ARTIGO

Terrivelmente evangélico

João Anatalino Rodrigues

Duas almas chegaram à porta do céu no mesmo instante. São Pedro consultou os passaportes das duas e viu que a primeira era de um ateu, mas que em vida foi uma pessoa muito honesta. Sua ficha também dizia que ela criara uma bela família e trabalhara muito para sua comunidade.

O santo foi logo carimbando o seu passaporte.

─ Pelo visto você foi uma boa pessoa. Seja bem-vindo ao céu, meu filho.

Depois examinou a ficha da outra. Era de um padre, que fora muito rígido em questões de moralidade e ferrenho defensor dos dogmas da religião.

São Pedro olhou para ele com satisfação. “Eis um dos nossos”, pensou. “Um batalhador pela nossa causa, defensor da Igreja que eu fundei.”

─ Seja bem-vindo, meu filho. Pessoas como você enobrecem a Igreja ─ disse ele ao padre.
Escolheu uma chave, abriu uma das portas laterais e mandou o padre entrar numa sala ao lado, onde dois anjos fixaram nas suas costas um belíssimo par de asas. Em volta de sua cabeça colaram uma linda e vistosa auréola.

O padre ficou felicíssimo. Era agora um anjo. São Pedro olhou-o de alto a baixo e soltou um assobio de satisfação.

─ Ótimo, meu filho! Você está lindo. Agora escolha uma nuvem e comece a fazer o seu trabalho.
─ Não entendi, Santo Apóstolo ─ disse o Padre. ─ Se agora sou anjo, não deveria ir para o céu?

─ Ah! Esqueci de explicar para você que os anjos não moram no céu. Eles são guardiões da obra de Deus. Por isso vivem nas nuvens policiando o mundo para corrigir desvios e erros que possam colocá-lo em perigo de extinção.

─ Mas, meu Santo, isso não é injusto? Que adianta ser anjo? Rezei a vida inteira e agora vou ter que trabalhar eternamente? Isso não é uma inversão de valores? ─ choramingou o padre.

─ Ah! Essa é outra coisa que precisa ser explicada ─ disse São Pedro. ─ É que o céu não se conquista com rezas, mas sim com obras e virtude. E não é com asas que se entra nele, mas com as mãos. Agora, vá para a sua nuvem, meu filho, vá…

Dedico esta metáfora ao presidente Bolsonaro. Para dizer a ele que nenhuma crença tem o monopólio da virtude. Um ministro do STF precisa ser honesto, imparcial, ter reputação ilibada e notório conhecimento jurídico. Não tem que ser “terrivelmente evangélico”. A propósito, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, o casal Garotinho e outros “impolutos” personagens que estão na cadeia ou usando tornozeleiras eletrônicas também são evangélicos. A não ser que o presidente queira substituir a Constituição pela Bíblia (dele) sugiro que procure um profissional com essas qualidades, porque no seu ministério já há fariseus demais.

João Anatalino Rodrigues é escritor e advogado