SUZANO

Teatro da Neura em cartaz com ‘Antígona’

Trupe suzanense, que apresentou a primeira versão deste espetáculo em 2009, retorna com nova montagem deste clássico da dramaturgia mundial, por se tratar de uma peça que tem muito a ver com a atual situação do País. Apresentação de sexta a domingo no Espaço N de Arte e Cultura. (Foto: Divulgação)
Trupe suzanense, que apresentou a primeira versão deste espetáculo em 2009, retorna com nova montagem deste clássico da dramaturgia mundial, por se tratar de uma peça que tem muito a ver com a atual situação do País. Apresentação de sexta a domingo no Espaço N de Arte e Cultura. (Foto: Divulgação)

O Teatro da Neura está de volta com “Antígona”, uma das peças mais políticas do repertório do grupo. Escrita pelo dramaturgo grego Sófocles há mais de dois mil anos, a peça faz parte da Trilogia Tebana. Segue temporada neste mês de julho, de sexta a domingo, no Espaço N de Arte e Cultura, em Suzano.

O espetáculo teve a primeira versão apresentada pelo grupo suzanense em 2009 e está de volta em nova montagem pela semelhança com a atual situação política do Brasil.

“Antígona” faz parte de uma das linguagens do Teatro da Neura – o Teatro e Sociedade – que, como explica o diretor da peça Fernandes Junior, tem como base o Teatro Épico do dramaturgo, poeta e militante alemão, Bertolt Brecht (1898-1956) que propunha como pesquisa um diálogo direto com a plateia e que estimulasse o pensamento crítico através de suas peças. Para Brecht, não será na emoção  que o público vai encontrar a diversão, mas na reflexão sobre os acontecimentos que o espetáculo relaciona com a realidade.

“Diria que o Teatro Sociedade é um elemento típico do Teatro da Neura uma vez que ele usa os temas épicos para além das ferramentas que Brecht usava em suas peças”, comenta Júnior.

O enredo
Ambientada em Tebas, um país em guerra e manipulado por Creonte, um líder autoritário e violento, Antígona luta contra todas as injustiças para enterrar o irmão morto em combate. Ao buscar apoio em sua irmã e no povo, encontra apatia e descaso. Ao enfrentar todas as leis impostas pelo líder tebano e sepultar o irmão, enfrenta o fascismo, racismo, homofobia, xenofobia e feminicídio numa jornada que representa a luta coletiva por direitos e vai seguir sua fé pela justiça até o fim.

Tendo como base o poder da mídia como instrumento de tentativa de hegemonização do pensamento conservador, essa montagem de “Antígona” propõe a discussão de um Estado sem legitimidade e direção que, ao usar seu fantasioso poder contra seu povo, pode sucumbir se não perceber a tempo seu lugar na história.

Thaís Fernandes é atriz do Teatro da Neura há três anos e interpreta Antígona nessa remontagem. “Ela (Antígona) é muito combativa, muito justa, ela sai do campo da ideologia e age. E interpretar alguém assim nos dias de hoje, na era da passividade e de uma justiça seletiva, transita entre o encorajador e o necessário”, afirma.

A atriz reforça que mesmo o texto com mais de dois mil anos, está mais atual do que nunca. “O ato mais transformador para mim ao longo da montagem foi conseguir ver a figura da Antígona na atualidade. No começo eu não conseguia. Hoje eu consigo ver pessoas que agem para mudar a realidade em que vivem. Temos grandes figuras que conseguem chegar ao nosso conhecimento, mas também temos as ‘heroínas’ invisíveis, líderes de bairro, pessoas que estão à frente dos movimentos sociais”.

Protagonista é comparada a Marielle Franco
“Quando eu penso em Antígona na atualidade o primeiro nome que me vem é o da Marielle Franco (vereadora assassinada no Rio de Janeiro).  A figura dela e todas as lutas  que ela representava. A coragem de fazer, de denunciar, de enfrentar.  A importância de ter quebrado um estigma que é tido como natural, de quem uma mulher, negra, periférica, não pode ocupar os lugares que ela ocupava, e ela não só ocupou esses lugares como se fez ser ouvida, e levou com ela a luta de milhares de pessoas”. A avaliação é da atriz Thais Fernandes, intérprete de Antígona.

A atriz acredita que há muitas Antígonas espalhadas por aí e que a fórmula é simples. “Todo mundo que tira a ideologia apenas da cabeça e vai de modo ativo moldando essa estrutura fadada a ruína – que causa tanta desigualdade – para que haja espaço para as minorias, de luta por uma justiça que não sirva apenas a uma parcela muita pequena, que quebra a ‘lógica’ de que certos lugares não pertencem a certas pessoas, é uma Antígona”.

O espetáculo “Antígona” está em cartaz no Espaço N de Arte e Cultura, localizado à Rua José Garcia de Sousa, 692, Jardim Imperador, em Suzano. De sexta a domingo, durante este mês, às 20 horas.