CHICO ORNELLAS

Tal um cometa

A ENTREGA – Flagrante de 17 de novembro de 1929 com a presença, entre outros de Álvaro Prado, Carlos Alberto Lopes (prefeito, de chapéu claro e bengala), Deodato Wertheimer (deputado, de chapéu escuro e bengala ao centro), João Batalha, Joaquim de Melo Freire (a direita de Deodato), José Fontes, Leopoldo Mendes da Costa, Manoel Alves dos Anjos (vereador) e Manoel Gonçalves Real.
BERNARDO – O engenheiro mineiro viveu poucos anos em Mogi, voltou a Minas para acompanhar o tio Tancredo Neves.

Ele passou por Mogi como um cometa, esses enigmáticos corpos celestes que se movem em torno do Sol, deixando atrás de si uma cauda luminosa. Veio recém-casado, já pai, à beira dos 30 anos de idade. Foi morar, com a esposa Maria Del Carmem, em um dos simpáticos chalés que integravam o Pombal, no fim da Avenida Capitão Manuel Rudge. De lá saía pela manhã, para o trabalho, como engenheiro, na Companhia Suzano. Isso durou da segunda metade da década de 1970 até 1982.

Bernardo Quinto Brasil Tolentino era um mineiro típico, de fácil amizade. Mas mineiro de verdade: sobrinho de Risoleta Guimarães Tolentino Neves e do marido, Tancredo Neves. Hoje, apresentar-se como sobrinho de Tancredo gera reverência histórica. Àquele tempo – de 1975 a 1985 – um misto de admiração e temor. Eram os últimos anos do regime militar; havia uma tênue luz no fim do túnel. Mas a dúvida era maior. Tancredo Neves formava na oposição. Fora primeiro ministro no governo parlamentarista de João Goulart (1961/1962) e era voz de respeito no Senado, onde ocupava cadeira na bancada de Minas Gerais. Para Tancredo, a política era a arte do possível.

Mas, em Mogi, Bernardo jamais usou o parentesco nas relações pessoais. Não me lembro, nos muitos encontros que tivemos, de uma só vez ele se referir aos tios. Levava a vida obedecendo ao tempo e às regras. Era um jovem senhor, que gostava das partidas de tênis no Clube de Campo e das reuniões em sua própria casa, ou nas dos amigos. E obedecia ao estilo de vida da classe média, sem arroubos e demonstrações exteriores.

Mas lhe veio um dilema: em 1982, o tio Tancredo o sondou, o queria coordenador de sua campanha para o pleito que, naquele ano, elegeria governadores; ele candidato ao governo de Minas. E ele não poderia deixar o trabalho na Companhia Suzano, dependia do salário para sustentar a família, que não o acompanharia na missão.

Pensou então em uma triangulação. Trocaria o trabalho na iniciativa privada por um cargo em empresa pública. E a mais palatável lhe pareceu a Eletropaulo, que assumira havia pouco o acervo da Light, antiga distribuidora de energia elétrica. Foi criada pelo governador Paulo Maluf.

Bernardo consultou o tio, que aprovou a proposta, mas esquivou-se de qualquer interferência. O sobrinho que resolvesse por meios próprios. E assim foi feito: em uma visita de Maluf a Mogi, Bernardo armou um encontro com amigos daqui e submeteu a proposta ao governador. Que, é claro, aprovou de pronto.

E lá se foi Bernardo para Belo Horizonte. Foi a última vez que o vi: eu tinha um trabalho qualquer por lá, desvencilhei-me a tempo e fui ao seu encontro no comitê de campanha. Ele ocupava uma sala simples, com mesa, a sua poltrona à frente de um mapa de Minas Gerais, com alfinetes de cores diferentes assinalando municípios de importância diversa. E duas cadeiras para visitantes. Sentei-me em uma delas e conversamos por quase uma hora. Ele estava animado, agia como um gerente; não enxerguei nenhum ranço político. Despedimo-nos.

No dia 15 de novembro Tancredo elegeu-se governador de Minas pelo PMDB. Não foi uma vitória fácil, teve 51,132% dos votos. Seu opositor Eliseu Resende, candidato pelo PDS, alcançou 46,47%. A posse foi no dia 15 de março de 1983 no Palácio Tiradentes, a icônica construção centenária que Tancredo fez questão de renovar.

