NOVO FUTURO

Tecnologia, ensino e o trabalho remoto são apostas para o futuro; profissionais falam sobre o “novo normal” no pós-pandemia

(Foto: https://www.pexels.com/ )

Em diferentes estágios de contaminação no mundo, a pandemia do novo coronavírus no Brasil está no terceiro ou quarto mês, uma conta que ainda dependerá das confirmações sobre quando ocorreram os primeiros casos no país. Em outras nações, a tábua epidemiológica da doença está em ordem decrescente. Ao contrário do que se vive agora nas cidades brasileiras.

Nas próximas semanas, no entanto, espera-se a inversão da curva de contágio, que determinará a redução dos doentes e mortes, a reabertura gradual das cidades, escolas, lojas, shoppings, praias. Quando isso acontecer, deverá ser estabelecido um “novo normal”, como tem sido chamado o período após a quarentena e a descoberta da vacina.

O que será tendência a partir da segunda maior epidemia desde a gripe espanhola, em 1918?

Reunimos respostas dadas por representantes de setores como educação, justiça, indústria, saúde, agricultura e desenvolvimento humano.

São apostas a popularização do uso da tecnologia em todas as áreas, o enraizamento do trabalho em casa, telemedicina e a inteligência artificial. A pandemia serviu como teste para alguns desses comportamentos e novos estilos de vida. Confira as opiniões dos nossos entrevistados:

Inteligência artificial

A saúde deverá incorporar home office, a telemedicina, não na primeira consulta, mas nos pareceres e acompanhamentos médicos. Outras tendências: a personalização diagnóstica, o uso da inteligência artificial e o cruzamento de dados sobre o paciente, inclusive na rede pública., revisão da saúde sobre a dependência de insumos básicos de grandes fornecedores, como a China; melhoria da saúde preventiva, por parte das pessoas; a revisão do parque dos serviços, com tendência de queda do número de beneficiários do setor privado, e a revisão do modelo público-privado.

Marcelo Cussatis, diretor de hospital e ex-secretário de Saúde

Ensino Remoto

O movimento nas instituições de ensino na adoção do Ensino Remoto Síncrono Emergencial mudou a realidade na educação. O uso de plataformas tecnológicas, já adotado em 20% das disciplinas dos cursos de graduação presenciais, tornou-se essencial e imprescindível para a continuidade da formação dos alunos. A pandemia mudou tudo, das relações até a forma de trabalho. Tivemos que adaptar os estudos de nossos alunos, capacitar professores, realizar investimentos em tecnologia e infraestrutura. É caminho sem volta.”

Renato Padovese, professor e reitor da Braz Cubas

Controle à distância

A pandemia expõe a necessidade de mudanças comportamentais, de saúde, trabalho e mercado. Na indústria, a tecnologia se fará presente, com mais atividades sendo controladas à distância. O trabalhador terá que estar apto a exercer várias funções e precisa dominar as ferramentas tecnológicas. No mercado, as pessoas estão adquirindo novos hábitos de consumo. Alimentos, embalagens e produtos de higiene são setores que deverão continuar em alta. O consumo passará por passar por transformações.

José Francisco Caseiro, empresário e diretor do CIESP Alto Tietê

 

Trabalho, e não emprego

A pandemia mostra como o egocentrismo enraizado no homem, mesmo em detrimento do bem social e coletivo e até pessoal. Não conseguimos cumprir nem 70% do isolamento, que significaria reduzir mortes e casos. Uma mudança será a consciência social. Forte mudança na relação do trabalho, que não será mais um emprego. Nesse pós-guerra, contra um vírus invisível, a educação à distância se mostrou impossível de ser executada, em países como o nosso, onde a internet não é de fácil acesso, mas será mais utilizada.

Marina Alvarenga, psicóloga e socióloga

Ganho de tempo, menos gasto

O poder judiciário terá aprendido valiosas lições. Conseguimos expandir o sistema virtual, possibilitando o exercício, em home office a juízes e servidores. Se o meio informático foi – e é – importante, não podemos descurar do material humano. O uso dos recursos virtuais trouxe ganho: fazer audiências por meio de videoconferência, possibilitando que testemunhas nem mesmo precisassem sair de casa para depor, gera ganho de tempo e redução de gastos. Aprendemos que ninguém sai de crise alguma sozinho.

