reformamos a fachada de 120 casas de três ruas do bairro, que não tinham muros e calçadas; montamos uma biblioteca comunitária no Jardim Aeroporto II, com a ajuda da Suzano Papel e Celulose, que atendia 100 pessoas e passou a receber 600, se transformando em um centro cultural direcionado a moradores de bairros vizinhos; em parceria com a Gerdau fizemos sala de aula e de informática, padaria profissionalizante e parte da cozinha do Núcleo Aprendiz do Futuro, onde ainda atendemos o pedido das crianças e construir uma quadra poliesportiva. Pelo Facebook, consegui doações de blocos, areia e cimento. Fizemos projetos para várias entidades, como Abomoras (Associação Beneficente Onde Moras?), Abrac (Associação Beneficente de Renovação e Assistência à Criança), Instituto Pró+Vida São Sebastião e, atualmente, estamos envolvidos no projeto para a Creche Fraternidade. Além de contar com parcerias, também realizamos eventos a fim de arrecadar recursos para as obras, temos 15 profissionais na diretoria e voluntários que sempre nos ajudam nos trabalhos.

O que representa o trabalho social?

Frequento a Entidade Espírita Cáritas dede os 11 anos, então já estava envolvida com o trabalho social antes da fundação do Instituto Terra , meus pais também sempre ajudaram e minha tese de mestrado na UBC foi a criação de um Centro de Integração de Menores, porque já havia a Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor) e pensava em uma proposta diferente. Com o Terra consegui unir o social com o conhecimento como arquiteta para doar meu trabalho a fim de ajudar a resolver as carências das entidades. Além disso, fazemos campanhas de arrecadação de alimentos e demais produtos que as instituições mais precisam e realizamos festas como no Dia das Crianças e na época do Natal, onde sempre temos uma grande troca. Quem começa um trabalho social pensa que está doando, mas recebe muito mais do que dá. É gratificante ver os resultados e isso mexe com nossa sensibilidade.

Como mogiana e acompanhando as mudanças da Cidade, era possível imaginar este desenvolvimento atual?

Não imaginava este crescimento e, principalmente, a verticalização. Este processo demorou para acontecer, mas nos últimos anos, foi tudo muito rápido. Antes, fazíamos vários projetos para residências, mas hoje, como a maioria mora em apartamentos, nossa tarefa é mais o design de interiores. Pena que esse boom que a Cidade vive acontece sem ordenamento e desenho urbano para garantir melhores condições de circulação e acesso. Também sinto que é preciso mudar o olhar para o Centro, que está abandonado; aos moradores de rua, que necessitam ser acolhidos e levados a alguma estrutura de atendimento para deixarem as praças e ruas; e para as entidades sociais como um todo, porque não adianta ter uma casa de acolhimento se não forem oferecidos cursos para estes jovens que deixarão o local aos 18 anos e devem estar encaminhados no mercado. Enfim, é necessário garantir dignidade às pessoas.


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