EDITORIAL

Tempos difíceis

É preciso acertar as políticas de prevenção contra doenças que levaram décadas para serem controladas

Em notícias recentes, o controle da raiva durante os últimos 30 anos no Brasil vinha sendo creditado à vacinação em massa de cães e gatos, ao cumprimento dos protocolos de atendimento após um paciente ser mordido por um animal desconhecido, entre outros fatores. A falta de vacinas em agosto, mês tradicional do calendário de prevenção à raiva animal, cria um clima de insegurança, alimentado por outros sinais preocupantes. Cidades como Mogi das Cruzes informam que a imunização de rotina dos animais domésticos após as 16 primeiras semanas de vida será mantida apenas enquanto durarem os estoques. E começam a pipocar, aqui e ali, notícias sobre a confirmação do encontro do vírus em animais domésticos e silvestres, estes últimos, cada vez mais presente no dia a dia dos municípios. Até ontem, o Centro de Controle de Zoonoses recebeu 118 animais feridos ou não encontrados no ambiente urbano.

No Alto Tietê, a confirmação sobre falta de vacina contra a raiva animal e o adiamento da campanha nacional ocorrem dois meses após produtores de Salesópolis registrarem a ocorrência de oito casos nos rebanhos de bovinos e equinos, e Mogi das Cruzes confirmar duas confirmações sobre o encontro de morcegos infectados. Esses animais podem transmitir a doença a cães e gatos, transmissores da doença ao homem.

Agosto é o mês tradicional de vacinação. As doses, informa o Ministério da Saúde, deverão ser liberadas mais à frente. A desarticulação do calendário complica a vida dos municípios, onde as prefeituras operam com recursos humanos e materiais enxutos.

A raiva humana tem alto índice de mortalidade, quando a pessoa infectada, especialmente em regiões afastados dos grandes centros, não é encaminhada para receber a vacina ou o soro antirrábico – que também já esteve em falta em determinados períodos dos últimos anos.

A saúde não permite vacilos. O que está acontecendo com o crescimento dos casos suspeitos e confirmados do sarampo mostra exatamente onde a corda estoura – na apreensão e no sofrimento das pessoas infectadas, que dependem de um serviço público superlotado.

No caso do sarampo, e também da raiva, as autoridades públicas precisam melhorar, e rápido, a comunicação sobre esses problemas com a população e a manutenção de estoques capazes de atender a demanda.

É preciso acertar as políticas de prevenção contra doenças que levaram décadas para serem controladas.

Com o atual sistema público e privado de tratamento e cura de doenças, o cidadão é refém da espera por consultas e cirurgias. Imagine um quadro de agravamento dos registros de sarampo, que tem um alto poder de contágio. São tempos difíceis.