Bruno Miano, juiz de Direito

A tecnologia no campo

Na agricultura, o cooperativismo terá mudanças significativas, com a introdução de sistemas tecnológicos digitais, para o encontro de melhores resultados da produção, venda e distribuição dos produtos. A democratização do acesso às estruturas digitais fortalecerá o pequeno produto e a agricultura familiar no agronegócio brasileiro. Não há outra solução para a pequena propriedade, ou média, senão o cooperativismo, defendido por autoridades em alimentos e agronegócio.

Simone Silotti, produtora rural de Quatinga

Profissões

Ninguém sabe quando vai acabar a pandemia e os efeitos dela. Hoje, tudo ainda é “futurologia” O que se viu agora, não é invenção, é adaptação para o atual momento – web meeting, palestras online, home office, a produção no campo digital. Nos próximos anos, deveremos caminhar um pé no online e outro, no off-line, e outras tendências virão. A tecnologia e a inteligência artificial irão eliminar profissões e criar outras. As novas gerações, que estiverem chegando ao mercado de trabalho, irão se adaptar, como aconteceu com quem tinha 20 anos, na década de 1990. As atividades repetitivas serão programadas, por pessoas que irão se capacitar para isso.

Eduardo Zugaib, escritor e palestrante

Nova economia

O futuro exigirá a re-capacitação, a médio e longo prazo, da mão de obra, e a revisão de modelos de negócios que passarão a ser mais demandados. Tivemos no Estado de São Paulo, nesse período, uma notícia interessante: 13,5 mil novas empresas foram criadas em abril, e 10,7 mil em maio em setores como alimentação, transporte, tecnologia e sistemas de trabalho online. A nova economia para o reinício planejado e sustentável das atividades, após a pandemia, aponta para tendências como o home office e formas de trabalho que otimizem o tempo, modere os custos, gastos e resultados, e, ao mesmo tempo, promova a qualidade de vida do trabalhador.

Patricia Ellen da Silva, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico e uma das fundadoras do Movimento Agora

Áreas verdes ao lado de casa

Acredito que existirá uma forte tendência de reaproximação das pessoas com ambientes naturais. De fato, esse comportamento deverá acontecer, não somente em decorrência da busca por locais com menor movimentação e aglomerações, e por espaços abertos, mas pelo aspecto terapêutico proporcionado pelo convívio com a natureza e sua biodiversidade: ambiente que nos traz paz interior, equilíbrio e bem-estar. E esta “busca” deve ocorrer, prioritariamente, em áreas próximas aos locais de moradia, evitando grandes deslocamentos. Por isso, ganhará ainda mais importância a conservação das áreas verdes próximas a zonas urbanas

Paulo Groke, diretor superintendente do Instituto Ecofuturo 

Ciência e consciência social

O período de isolamento nos mostrou a limitação e dependência do ser humano em diversos aspectos, inclusive da ciência. Com seu término, espero que tenhamos uma sociedade mais respeitosa e consciente, em relação à importância da família, do cuidado com a saúde, meio ambiente, etc. As audiências virtuais, o trabalho remoto, o atendimento ao público, na administração pública, ainda é tímido, mas tende a mudar. Não faz muito sentido, trabalhadores se deslocaram, às vezes, por longas distâncias, quando podem exercer a mesmo função em casa.

Leandro Lippi Guimãrães, promotor de Justiça do Ministério Público

A saúde como um bem de todos

Mecanismos serão construídos para conter efeitos e os riscos da interação entre os homens e os animais. Nós temos um planeta com recursos naturais em extinção, e dependemos desses recursos para ter água, alimento, ar limpo, etc. O conceito da Saúde Única, que envolva a saúde humana, veterinária e ambiental, será ainda mais destacado porque o mundo entendeu, agora, os impactos de uma doença infecciosa causada pela conexão entre os vírus existentes nos animais e que esperam um hospedeiro para criar doenças, como a Covid-19, a febre amarela, a dengue ….

Jefferson Leite, veterinário e observador de pássaros

E você, leitor?

Na sua opinião, o que será tendência a partir das mudanças de comportamentos e regras sociais aplicadas durante a pandemia da Covid-19? Mande a sua opinião para o e-mail diario@odiariodemogi.com.br ou no campo de comentários abaixo.


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