E lá estavam Bernardo, Maria Del Carmem e os filhos, já de volta a Belo Horizonte para a nova vida, na qual Bernardo exerceria uma diretoria na Telemig, a estatal de telecomunicações que, para Minas, esteve como a Telesp para São Paulo.

Foram anos felizes esse meado da década de 1980. O jovem casal de volta ao seu mundo, criando os filhos e respirando os ares mineiros. Bernardo circulava pelos corredores do governo como se fosse a casa dos avós; cruzava sempre com o primo Aécio Neves.

Então se foi a família para férias em Búzios, um dos recantos prediletos para seu lazer. Certo dia, saíram – foi a versão que recebi – para buscar um buggy que alugaram, aqueles jipes conversíveis comuns nas praias. Chegaram à locadora, Bernardo ficou para pegar o carro e os outros partiram no carro da família. Mas ele demorou para retornar, mulher e filhos decidiram refazer o percurso.

Bernardo não resistiu a um acidente com o buggy. Por lei de setembro de 1992, há uma praça no bairro Cidade Nova, de Belo Horizonte, com seu nome.

CARTA A UM AMIGO
A primeira ambulância

Meu caro leitor

Durante bons meses de 1929 – há 89 anos – a Cidade se movimentou com o objetivo de colher fundos para aquisição de uma ambulância. Tinha 40 mil habitantes a Mogi das Cruzes dessa época. E uma frota de 800 veículos. Eram 15 mil habitantes no centro do município e 25 mil na zona rural e nos distritos. O município, em extensão territorial, era muito maior que o atual e incluía os territórios, depois emancipados, de Arujá, Biritiba Mirim, Itaquaquecetuba, Poá e Suzano.

A campanha chegou a bom termo e, no dia 17 de novembro de 1929, a elite local, orgulhosa, reuniu-se em frente da Igreja Matriz para a formalizar a doação da ambulância para a Secretaria da Saúde, que a colocou a serviço da Delegacia de Polícia.

A ENTREGA – Flagrante de 17 de novembro de 1929 com a presença, entre outros de Álvaro Prado, Carlos Alberto Lopes (prefeito, de chapéu claro e bengala), Deodato Wertheimer (deputado, de chapéu escuro e bengala ao centro), João Batalha, Joaquim de Melo Freire (a direita de Deodato), José Fontes, Leopoldo Mendes da Costa, Manoel Alves dos Anjos (vereador) e Manoel Gonçalves Real.

A bem da verdade, havia uma outra ambulância nas proximidades. Prestava serviço ao Hospital Asylo Santo Ângelo, o sanatório de leprosos, onde hoje está o Hospital Arnaldo Pezutti Cavalcanti. Mas ninguém de atrevia a compartilhá-la.

A partir daí, a ambulância que o povo comprou fazia viagens constantes, levando e trazendo doentes para o casarão onde funcionava a Santa Casa de Misericórdia, único hospital local. Ela ficou ali, de plantão, várias semanas entre julho e outubro de 1932, tempo que durou a Revolução Constitucionalista

Durante muitos anos essa foi a única viatura de socorro existente em Mogi das Cruzes. Quando se tornou imprestável, na década de 1940, o transporte de urgência passou a ser feito pela ambulância da Mineração Geral do Brasil, por muito tempo também a única da Cidade.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI
NENÊ – Carlos Ferreira Lopes, o “Nenê” como Mogi o conhecia, foi uma figura especial. Revia conceitos, jamais abria mão de princípios. Trafegou rapidamente pela política, ocupou por alguns meses a Prefeitura de Mogi, designado pelo governador; candidatou-se a deputado estadual e elegeu-se vereador (1948-1951). Mas sua predileção era mesmo pela esposa Iolanda, uma das damas mais elegantes que esta Cidade já teve. Morreu em setembro de 1981, tem seu nome a avenida de acesso ao varejão.

O melhor de Mogi
A Barragem de Taiaçupeba. É a “praia” de muitos mogianos que a preferem inclusive ao Atlântico de Bertioga. Na barragem, muitos praticam esportes náuticos. Bem que a cidade poderia pensar em um parque público à sua volta. Mas, por favor, com os necessários cuidados para evitar a poluição.

O pior de Mogi
Desconfie de político que alardeia, como conquista pessoal, a distribuição de verba pública. Lembre-se, sempre, que político nunca distribui o próprio dinheiro.

Ser mogiano é….
Ser mogiano é… lembrar da quadra de beisebol do Kosmos Clube, que havia no bairro do Mogilar.