CIRCUITO

Tereza Kayoko Takahashi, da Vigilância Epidemiológica, aponta como Mogi se mobiliza para enfrentar o coronavírus

Tereza Kayoko Takahashi. (Foto: Eisner Soares)

O novo coronavírus (Covid-19) pode chegar a Mogi das Cruzes. O alerta é da médica da Vigilância Epidemiológica Municipal, Tereza Kayoko Takahashi Nihei, 63 anos, sobre a epidemia originada na China que já se espalhou para vários países e teve a primeira confirmação no Brasil na última semana, após testes em um paciente de São Paulo que chegou de viagem da Itália. A prevenção, na avaliação de Tereza, formada em Medicina na Fundação Universidade Estadual de Londrina (PR) com especialização em Pediatria na Escola Paulista de Medicina, ainda é a única arma contra a doença, que tem milhares de casos confirmados e suspeitos no mundo, além de vítimas fatais. A médica, que nasceu em Borrazópolis (PR) e chegou a Mogi das Cruzes em 1995 por conta do trabalho do marido, o veterinário Mario Massayuki Nihei, garante que Mogi está finalizando o plano de contingência para possíveis ocorrências de coronavírus na cidade. Tereza, mãe de Camila e Rafael e avó de Jun, já atuou na Santa Casa de Mogi e nos hospitais Ipiranga e Via Vita (atual Mogi-Mater), ingressou na Prefeitura em 1999, trabalhou em unidades básicas de saúde e desde 2006 é médica da Vigilância Epidemiológica. Confira na entrevista a seguir como Mogi está se preparando para enfrentar a doença de repercussão internacional.

O coronavírus teve o primeiro paciente confirmado no Brasil, em São Paulo, na semana passada. A doença pode chegar a Mogi das Cruzes?

Mogi não está imune ao coronavírus, que pode chegar à cidade. É um vírus novo e todos somos considerados totalmente suscetíveis porque nunca passamos por isso, que independe de região, pois depende apenas das pessoas fazerem o contato e não estarem imunologicamente bem, já que não são todos que pegarem coronavírus que terão a forma grave da doença, precisarão de UTI e, eventualmente, poderão vir a óbito. Grande parte das pessoas terá formas mais leves, algumas poderão desenvolver algo mais grave e precisar de internação, de UTI, mas a maioria não. Por enquanto não temos casos suspeitos em Mogi. Houve aquele da jovem que voltou de viagem à China, mas já foi descartado. Mas não há como o coronavírus não chegar aqui, porque agora não é mais apenas a China, mas vários países, com o número de casos aumentando a cada dia. As pessoas viajam muito, inclusive a trabalho, mas se possível, deve-se evitar viajar, principalmente para estes locais onde há casos, conforme recomendação do Ministério da Saúde desde do surgimento da doença.

Mogi está preparada para o possível surgimento de casos?

É possível nos preparar em relação aos atendimentos, porque, infelizmente, não há medicamento específico, antibiótico que pode ser utilizado no tratamento. Neste caso não temos nada, porque é um vírus novo, que ficou conhecido a partir de meados de dezembro, quando um médico da China observou que havia algumas pessoas manifestando algum tipo de sintomatologia parecida umas com as outras, mas não relacionados a nenhum outro tipo de vírus. Ele começou a observar, relatou às autoridades e no final de dezembro viu que o vírus era diferente e ele começou a ser estudado. O avanço da tecnologia lá é tão grande que na primeira semana de janeiro já havia conhecimento deste vírus e conseguiram o sequenciar geneticamente. Viram que ele não se parecia com nenhum outro coronavírus e começou-se realmente a fazer a divulgação, comunicando a OMS, que foi à China realizar análise para fazer recomendações. Mas será pior porque a doença saiu da China e não sabemos como os outros países farão a contenção. Em Mogi, estamos finalizando o plano de contingência.

Como é este trabalho?

Todas as unidades já sabem o que deve ser feito, como o uso de equipamentos individuais de proteção em pessoas que estão trabalhando e naquelas consideradas casos suspeitos. Se o paciente está bem, tem que ficar no isolamento social, em casa, e não hospitalar. O hospital é para quem está precisando de assistência um pouco mais intensiva. Não é todo mundo que precisará de UTI. Há casos em que a pessoa vai precisar de enfermaria ou ficar no quarto, recebendo tratamento específico, com monitoramento mais de perto, às vezes com oxigênio, se o pulmão estiver comprometido. Depois que melhorar, vai para casa e enquanto tiver os sintomas precisa ficar no isolamento domiciliar. E os comunicantes desta pessoa também precisam tomar cuidado para que não fiquem indo a locais que concentrem muita gente, até para proteção das pessoas. Hoje são considerados suspeitos aqueles que estejam com sintomas respiratórios e tenham voltado de algum país que tenha registrado transmissão local.

A chegada do coronavírus ao Brasil já era previsível?

Nenhum país ficaria sem casos devido à forma como esta doença se disseminou, principalmente onde começou, na China, e pelo número de pessoas afetadas. O fato de ser um vírus novo já demonstrava sinais da facilidade de transmissão e era um indicativo que realmente a doença acabaria se disseminando. Não tínhamos como prever como e quando ela viria, mas de alguma forma chegaria ao Brasil.

