CULTURA

Teatro Nô no palco do Casarão do Chá

Neste domingo, o prédio histórico no bairro do Cocuera sediará o XI Encontro de Nôgaku – Primavera 2019, com encenação de peças dessa arte japonesa que une canto, dança, música e poesia. (Foto: Divulgação)
Neste domingo, o prédio histórico no bairro do Cocuera sediará o XI Encontro de Nôgaku – Primavera 2019, com encenação de peças dessa arte japonesa que une canto, dança, música e poesia. (Foto: Divulgação)

O teatro Nô é uma arte japonesa do século XIV, que combina canto, dança, poesia e música de uma maneira refinada e altamente simbólica. Foi criado por Kan’ami e seu filho Zeami, podendo ser considerado uma bela síntese da cultura japonesa. Desde o início do século XX até os dias de hoje, continua sendo muito estudado pelos ocidentais. Em 2001, a Unesco reconheceu o teatro Nô como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade.

Neste domingo, dia 1º de dezembro, os grupos Houyou Kai e Yoroboshi Za realizarão o XI Encontro de Nôgaku – Primavera 2019 no Casarão do Chá, no bairro do Cocuera. Será um evento em homenagem ao mestre Masakuni Yamaguchi, que vai se aposentar após uma vida dedicada ao estudo do teatro Nô.

Nascido em Nagano, em 1931, Yamaguchi fez parte do pioneiro grupo Hakuyou Kai, fundado em 1939, por Nobuyuki Suzuki e seu filho Takeshi Suzuki. Em 1988, ele foi um dos fundadores do grupo Houyou Kai, seguidor da Escola Kanze, sediado na cidade de Mogi das Cruzes. De 2013 a 2015, presidiu a Associação Brasileira de Nôgaku (ABN), criada pela união de quatro escolas distintas de teatro Nô no Brasil.

O intuito desse encontro é honrar a trajetória de Masakuni Yamaguchi e, em gratidão ao seu percurso, afirmar a continuidade do estudo de teatro Nô no Brasil.

Na ocasião, o grupo Houyo Kai vai apresentar o hayashi utai (música e canto de Nô) da peça ‘Hachi no ki’ (veja sinópse nesta página), e o grupo Yoroboshi Za vai realiza o Han Nô (versão resumida) da peça ‘Hagoromo’, de Zeami. Além disso, serão apresentados outros pequenos trechos de peças clássicas de Nô, como o bailado de Funa-Benkei e o canto da peça Oimatsu, ambos realizados pelo grupo Brasil International Noh Institute.

A apresentação das peças será das 15h30 às 17 horas e a entrada é franca. Para mais informações, o telefone é (11) 4792-2164.

‘Hachi no ki’ (Árvores do vaso)

Peça popular no Japão, o protagonista é o samurai Sano Genzaemon Tsuneyo. Ao redor da aldeia de Sano, um monge viajante sofria com a forte nevasca. Decidiu pedir para passar uma noite em uma casa pelo caminho. A esposa dessa casa recusa, pois o marido está ausente. O marido ao retornar, também recusa a proposta dizendo que a casa era muito pobre. Mas convencido pela esposa, chama de volta o monge que partia na neve. O casal não tinha nada a oferecer, assim cozinharam arroz de awa (painço) e quando o fogo do irori (lareira) vai apagar, cortam o tesouro da família, que são três árvores de um bonsai, para reacender a fogueira e dar conforto ao monge. Ao ser questionado sobre seu nome, o proprietário revela que é Sano Genzaemon Tsuneyo e está disposto a lutar por Kamakura em qualquer momento. Após o monge partir, depois do ano novo, na primavera, chega um toque de convocação para Kamakura. Tsuneyo parte e, ao chegar, é conduzido para um encontro com Shogun Hojô Tokiyori. Tokiyori revela ser o monge da noite nevada e entrega de volta a Tsuneyo as suas terras perdidas, além de mais três territórios cujos nomes remetem às três árvores do vaso: ume (ameixeira), sakura (cerejeira) e matsu (pinheiro). Feliz, o samurai retorna a Sano.

‘Hagoromo’ (O Manto de Plumas)

Escrita por Motokiyo Zeami (1363-1443), principal nome do teatro Nô e também o maior artista do período Muromachi (1336-1573), ‘Hagoromo’ é uma peça clássica dessa arte. A protagonista desta peça é Tennin, um anjo celestial, ou como o poeta Haroldo de Campos a definiu, “uma ninfa lunar”. Num dia ensolarado, a Tennin é atraída pela beleza da Baía de Miho, nas proximidades do monte Fuji. Distraída pelo esplendor do local, ela retira seu manto de plumas (Hagoromo) e o pendura sobre um ramo de pinheiro. Um pescador que mora nas redondezas encontra o manto e se apodera da magnífica peça. Ao perceber o furto, Tennin suplica ao pescador que o devolva, pois sem o manto ela não poderia voar e retornar ao paraíso da lua.

O pescador responde que só devolverá o Hagoromo se a ninfa apresentar uma de suas danças celestiais. A ninfa alega que não poderá dançar sem o manto. O pescador reluta e a contesta, dizendo que, ao recuperar o manto, ela fugiria para os céus. Tennin lhe responde: “Só os homens duvidam. Falsidade não é coisa do céu”. Envergonhado, o pescador lhe devolve o manto de plumas. Feliz por reavê-lo, o anjo realiza então lindas danças de celebração e bênçãos para alegrar a humanidade aflita. Ao final da peça, ela desaparece no céu de forma esplendorosa, tendo ao fundo, o monte Fuji. ( Fonte: Jojoscope e Haroldo de Campos)


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