DA MESQUITA

Tamareiras dão frutos em praça de Mogi

Tamareiras compõe a paisagem da praça localizada perto da mesquita, no Alto Ipiranga. (Foto: Eisner Soares)
Tamareiras compõe a paisagem da praça localizada perto da mesquita, no Alto Ipiranga. (Foto: Eisner Soares)

Estão nos canteiros da praça próximo à Mesquita, no Alto do Ipiranga, um contraponto sobre a força da natureza e um símbolo da união entre povos e religiões. Um professor de história sugeriu a notícia. Amadureceram alguns cachos de tâmaras dos pés plantados há 14 anos pelo comerciante libanês Mohamed Saada, responsável pela Sociedade Cultural e Beneficente Islâmica de Mogi das Cruzes.

Elas são típicas do deserto, mas ali cresceram e começam a dar as primeiras safras, entre sobressaltos. Além da retirada de flores e de frutos por pessoas desavisadas, a espécie vence as condições climáticas. Ela gosta de sol, terreno arenoso, clima quente. É típica de parte da Ásia e do Norte da África. E Mogi… bem, Mogi tem um clima úmido, faceta acentuada pela manutenção das barragens e revolução climática, apontada como responsável pelo processo de desaparecimento de milhões de espécies no planeta em pesquisa recente apresentada em Paris, pela Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

Pois essas tamareiras, 27, de tamanhos variados, subvertem essa ordem, e escrevem capítulo singular sobre a adaptação das espécies e o entrelaçamento das culturas árabe e brasileira na cidade. Foi o que chamou a atenção do mogiano e professor de história, Angelo Nanni, ao encontrar os frutos debaixo das palmeiras fêmeas plantadas na praça que tem na certidão oficial uma homenagem ao artista Antonio Ferri, mas é conhecida mesmo por ser vizinha do belíssimo prédio da Mesquita.

IDEIA Mohamad Saada plantou os pés de tâmaras há 14 anos. (Foto: arquivo)

Mohamad Ahmad Saada viu as tamareiras em semente. “Eu peguei as sementes da fruta e plantei”, lembra-se. Após criarem raízes, elas começaram a ocupar os canteiros no entorno do terraço onde está um minarete, no centro do espaço público. Essa é a terceira vez que após a florada, elas frutificam.

Nas duas anteriores, o número de bagos amadurecidos foi menor do que agora. Além de crescer a ponto de adocicar ainda no pé, por si só, a tamareira precisa vencer outras barreiras – algumas pessoas fazem a colheita fora do tempo e as incertezas sobre a polinização.

Há algumas semanas, um ajudante do jardineiro da praça, cuidada pela Sociedade Islâmica, cortou uma parte dos cachos para dar a uma vizinha da região. “Eu quase tive um negócio”, conta Saada. Mas ainda restaram alguns poucos frutos, dispersos entre a grama verde e as “heranças secas” deixadas pelos cachorros que frequentam a praça. Saada espera por melhores colheitas: “Elas podem crescer mais, as que estão dando são pequenas”.

Um dos lances mais interessantes dessa história começa alguns meses antes do atual momento, quando a palmeira fica em flor. Saada afirma, para surpresa de quem ouve, que ele dá uma força para a reprodução, na falta de abelhas, com a fecundação das espécies femininas com o polém das masculinas. “Se não fizer isso, não dá o fruto”, ensina.

O sonho dele é vê-las maior. “Há umas 50 espécies de tâmaras, diferentes, umas mais doces, outras menos”, acrescenta.

Na praça da Mesquita, ele afirma que há apenas quatro árvores fêmeas. “Todo o restante é macho”.

Além das tamareiras no espaço público, no interior da Mesquita, também há três árvores, plantadas no mesmo período, ao lado de espécies nativas de outros países.

A Mesquita de Mogi das Cruzes foi construída pela comunidade islâmica da cidade e Região em uma campanha iniciada nos anos 1980, com a realização de eventos e o levantamento dos recursos financeiros para erguer a estrutura, conhecida pela presença de dois minaretes, voltados em direção a Meca.

Aos 73 anos, Mohamad Saada está no Brasil desde 1959. E foi uma das lideranças durante a construção da Mesquita. Além das atividades religiosas, o local se projetou social e historicamente em atuações diretas no recebimento de um grupo de 56 palestinos no Brasil, em 2007, e em outras atividades.

É um dos marcos da presença da comunidade árabe em Mogi e Região frequentada por muçulmanos e visitada por estudantes e professores por causa de suas características arquitetônicas. Em azul e branco, diferencia-se de todo o restante do mobiliário urbano de Mogi.

Antes de ganhar como vizinho um centro comercial e do crescimento das árvores de seu jardim, ela fica ainda mais visível para quem olha à direta, quando na subida da Avenida Henrique Eroles, pouco antes da praça. Pode ser visitada, a partir do agendamento prévio (4799-9244).