Esta primeira confirmação já é motivo para pânico?

O pânico nunca ajuda em nenhuma situação e é algo que a gente não precisa porque atrapalha até o pensar, o bom senso e o agir. Mas tudo indica que desta semana para cá, como esta doença conseguiu se disseminar na Itália, Coreia do Sul e outros países, todos precisam ter preocupação em relação a ela e fazer sua parte, assumindo responsabilidades. Não devemos esperar pelo outro. Se a pessoa está doente, tem algum sintoma e pode ser considerada um caso suspeito, precisa procurar assistência médica e relatar se viajou para algum local onde se tem a transmissão local e tomar providências como não frequentar lugares onde haja muita gente, além de não fazer e nem receber visitas. Não dá para ter vida normal. Isso seria óbvio para quem tem consciência, cidadania e responsabilidade em relação à saúde pública e serve para toda a família e pessoas com quem convive, que também podem ser comprometidas.

Com o que devemos nos preocupar no momento?

A prevenção é tudo e começa em casa, porque aí vai sendo levada às escolas, às comunidades, enfim, a todos. Se você adota estes cuidados em casa, fará fora também e o problema vai sendo resolvido. Então é algo que precisamos ensinar para as crianças, desde as coisas mais básicas de higiene e a orientação em relação à importância de manter uma alimentação adequada. Não que a criança não possa comer as guloseimas da vida, mas deve entender que precisa dos diversos tipos de alimentos para ter uma saúde boa e só assim poderão conseguir prevenir as doenças, porque a própria imunidade da pessoa é um fator de bloqueio de muitas infecções.

Por que muitas vezes esta prevenção ainda não ocorre?

A prevenção não teria que ocorrer apenas com o coronavírus, mas com todas as outras doenças. Todo mundo tem a informação e o conhecimento. Na internet tem vídeos, sites, todo mundo tem celular e está nas redes sociais hoje em dia, enfim, informação não falta. O que precisamos é querer mudar e fazer a nossa parte. Falta uma mudança de atitude mesmo. As mãos precisam ser bem lavadas com sabão ou sabonete muito mais vezes no dia do que geralmente se faz. Isso deve acontecer toda vez que as pessoas forem se alimentar. Depois de tossir, coçar os olhos ou mexer nas mucosas, quer seja olho ou boca, as mãos também devem ser lavadas. Se for espirrar ou tossir, a proteção da boca precisa ser feita com algum tipo de lenço de papel e, logo em seguida, novamente a pessoa deve lavar as mãos. Chamamos isso de etiqueta respiratória. Além disso, não devem ser compartilhados utensílios como copos, talheres, batons, alimentos, garrafa de água, tudo que tenha contato com mucosas.

A senhora acredita que o coronavírus será uma pandemia?

A OMS ainda não declarou pandemia, mas isso vai ser mundial. Seguimos as diretrizes do Ministério da Saúde, que se orienta pela OMS e a Organização Panamericana de Saúde, e aguardamos as recomendações, mas já estamos cumprindo os procedimentos adotados em situações de pandemia ou emergência internacional de saúde pública. Os aeroportos fazem a orientação das pessoas que chegam de viagem ou vão viajar e ainda não vem sendo realizado o monitoramento de pessoas que voltam assintomáticas, porque a própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já disse que não é uma recomendação para o momento. Mas as unidades de saúde que recebem pacientes considerados casos suspeitos, já pedem que coloquem a máscara, os colocam em uma sala de isolamento, onde o médico vai atendê- -los e fazer a verificação se realmente são casos suspeitos ou não. Se forem definido como suspeitos, faz-se a coleta do material e os pacientes, estando bem, vão fazer o isolamento social em casa.

Qual a atual situação do coronavírus no mundo?

Temos casos em 41 países e isso não significa que há transmissão local em todos eles. Isso ocorre quando temos vários casos dentro do país. No Brasil, há um caso confirmado, mas não existe transmissão local. A forma como estes casos são transmitidos é que vai contar para dizer se temos transmissão ou não. E isso também depende do número de casos. Se tivermos 10, 20, 30, 40, 50 casos, mesmo em pessoas que vieram de fora, não haverá outro jeito, porque estes pacientes têm seus comunicantes e familiares, que acabarão contraindo a doença. Então, esta transmissão acontece no local, não mais lá no país onde a pessoa esteve, porque ela veio para cá e fez contatos. Isso fatalmente vai acontecer, porque a doença está presente em muitos países hoje.

Quando vamos saber mais sobre o coronavírus, como medicamentos e vacina contra a doença?

A vacina está bem avançada porque já há o conhecimento do sequenciamento genético, mas há a questão da fase de testes. E já existem alguns medicamentos utilizados para outras doenças, que são testados para o coronavírus com resultados bem promissores. Mas por enquanto não temos medicamento de forma concreta e pré- -definida para os casos mais graves, que o remédio ajudaria a não agravar tanto e fazer a prevenção de mortes. Até porque conhecemos o vírus há dois meses, é tudo muito novo


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